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Startup da favela cria rede de salões que une beleza e terapia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A escova em um salão de Paraisópolis custa R$ 35. Pé e mão, R$ 45. A terapia na cadeira giratória com a cabelereira Mônica Jesus, de frente para o espelho que reflete a favela paulistana, sai de graça.

"Na comunidade, cabeleireiro é terapeuta, elas falam tudo", diz Wallace Rodrigues sobre as confissões feitas à sua esposa.

O casal abriu o primeiro salão de beleza em 2016. Na época, era complicado achar profissionais que sabiam fazer cabelo e ter empatia para lidar com dores emocionais do público —em sua maioria mães solo, com emprego informal e histórico de violência na família.

"Eu não encontrava pessoas preparadas e passava parte do tempo ensinando tudo", diz Mônica, 32, que desliza o dedo no celular para mostrar as mensagens trocadas com clientes.

Filha de doméstica e de pedreiro, que trocou sítio na Bahia por um cômodo em Paraisópolis, Mônica ganhou seu primeiro secador aos 15 anos. No crediário das Casas Bahia. Trabalhou com panfletagem, foi caixa, auxiliar de escritório e fez faculdade de recursos humanos até finalmente se dedicar ao que gostava: beleza.

Em 2015, deu match no Tinder com Wallace, 38, também baiano, formado em psicologia e com histórico de office boy, músico de bar e assistente de fotografia.

A dupla entendeu que desenvolvimento humano era chave no negócio e que isso os diferenciaria dos outros 4.000 salões só dali da favela. Buscaram investimento e parceiros para tornar o Belezinha uma startup de impacto social.

Foram atrás de metodologia que combinasse aulas técnicas com habilidades socioemocionais e empreendedorismo. Corte feminino e língua portuguesa. Alisamento e fluxo de caixa. Maquiagem e autoestima.

E o principal: que fosse de graça e perto de casa, pois as mulheres da favela não têm tempo a perder."Se tiver que pegar ônibus e chegar tarde, elas desistem. Aqui em Paraisópolis, elas podem passar em casa, dar janta para os filhos e vir estudar tranquilamente", diz Mônica.

E Wallace completa: "Impactar comunidade é dinheiro no bolso e rápido."

Em maio de 2021, abriram a primeira turma no pavilhão do G10 Favelas, com cursos que formam escovistas em oito aulas —metade do tempo oferecido em outros lugares. Uma turma chegou a ter 700 inscrições para 60 vagas.

Os alunos formados têm três destinos: trabalhar em salões parceiros (Estúdio W, Loft, The Art Salon, Jaques Janine, entre outros), abrir seu próprio negócio ou ter uma franquia Belezinha. São portas abertas que fazem a diferença para mulheres que ficaram sem renda na pandemia.

"Perdemos meu pai e minha mãe ficou dois anos sem trabalhar, foi difícil", diz Sthefany Carvalho, 21, que tem um salão em casa e conseguiu vaga nos cursos de design de sobrancelha e corte.

"É bem prático e eles ensinam tudo, mas é na luta, pois cuido do salão, da casa e dos meus irmãos."Na manhã de 11 de julho, o Belezinha fez a formatura das alunas do trimestre. Com direito a certificado, discursos emocionados e dez bolos feitos na madrugada pela incansável Mônica.

"Tirei o aplique e aprendi muito assumindo meu cabelo", afirma Elisângela Teixeira, 43, dona de um salão na comunidade. "Se antes eu já corria atrás, agora correrei ainda mais."

Para financiar a operação, que chegou às favelas da Rocinha e do Alemão, a startup conta com patrocínio da Schwarzkopf, que comercializa seus produtos no espaço, entre outras marcas do segmento.

"Estamos mostrando que o negócio é sustentável e tem mercado gigante nas comunidades", diz Wallace.

Outra fonte de renda virá do aplicativo criado com a Desenvolve SP para franqueadas. "A pessoa poderá montar seu salão, escolher cadeira, espelho, lavatório, tudo com linha de crédito direcionado. Não cobraremos royalties, mas haverá recorrência para uso do sistema de gestão, por exemplo."

Para o final de agosto está prevista a inauguração da "Casa Belezinha", que fica a alguns quilômetros do pavilhão, na rua paralela ao Baile da Dz7. Três andares para atendimento ao público, formação e desenvolvimento de negócios da favela.

"O novo espaço contará com um hub de empreendedorismo em saúde e bem-estar para iniciativas nascidas na comunidade", afirma Ricardo Podval, fundador do Civi-co e um dos investidores do Belezinha.

"E teremos um fundo de investimento e aceleração para dar tração a esses empreendedores."

Na janela do terceiro andar, de onde se enxerga o famoso prédio que separa Paraisópolis do Morumbi, eles têm certeza de que a startup vai trazer impactos positivos para a comunidade."

Não tenho dúvida do que estamos construindo", diz Wallace. "Não é mais sonho, é meta."

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