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Startup do Vale do Silício impressiona o mercado com ovos veganos

O Vale do Silício quer dominar o mercado de ovos plant-based - Just

Dizem que é impossível fazer omelete sem quebrar ovos, mas aparentemente Josh Tetrick nunca ouviu esta máxima.

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Josh, de 39 anos, é diretor executivo da Just, uma startup do Vale do Silício que vende uma alternativa “plant-based” aos ovos de galinha, um líquido amarelo que pode ser batido, mexido ou frito.

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Diferentemente dos ovos aos quais estamos acostumados, o produto da Just é feito de proteína de feijão moyashi. Tetrick precisou de U$ 100 milhões em investimentos de grandes nomes da indústria de tecnologia, incluindo Peter Thiel, do Facebook-backer Founders Fund, e Vinod Khlosla, fundador da Sun Microsystems, uma equipe de biólogos moleculares, especialistas em vegetação e quatro anos e meio para encontrar a planta perfeita entre as cerca de 390 mil espécies que crescem no planeta.

“Encontrar o feijão foi a parte mais difícil,” disse Tetrick. “Nós tínhamos a ideia, mas pensávamos: ‘Quem pode afirmar com certeza que existe um feijão que pode ser mexido como um ovo?’”

O feijão moyashi, encontrado em curries, foi selecionado após experimentos minuciosos com “centenas” de espécies diferentes, graças à sua textura semelhante à de um gel que, quando cozida, lembra a textura de um ovo, sem ficar torrado, evaporar ou produzir um odor desagradável. A adição de calor cria ovos mexidos com um sabor e uma aparência quase idênticos aos originais.

A aparência é muito semelhante à dos ovos tradicionais. Crédito: Margi Murphy

O apetite por alternativas à base de vegetais para substituir produtos de origem animal está provando ser insaciável. Entre alimentos fermentados criados em laboratório à base de células animais e de plantas, as vendas de produtos que substituem a carne só aumentam.

A Beyond Meat, que vende hambúrgueres à base de proteína de ervilha com sabor e aparência semelhantes aos da carne bovina em supermercados estrangeiros como Whole Foods e Tesco, fez barulho no mercado quando abriu capital em maio. A empresa, que valia U$ 1,4 bilhão, registrou um valor de mercado de U$ 11 bilhões em julho, e hoje vale cerca de U$ 9 bilhões.

Houve um rebuliço na Califórnia quando a Impossible Foods, que tem Bill Gates entre seus investidores, não conseguiu suprir a demanda de carne moída plant-based de restaurantes, após fechar um acordo com o Burger King para fornecer os ingredientes para seu “Impossible Whoper”, após o hambúrguer ter esgotado, em um teste realizado em St. Louis, Estados Unidos.

O mercado de ovos plant-based está entre os menos desenvolvidos, mas é um dos que mais crescem no setor. De acordo com o The Good Food Institute, os ovos plant-based já representam um mercado de U$ 6,5 milhões, e suas vendas aumentaram 105% em dois anos nos Estados Unidos.

Tetrick, cuja empresa recebeu cerca de U$ 240 milhões em investimentos até o momento, afirma que a economia está a seu favor. Ele diz que o mercado de proteína animal vale U$ 1,4 trilhão, e que o de proteínas alternativas já superou os U$ 10 bilhões. O mercado de ovos, considerados uma fonte saudável, barata e versátil de proteína, cresceu 4% ao ano desde 2016.

No momento, a produção de um ovo de galinhas criadas em liberdade custa cerca de 15 centavos de dólar nos Estados Unidos, enquanto o ovo de galinhas mantidas em gaiolas custa 8 centavos de dólar. O ovo da Just custa 22 centavos de dólar para a startup, mas Tetrick tem o objetivo de reduzir este custo até chegar a 4,7 centavos de dólar.

Alguns dos maiores apoiadores das marcas plant-based fazem parte da indústria da carne, e estão felizes em navegar pelos mares das mudanças no comportamento do consumidor.

Como você prefere seus ovos? Reais ou falsos? Crédito: Just

A JBS, maior produtora mundial de carne de frango, boi e porco, lançou seu próprio hambúrguer vegano. A Tyson Foods, segunda maior produtora do setor, abriu uma subsidiária para investir em alimentos plant-based, investiu em uma empresa fabricante de camarão plant-based na semana passada, e foi uma das primeiras a apostar na Beyond Meat.

Esta tendência é motivada pela conscientização dos consumidores, que buscam cada vez mais produtos livres de crueldade animal e itens que possam reduzir sua pegada de carbono. Os produtos são direcionados a pessoas que costumam comprar alimentos de conveniência.

Atingir a perfeição na fabricação de ovos falsos pode ser uma conquista monumental, já que há uma alta demanda por uma alternativa vegana para assar bolos e doces em geral e para “dar liga” a diversas receitas. Isso fica cada vez mais evidente nas redes sociais, onde receitas usando a água do cozimento do grão-de-bico para fazer doces estão em alta. Fotos com as hashtags #vegan (vegano) e #plantbased acumulam milhares de curtidas.

O fator mais importante é o sabor, um teste no qual a Just já passou, mas será que os ovos falsos são saudáveis? Eles são feitos à base de feijão moyashi finamente moídos, cultivados principalmente na Tanzânia e no interior da Mongólia. O processo permite separar a proteína do alimento, que é funcionalizada – um termo chique para alterar a química de um material em laboratório – e combiná-la com óleo de canola e cúrcuma para obter uma coloração amarelada. Sal, soja, açúcar e pirofosfato tetrassódico, transglutaminase e nisina também são adicionados para impedir que as gorduras se oxidem e preservar o “frescor”.

Os ingredientes despertaram dúvidas sobre quão saudáveis os produtos da empresa realmente são, em comparação com o feijão moyashi não processado do qual são derivados. Tetrick, que não é vegano, admite que poderia fazer mais para tornar os ovos da Just mais saudáveis. No entanto, a empresa, assim como outras companhias com foco em proteínas alternativas, não está competindo com distribuidores de vegetais e leguminosas, e sim com o mercado de alimentos processados de origem animal. O Just Egg contém 5 gramas de proteína vegetal por porção, um valor similar ao observado nos ovos de galinha, e é livre de colesterol, gorduras saturadas e sabores artificiais. A empresa espera conseguir aumentar o valor nutricional do produto, e continua a pesquisar novas receitas.

Os consumidores estão, cada vez mais, escolhendo itens que acreditam poder reduzir o impacto ambiental. A questão do aquecimento global nunca foi tão urgente, e as queimadas na Amazônia, que foram iniciadas para a obtenção de terras para a pecuária, fizeram com que muitos repensassem seu consumo de carne e laticínios.

No ano passado, as galinhas colocaram 1,4 trilhão de ovos para o consumo humano. O maior mercado é o asiático, e a Europa ocidental representa cerca de 10%. A Just vendeu o equivalente a 10 milhões de ovos em 5 mil estabelecimentos espalhados pelos Estados Unidos durante o mesmo período. A empresa afirma precisar de 77% menos superfície e água do que as marcas principais, e ter uma pegada de carbono 40% menor do que os maiores produtores de ovos de galinha. “Quilo por quilo, a produção de carne animal tem um custo ambiental muito maior do que a produção de proteínas à base de vegetais,” diz Stephanie Feldstein, diretora de população e sustentabilidade do Centro de Diversidade Biológica dos Estados Unidos. “Muitas pessoas estão comendo carne demais para que qualquer tipo de produção seja considerada sustentável”.

É difícil argumentar contra esta missão, mas há diversos desafios que Tetrick e seus colegas pioneiros precisam enfrentar. O primeiro deles é a reação da indústria de ovos de galinha. O nome do produto, Just egg (Apenas ovo, em tradução livre) certamente vai causar um alvoroço.

Os produtores de versões alternativas de laticínios foram forçados a mudar o nome de seus “leites” de amêndoas, aveia ou arroz para “bebidas” após protestos da indústria do leite. Há uma quantidade cada vez maior de processos jurídicos nos Estados Unidos envolvendo as empresas de “carnes” plant-based, acusadas de confundir os consumidores. Além disso, os produtores de carne não estão felizes por ver estas proteínas alternativas sendo transferidas das prateleiras de “alimentos naturais” para as geladeiras onde os produtos convencionais estão. Tetrick diz que planeja promover o ovo da Just como um “ovo” no Reino Unido, mas vai se assegurar de que a publicidade da empresa deixe claro que se trata de um produto derivado de vegetais.

Outra questão importante é a possibilidade de escalar a produção para suprir a demanda. As empresas de alternativas à carne – muitas das quais são sediadas no Vale do Silício e são promovidas como companhias de tecnologia – enfrentaram dificuldades no que diz respeito à linha de produção e ao envio de pedidos a tempo por não terem um relacionamento de longo prazo com os distribuidores. Tetrick compara a Just à Coca-Cola, que envia seu xarope a fábricas locais espalhadas pelo mundo. O pó secreto de feijão moyashi da Just pode ser enviado à Europa, América e Ásia, onde os óleos podem ser adicionados antes do produto ser embalado e despachado para as lojas.

A Just não é a primeira empresa a oferecer um ovo plant-based. Trigo, glúten, milho, soja e xarope de milho aparecem em uma infinidade de substitutos dos ovos, mas os mesmos não têm a capacidade de coagular e não oferecem a textura e o sabor da Just.

Tetrick diz que fica feliz em compartilhar o mercado com outras companhias: “Eu quero que outras empresas surjam. Eu acho que a indústria de alimentos precisa de muita ajuda, e espero que os empreendedores vejam o que estamos fazendo e tentem nos superar”.

Margi Murphy

The Telegraph