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Startups de educação fecham 2020 em crescimento e em transformação

Matheus Mans
·6 minuto de leitura
Agora, startups em crescimento e startups em transformação miram 2021 com um mesmo olhar de otimismo
Agora, startups em crescimento e startups em transformação miram 2021 com um mesmo olhar de otimismo

O ano de 2020 foi desafiador em várias áreas. Economia, saúde, políticas públicas. No entanto, há uma que se tornou especialmente complicada por conta da pandemia do novo coronavírus: a educação. Afinal, com as escolas de portas fechadas, alunos ao redor de todo o País precisaram encontrar meios de diversificar a maneira de estudar. Com isso, as startups de educação encontraram nesses desafios uma maneira para crescer no Brasil.

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Hoje, já são 799 startups voltadas para o setor de educação, de acordo com a Associação Brasileira de Startups (Abstartups). Elas, em conjunto, levantaram mais de US$ 175 milhões em investimentos, de acordo com um recente balanço do cenário das edtechs divulgado pela consultoria brasileira de inovação Distrito. Além disso, os investimentos bateram bons números mesmo durante a pandemia, chegando a US$ 23,4 milhões até setembro de 2020.


“Muito se fala das fintechs, mas as startups de educação estão decolando”, afirma Hélio Ribeiro de Souza, pedagogo e especialista em ensino digital. “Até 2019, acredito que não se via muitas possibilidades além da carteira, lousa e sala fechada. Agora, com essa pandemia, vimos que não só podemos ir além, como devemos procurar novas possibilidades. E em todas as áreas, em escolas particulares, em escolas públicas. Tudo”.

Números positivos

Uma startup que ganhou corpo durante o ano, e que mostra um pouco desse crescimento do setor, é a ChatClass. A startup, criada pelo alemão Jan Krutzinna, tem uma plataforma que funciona dentro do WhatsApp. O serviço usa um sistema de inteligência artificial para interagir com alunos do Ensino Fundamental e Médio por meio de áudios e textos. Além disso, professores conseguem ter dados da performance e esforço de todas suas turmas.

Em 2020, apesar de todas as dificuldades, os números são positivos. Logo no início da pandemia, a startup fez uma ação para estimular as pessoas a estudarem inglês em casa com a ferramenta de forma gratuita. Com isso, foram mais de 25 mil alunos em apenas 1 mês. A ChatClass também registrou um aumento de mais de 200 mil alunos em todo o País que começaram a usar a plataforma. Hoje, são mais de 400 mil estudantes atendidos.

“O setor cresceu bastante, mas esse é só o início de uma grande mudança na educação brasileira”, diz Jan Krutzinna, em entrevista ao Yahoo! Finanças. “No começo da pandemia, a área da educação ficou em uma grande crise justamente por não estar preparada para o uso de tecnologias digitais. Porém, com o tempo, grandes empresas e diversas startups começaram a ganhar tração com suas plataformas e soluções baseadas em tecnologia”.

Outra empresa que registrou bons números foi a mLearn, dona do Qualifica, um aplicativo educacional focado nas necessidades atuais e futuras do mercado. Conhecida como “Netflix dos cursos”, o Qualifica se tornou um HUB que conecta empresas, instituições de ensino, instrutores independentes e pessoas em busca de conhecimento. São cursos de tecnologia, idiomas, liderança, finanças pessoais, investimentos, vida saudável e muitas outras coisas.

“Neste ano, observamos o maior pico de engajamento de nossa história”, afirma Rômulo Abdalla e Gabriel Silva, executivos da empresa, em resposta por e-mail em conjunto. “A pandemia certamente foi um fator de grande influência deste aumento, atrelada a ação de Cursos Grátis que realizamos. Disponibilizamos cursos e conteúdos grátis para auxiliar a população neste momento de crise, o que impactou cerca de 80 mil pessoas”.

Transformações

Enquanto isso, muitas edtechs aproveitaram o momento para transformar -- enquanto algumas também se viram obrigadas a embarcar nessa mudança. Um bom exemplo é a MedRoom. Há cerca de dois anos na América Latina, a empresa está presente no Brasil com o Atrium, um laboratório de anatomia em realidade virtual. Nele, alunos de medicina e áreas correlatas tem a experiência de trabalhar com o corpo de um paciente.

Em 2020, a startup foi comprada pela Ânima, que detém marcas como Universidade São Judas, UniBH, entre outras, por valor não revelado. Era o ponto de transformação necessário. “Iniciamos o período com grandes expectativas de faturamento e, por conta da pandemia, perdemos 90% do que iríamos faturar devido ao congelamento de contratos”, conta Vinícius Gusmão, CEO e cofundador da startup. “Foi um momento complicado”.

Com isso, tudo na MedRoom mudou. “Tivemos que reestruturar nosso produto para EAD, já que todas as faculdades estavam sem aulas presenciais. Conseguimos nos reerguer e seguir com o time no aprimoramento de nossa solução, que inclusive foi utilizada para o treinamento de profissionais que atendiam pacientes com COVID-19”, diz. “Fechamos 2020 muito empolgados com os projetos que iremos desenvolver agora de ‘casa nova’”.

Outra startup que precisou se adaptar é a Quantum. A empresa é uma escola e plataforma de ensino com o objetivo de preparar crianças para as profissões do futuro com cursos de tecnologia, empreendedorismo e habilidades do século XXI. “São dois serviços. O primeiro é um kit educacional digital em que o aluno aprende no seu tempo para fazer com os pais. O outro é o kit com aulas com professores da Quantum”, conta Wellington Machado, CEO.

Dessa forma, ainda que venda para consumidor final, há um foco grande em escolas -- que fecharam as portas em 2020. “Com as escolas fechadas, por conta da pandemia, em 2020 investimos mais nas[vendas para o consumidor]. Mas algumas escolas, agora no final de 2020, estão nos procurando para implementar as aulas da Quantum, como a de Robótica Maker”, conta. “Este ano tivemos um grande reconhecimento, antes tínhamos uma atuação mais regional em São Paulo e agora temos clientes no Brasil e até em outros países”.

Depois de 2020

Agora, startups em crescimento e startups em transformação miram 2021 com um mesmo olhar de otimismo. “Surgiram muitas novas soluções ao longo do ano. O número de novas edtechs passou o de fintechs”, conta Bruno Mota, CEO da Plataforma A+, edtech de soluções voltadas para o mercado da educação. “Além disso, grandes grupos fizeram muitos investimentos estratégicos em aquisições de edtechs que tinham soluções complementares ao seu portfólio. Isso tudo mostra um aquecimento no mercado”.

Mas há alguns desafios a serem cumpridos. “Apesar de ter sido um lindo ano para a digitalização das aulas e das escolas, também ficou evidenciada a diferença entre escolas particulares e públicas. Uns tinham todos os recursos possíveis, outros não tinham nem acesso à internet”, afirma Hélio Ribeiro de Souza, pedagogo e especialista em ensino digital. “Acredito que, se quiserem mudar o País, as edtechs precisam olhar pra isso”.

E como ficam as escolas depois de todas essas transformações? “O futuro da escola é híbrido e a tecnologia não vai substituir tudo que acontece lá, mas vai ajudar”, conta Jan, da ChatClass, que dá um aviso. “Esse mercado vai crescer mais. No entanto, acredito que nem todas as edtechs vão se beneficiar. A demanda está aumentando, mas os orçamentos estão diminuindo. Não são todas as startups de educação que irão crescer, pois algumas têm soluções mais relacionadas ao ensino presencial. Essas, em especial, precisam se reinventar e ver como podem agregar valor no ecossistema educacional de agora”.

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