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Surtos de cólera acometem países de todo o mundo, e vacinas são racionadas

Centenas de milhares de pessoas estão sofrendo com surtos de cólera por todo o mundo. Com a seriedade da situação, agências de saúde estão sendo obrigadas a racionar as doses da vacina contra a doença, que se prolifera com enchentes, secas e conflitos armados, impulsionados pelas mudanças climáticas.

Há relatos de surtos na África, Oriente Médio, Sul da Ásia e Caribe, onde sistemas de saúde frágeis são sobrecarregados e milhões de pessoas passam pelo risco de contrair a condição. Geralmente transmitida pelo contato com água contaminada, ela pode levar a óbito por desidratação em menos de um dia, já que o corpo procura se livrar da bactéria com vômitos e diarreia extremamente líquida.

Bactéria causadora da cólera, como vista no microscópio (Imagem: Kirn et al./Molecular Microbiology/Domínio Público)
Bactéria causadora da cólera, como vista no microscópio (Imagem: Kirn et al./Molecular Microbiology/Domínio Público)

Como a cólera se espalha

Embora fatal em apenas 3% dos casos, a cólera vem matando em taxas aceleradas nos surtos mais atuais, mesmo que o tratamento seja simples e barato, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A doença é mais fatal nas crianças, que desenvolvem versões mais severas e são acometidas de falência dos órgãos mais rapidamente.

A tendência de transmissão da cólera costuma se seguir a grandes deslocamentos populacionais, causados por enchentes, ameaças de violência e fome, quando há pouco acesso à água limpa e condições sanitárias básicas. Em 2022, tanto países com surtos frequentes de cólera quanto aqueles que não a veem há décadas são afetados.

Na Nigéria, por exemplo, 1 milhão de pessoas já foram deslocadas por enchentes, dando lugar a 6.000 casos de cólera. No Quênia, refugiados somalianos podem ter trazido a doença, enquanto populações do Haiti e da Síria, por conta de conflitos armados, foram obrigadas a se deslocar e enfrentar condições sanitárias insalubres, compartilhando canos de água sem tratamento em espaços abertos. O rio Eufrates, por exemplo, recebe esgoto não tratado, gerando 20 mil casos suspeitos e 75 mortes.

Já no Paquistão, as monções deslocaram 10 milhões de pessoas ao alagar um terço do país, com relatos de cólera em uma dúzia de locais. Isso gera demandas altas de vacina, o que forçou a OMS a suspender a recomendação de 2 doses e se limitar ao racionamento, com apenas 1 dose sendo aplicada. É algo inédito em relação a vacinas, segundo a organização.

Homem recebendo solução para reidratação oral contra a cólera em 1992 (Imagem: CDC/Domínio Público)
Homem recebendo solução para reidratação oral contra a cólera em 1992 (Imagem: CDC/Domínio Público)

Vacinação, saneamento e dilemas

Com doses únicas o suficiente, é possível conter um surto, mas a imunidade gerada é mais curta, com duração entre 6 meses e 2 anos. Com duas doses aplicadas a um mês de distância, a proteção gerada é de 4 anos para os adultos. Com uma segunda dose em 6 meses, a imunidade é de 3 anos. A duração exata da proteção, no entanto, ainda é incerta, e há evidências de imunidade mais curta em crianças.

De 36 milhões de doses da vacina oral da cólera esperadas para 2022, 24 milhões foram entregues a campanhas de vacinação, com os 8 milhões restantes reservados para uma segunda onda de vacinações de emergência em 4 países: Camarões, Malawi, Paquistão e Quênia. Algumas organizações não-governamentais, como a GAVI, que gerencia estoques globais de vacina, buscam produzir mais doses até o final do ano, o que pode gerar 5 milhões de doses extras.

Isso deixa as agências com decisões difíceis nas mãos ao ter de escolher para qual país o envio de vacinas é prioritário: qual tem o potencial de espalhar mais a bactéria da cólera? É melhor prevenir ou remediar? Atualmente, a atitude se limita à reação, tentando evitar a mortalidade, sem a chance de prevenir. A vacina não é mirada em toda a população de um país, mas sim a que habita áreas com maior transmissão, onde também devem ser toamdas medidas sanitárias, como construir latrinas e trazer água pura e limpa.

Vacina contra a cólera sendo aplicada por soldado americano da saúde, em 1966 (Imagem: U.S. National Archives/Domínio Público)
Vacina contra a cólera sendo aplicada por soldado americano da saúde, em 1966 (Imagem: U.S. National Archives/Domínio Público)

Em meio a tudo isso, decisões de mercado afetam a produção de vacinas. A fabricante francesa Sanofi, por exemplo, planeja parar a produção do imunizante contra a cólera neste ano, terminando o estoque em 2023. Em países desenvolvidos, há pouco interesse em fabricar a vacina, já que custa US$ 1,50 (cerca de R_jobs(data.conteudo)nbsp;7,97) por dose. Em países ricos e sem guerra, a doença não se espalha, então há pouca necessidade do imunizante.

O dinheiro usado para fabricar a vacina da cólera costuma vir dos mesmos fundos usados para providenciar água potável e recuperação dos serviços sanitários em surtos, o que gera dilemas sérios. Em meio a tantos casos, há poucas mortes, o que reflete o fato de que o tratamento é barato e simples. Soluções salinas de reidratação oral e antibióticos costumam curar a maioria dos casos.

Agora, o esforço de mitigar as condições sanitárias que espalham a cólera vem sendo feitos, buscando aplicar também a dose única racionada recomendada pela OMS. Em 6 meses, a imunidade das pessoas vacinadas começará a sumir, então espera-se que já exista uma segunda dose para continuar a imunização. Apesar de isso ser o ideal, inseguranças e enchentes podem continuar a tornar a vacinação difícil.

Fonte: Canaltech

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