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Os "super contaminadores" de vírus, mito ou realidade?

Por Julie CHARPENTRAT
Pessoas de máscara em fila de supermercado em Codogno, perto de Mição (Itália), em 11 de março de 2020

Um paciente de coronavírus é capaz de contagiar dezenas ou centenas de pessoas? O conceito do "super contaminador" de vírus continua sendo muito questionado pelos médicos devido aos múltiplos fatores que entram em jogo durante a transmissão.

O conceito de "super contaminador" ("super-spreader", em inglês) já havia sido mencionado, por exemplo, durante outras duas epidemias mortais de coronavírus, a SARS (2002-2003) e a MERS (em curso desde 2012).

O termo foi retomado com a pandemia atual que começou na China e se propagou pelo mundo.

"Não é um termo médico, mas serve para designar uma pessoa que contagia proporcionalmente um grande número de indivíduos, sem que necessariamente exista um teto", explica à AFP Amesh Adalja, médico especialista em doenças infecciosas emergentes e na preparação de pandemias, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

- Variáveis -

Desde o início da epidemia no fim de dezembro, ao menos duas pessoas foram denominadas "super contaminadores" pela imprensa: elas teriam infectado mais pessoas que a média, que é de dois a três por paciente quando não são adotadas medidas de controle (confinamento, limitação de concentrações, entre outras)

Este é o caso de Steve Walsh, um empresário britânico que ao retornar de Singapura contaminou uma dezena de pessoas em fevereiro na França e Inglaterra.

Na Coreia do Sul, uma mulher de 60 anos identificada como "paciente 31" pode ter infectado dezenas de pessoas, especialmente durante um evento religioso em fevereiro.

Mas este conceito depende de muitas incertezas e variáveis, de acordo com especialistas: Como saber até que ponto influenciaram as características biológicas do enfermo, seu comportamento, seu entorno? Como eram as pessoas ela infectou? Eram especialmente vulneráveis? Como ter certeza que foi realmente a mesma pessoa que provocou todos os contágios?

Outra variável desconhecida é o papel de contágio das crianças, menos afetadas pelo coronavírus mas vetores da doença. Justamente porque existe o temor de que podem infectar muitas pessoas, vários países, como Espanha, França e Itália, fecharam suas escolas.

"É possível que existam os 'super contaminadores'. O problema é que não conseguimos detectá-los", afirmou o doutor Eric Caumes, diretor do departamento de doenças infecciosas e tropicais no hospital Pitié-Salpêtrière, de Paris.

"Parece que alguns pacientes, sem que isto esteja relacionado com a intensidade dos sintomas, excretam muitos mais vírus que outros e, portanto, o transmitem mais", disse à AFP o médico Olivier Bouchaud, diretor do serviço de doenças infecciosas no hospital Avicenne, nas região de Paris.

"Mas esta é apenas uma hipóteses e não temos uma explicação clara no momento", completou.

- "Todos diferentes" -

"Todos somos diferentes, no que diz respeito a nossos sistemas imunológicos, nossos comportamentos e os locais que frequentamos. Todos estes elementos podem desempenhar um papel no número de pessoas que podemos infectar. Os fatores biológicos e comportamentais podem influenciar, mas também o momento e o lugar", resume Christl Donnelly, professora de Epidemiologia Estadística do Imperial College de Londres e da Universidade de Oxford.

Estas incertezas levam o doutor Bharat Pankhania, especialista em doenças infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade britânica de Exeter, a afirmar que os "super contaminadores" não existem.

"É um termo inadequado. O que temos são circunstâncias que levam à infecção de um maior número de pessoas", declarou, ao citar o caso da "paciente 31" na Coreia do Sul.

"Na maioria das vezes é a multidão, um local confinado com pouca ventilação, um controle infeccioso equivocado (...) e com frequência uma pessoa no início de sua doença, quando as secreções estão no ponto máximo", disse.

Por estes motivos muitos preferem falar de uma "situação de super propagação", ao invés de classificar a pessoa como "super contaminador", que é um termo que estigmatiza, segundo o ministro francês da Saúde, Olivier Véran.