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Substituto de Weintraub deve manter perfil ideológico, dizem especialistas

Hugo Passarelli

Gestão bolsonarista do MEC é marcada por caráter ideológico e dificuldade de execução Ainda não escolhido, o terceiro ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro deve seguir a linha de seus antecessores, opinam especialistas. As gestões de Ricardo Vélez Rodríguez e de Abraham Weintraub – que confirmou a saída do cargo nesta quinta-feira – foram marcadas por forte caráter ideológico e baixa capacidade de execução de políticas públicas.

“Não tenho esperanças de que o critério de escolha seja a competência. Será para atender a algum dos grupos que fazem parte do governo, como os olavistas, os de perfil mais técnico e [agora] partidos do Centrão”, afirma Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação.

Um dos apontados como substituto de Weintraub é Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização do Ministério da Educação (MEC), também integrante da ala olavista do governo. “[Se confirmado] o nome do Nadalim me preocupa porque ele possui experiência em gestão muito pequena, baixa capacidade de dialogar e de ter abertura a ideias diferentes”, afirma Priscila.

Priscila Cruz, Presidente Executiva do Todos Pela Educacao

silvia Zamboni/Valor

A presidente do Todos Pela Educação lembra que, nas metas de cem dias de governo, a única relacionada à educação era o programa de alfabetização, sob responsabilidade de Nadalim. “Não foi cumprida, não há política nacional de alfabetização”, afirma.

A pandemia do novo coronavírus foi o acontecimento mais recente a mostrar a inépcia do MEC, opina Priscila. “Existe um entendimento rebaixado em relação ao potencial do que o MEC tem a fazer na reação aos graves prejuízos da pandemia para a educação”, diz ela.

A opinião é compartilhada por Claudia Costin, diretora do centro de excelência e inovação em políticas educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Converso com ministros de educação de outros países com frequência. Mesmo nos países que são um federação, como o Brasil, há coordenação nacional na resposta à covid-19”, afirma.

Ela lembra que, além de uma crise econômica e sanitária, a pandemia trouxe uma crise educacional ao país. “Quando crianças e jovens ficam três meses afastados da escola, é grande a chance de aprofundamento das desigualdades”, diz Claudia.

Mais otimista sobre o futuro do MEC, ela diz que Nadalim não significaria necessariamente uma reedição da gestão de Weintraub. “Não acho que o governo precise ser como penso em cada detalhe. Há chance de ser uma gestão melhor se houver vontade de dialogar e negociar, se a agenda ideológica for evitada e se o foco for na implementação da política educacional”, afirma.

Daniel Cara, membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, não vê avanços no MEC sob o governo Bolsonaro. “A política educacional bolsonarista é a guerra cultural olavista, está entregue a uma máquina de propaganda que instrumentalizou o MEC”, afirma.