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Sul da Itália corre contra relógio para conter coronavírus

Por Ella IDE
A maioria dos casos da Itália está no norte rico do país, mas os virologistas alertaram que a doença corre o risco de se tornar uma epidemia no sul mais pobre

Uma corrida contra o relógio se instalou no sul da Itália para se preparar para a pandemia de coronavírus, devido às frágeis estruturas sanitárias nessas regiões menos desenvolvidas, com menos pessoal e material obsoleto.

O Hospital Cardarelli de Nápoles acaba de preparar uma nova unidade de cuidados intensivos. No edifício M, rebatizado de "Sala Coronavírus", restam agora alguns poucos leitos que logo cederão espaço para equipamentos e remédios mais sofisticados com o objetivo de salvar vidas.

Em toda região da Campânia, cuja capital é Nápoles, a atmosfera é muito diferente da que se respira em Milão, no norte do país.

Até agora, apenas uma pessoa morreu, na comparação com os mais de mil óbitos registrados em todo país. Ainda segundo o último balanço oficial, foram detectados na região menos de 200 contágios em relação ao total de 12.800 casos.

Na Calábria, foram registrados 32 contágios, e na vizinha Basilicata, apenas oito.

Os especialistas advertem que o sul não é imune.

No sábado passado, poucas horas antes do anúncio oficial com as inéditas medidas de contenção e de isolamento tomadas para o norte da Itália, vazadas pela imprensa, milhares de italianos foram para estações e aeroportos para voltar para suas casas no sul da península.

A reação preocupa as autoridades sanitárias, já que muitos deles podem transmitir o vírus.

Se na região mais rica da Itália, que produz mais de 20% do PIB, modelo mundial por seu eficiente sistema de saúde, as estruturas de saúde estão à beira do colapso, o que pode acontecer no sul, pobre e subdesenvolvido, vítima dos cortes orçamentários?

- Um preço alto -

"O sul está menos preparado e pode pagar um preço alto", advertiu o diretor do Hospital Cardarelli, Giuseppe Longo.

"O estado nos pede que nos preparemos. Estamos contratando centenas de médicos, enfermeiras e assistentes", contou em uma entrevista à AFP.

As sete regiões do sul e as ilhas da Sicília e Sardenha contam com 1.582 unidades de cuidados intensivos dos 5.400 que existem em todo país, segundo um balanço do La Repubblica. O jornal lembra que, há 15 anos, passavam de 20.000 em todo território.

Esta semana, o primeiro-ministro Giuseppe Conte autorizou a aquisição excepcional de equipamentos especializados para hospitais, frente à pandemia.

Em caso de necessidade, a "Sala Coronavírus" do Cardarelli poderá receber pacientes de outras regiões.

Pelo menos oito UTIs e 12 unidades para atenção especial estão prontas, embora a capacidade seja maior. Perto da sala de emergências foi montada uma barraca para os testes com saliva para pacientes que apresentarem sintomas preocupantes.

- 'Nem recursos nem equipamentos' -

"Temos pouco tempo para nos prepararmos. Espero que seja suficiente...", afirmou Maria De Cristofaro, de 65 anos, chefe da UTI do Cardarelli.

Desde que a epidemia surgiu no início de fevereiro, os médicos das unidades de tratamento intensivo foram "descritos como heróis".

Cristofaro adverte, contudo, que é evidente que "não podemos fazer milagres".

A doutora admite "que não tem justificativa" o caso dos "meridionais" - os italianos do sul - que decidiram voltar para casa, apesar do risco de infectarem seus familiares.

"Se tivesse estado lá, também teria tentado voltar", confessa Cristina Agosto, de 22 anos.

A jovem influencer Roberta Fusco, de 26 anos, reconheceu que também saiu de Milão, porque, depois de uma semana fechada, sentia falta do mar.

Já a estudante de medicina Federica De Masi preferiu lançar uma campanha para arrecadar fundos para o Hospital Cotugno, de Nápoles, especializado em doenças infecciosas.

"Temos que nos ajudar mutuamente, porque não temos os recursos, ou equipamentos, necessários para um momento como este", convoca a jovem no site gofundme.