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Startups usam tecnologia para desburocratizar setor jurídico no Brasil

Startups atacam processos burocráticos do sistema judiciário brasileiro com tecnologia (Foto: Getty Images)

Por Matheus Mans

Temor de advogados há alguns anos e respiro de grandes escritórios hoje em dia, as legaltechs e as lawtechs estão crescendo e aparecendo no Brasil. Essas startups, voltadas para soluções na área jurídica, já passam de 200 no País e têm uma missão bem definida: diminuir a quantidade de burocracia e papelada dos profissionais de direito no Brasil.

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Segundo levantamento da Associação Brasileira de Lawtechs & Legaltechs (AB2L), o Brasil está vendo um bom momento no empreendedorismo no setor jurídico. Neste ano, as startups do setor já podem ser encontradas em 13 diferentes ramificações, como monitoramento de dados e até gestão de documentos por meio de inteligência artificial.

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“Há um número bastante expressivo de legaltechs no Brasil, e é um bom momento para esse setor. Há ainda uma forte concentração de startups no Sudeste, mas o Sul do país, especialmente Santa Catarina, já se destacam também no cenário nacional”, contextualiza Pedro Henrique Ramos, do Comitê de Legaltech da Associação Brasileira de Startups.

Uma das startups que mais chama a atenção, no meio desse cenário, é a Justto. Por meio de uma ferramenta de inteligência artificial, a empresa agiliza os processos de negociação de acordos, que hoje geram gastos de R$ 124,81 bilhões por ano no Brasil. “Era um setor que demandava boas e modernas soluções”, afirma Lilian Fonseca, cofundadora da Justto.

A plataforma funciona assim: a empresa paga uma mensalidade para a startup, que parte de R$ 500 e chega a até pouco mais de R$ 3 mil. Depois, numa plataforma, faz propostas de negociações e acordos — principalmente os trabalhistas e comerciais. A contraparte, enquanto isso, é convidada a entrar na ferramenta e dizer se concorda com aquilo ou não.

Um sistema de aprendizado de máquina, também da Justto, complementa a experiência fazendo indicações. “Por meio de dados analisados, a gente pode dizer se a oferta faz sentido ou não”, afirma Lilian Fonseca, cofundadora da Justto. “A própria tecnologia vai auxiliando as partes a chegar no melhor acordo. Assim, reduzimos os processos no País”.

Uma outra empresa, focada em “resolver o que os advogados não querem fazer”, é a Advys. A startup construiu uma plataforma online que responde dúvidas rápidas de informações jurídicas para PMEs e pessoas físicas a partir de R$ 49,90. Tudo, ali, é feito por um time de advogados e também por uma inteligência artificial própria da startup.

É possível também, em questão de hora, resolver assuntos de contabilidade, contratos e questões mais espinhosas relacionadas ao cotidiano de empresas e pessoas físicas.

Para Pedro Henrique Ramos, da ABStartups, essas empresas enfrentaram desconfiança do mercado no início de suas jornadas -- como os táxis com o Uber, os cinemas com a Netflix, e por aí vai. Mas isso está sendo contornado. “Sempre há resistência dos profissionais mais tradicionais. Mas, hoje, escritórios estão sendo obrigados a adotar a tecnologia”, afirma.

Imensidão de dados

No meio desse mar de empresas, há uma que se orgulha de ser a pioneira: a Finch. Ela nasceu dentro de um dos maiores escritório de advocacia do País, o JBM & Mandaliti, para lidar com contencioso de massa — ou seja, processo de empresas que respondem muitas demandas judiciais ao mesmo tempo. Deu tão certo que acabou criando pernas próprias.

A partir de soluções criativas que surgiam para esse setor, a startup desenvolveu um robô jurídico de automação de processos; um aplicativo para agilizar o trabalho de advogados e funcionários do escritório; e, hoje, é parceira da IBM numa ferramenta de inteligência artificial que classifica e interpreta documentos jurídicos para os setores de áreas legais.

“Reduzimos nossos custos operacionais em 35% com a inteligência artificial”, afirma Renato Mandaliti, CEO da Finch, que hoje tem 200 robôs em operação e que realizam mais de 2 milhões de buscas por dia nos tribunais. “Passamos a olhar o fluxo não pelo ponto de vista da lei, mas do ponto de vista do cliente do advogado. Tudo ficou mais fluído e mais ágil”.

Outra startup que tenta colocar ordem numa quantidade imensa de dados por dia é a Uplexis. Ela surgiu, em 2005, com um trabalho de capturar dados na Receita Federal para diversos setores do mercado, organizando-os numa única ferramenta. Agora, a plataforma evoluiu e passou a olhar para mais de 500 fontes de dados -- incluindo de interesse jurídico.

“Nossa ferramenta coloca ordem na imensidão de dados que existe à disposição de advogados e outros profissionais do direito”, explica Eduardo Tardelli, CEO da Uplexis. “É um mercado que precisa levantar muitas informações sobre bens, dados pessoas, leis. Nós estruturamos toda a informação para ser encontrada de maneira rápida e sem dificuldades”.