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Título mais seguro da América Latina agora é bem menos estável

Aline Oyamada
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Título mais seguro da América Latina agora é bem menos estável

(Bloomberg) -- Uma onda de protestos transformou o melhor crédito da América Latina no de pior desempenho dos mercados emergentes este mês. E pode ser apenas o início de um período mais longo de volatilidade.

Os títulos de dívida denominados em dólares do Chile passaram a cair mais este mês, diante do impacto cada vez mais evidente das três semanas de protestos e motins que assolam o país. O investimento está estagnado, lojas foram fechadas e turistas estão evitando o país em meio à maior turbulência social desde o retorno da democracia no país em 1990.

Os títulos em dólar com vencimento em 2050 e 2047 registraram o primeiro e o terceiro pior retorno entre todos os 74 mercados emergentes e de fronteira dentro do índice Bloomberg Barclays Emerging Markets Sovereign. Os títulos chilenos acumulam baixa de 3,1% nos primeiros sete dias do mês, enquanto o índice de referência mostra queda de 0,3%.

O cenário político e econômico do Chile virou de cabeça para baixo diante da inesperada revolta social. Vinte pessoas morreram e mais de 25% dos supermercados do país foram vandalizados, saqueados ou queimados. Um choque para o sistema de um país considerado o mais estável e bem administrado da América Latina.

“Os mercados chilenos, a economia e o sistema político-social passam por uma mudança de regime”, afirmou Arthur Budaghyan, estrategista-chefe de mercados emergentes da BCA Research, em Montreal. “Como investidores, temos que estar abertos à ideia de que isso implicará em novas macropolíticas, que serão mais populistas.”

Ainda assim, o risco de crédito do país é o mais baixo da região, e está entre os menores dos mercados emergentes. O custo de hedge contra um default da dívida chilena nos próximos cinco anos corresponde à metade para o México e a um terço do valor para o Brasil.

Custos maiores

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, anunciou uma agenda social no valor de US$ 1,2 bilhão, incluindo um salário mínimo de 350 mil pesos (US$ 470) que vai beneficiar mais de meio milhão de pessoas, numa tentativa de acabar com os distúrbios.

“Esse choque vai deteriorar a atividade econômica e o investimento”, afirmou Felipe Labbe, economista do Deutsche Bank, em Nova York. “Subsídios e reformas necessárias incluídas na recente agenda social impactarão a posição fiscal e criarão mais déficit.”

O ministro da Fazenda, Ignacio Briones, reduziu a previsão de crescimento para cerca de 2% em 2019 em relação aos 2,6% previstos pelo governo em setembro. Ele estima o custo direto dos protestos entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões.

Com a continuidade dos protestos e a pressão sobre Piñera, Budaghyan acredita que os ativos chilenos devam mostrar desempenho inferior ao mercado por seis meses a um ano. O estrategista da BCA recomenda uma posição vendida em peso em relação ao dólar americano e reduzir a alocação em ações chilenas de overweight para neutra.

Impacto no mercado

Quinn Markwith, economista da Capital Economics, diz que há uma boa chance de que os protestos levem o PIB do Chile a encolher no quarto trimestre.

O índice IPSA da bolsa chilena acumula queda de 10% desde que os distúrbios começaram em 18 de outubro. O índice atingiu a menor pontuação em dois anos e meio na quarta-feira.

O desempenho do peso não é muito melhor. A moeda mostrou o pior desempenho entre 24 moedas de mercados emergentes em outubro, atrás do peso argentino, tendo caído para o menor nível em 16 anos na terça-feira.

Até os títulos externos, que mostravam maior resistência, começaram a cair este mês diante da maior cautela de investidores estrangeiros. Os spreads dos títulos em dólar do Chile aumentaram na semana passada, depois de terem encolhido no início do ano.

--Com a colaboração de Sydney Maki e James Attwood.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórter da matéria original: Aline Oyamada em São Paulo, aoyamada3@bloomberg.net

Para entrar em contato com os editores responsáveis: Carolina Wilson, cwilson166@bloomberg.net, Philip Sanders, Brendan Walsh

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