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Entenda por que o Sport goleou o Flamengo na Justiça pelo Brasileiro de 1987

Sport e Flamengo ainda disputam o mais polêmico campeonato da história do futebol brasileiro (Reprodução)

A bola já rolou há mais de trinta anos, vários julgamentos aconteceram com ganho de causa tanto para um lado quanto para o outro, até o Supremo Tribunal Federal foi acionado e mesmo assim ainda há quem discuta quem é o campeão brasileiro de futebol de 1987: Sport ou Flamengo?

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Ainda que boa parte da imprensa endosse o que toda a torcida do Flamengo sente a respeito do Campeonato Brasileiro de 1987, a Justiça e a FIFA já bateram o martelo: o Sport Club do Recife é o legítimo campeão brasileiro de 1987. E para entender como as coisas chegaram a tal ponto é preciso recuar até 1986.

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O início da confusão

O Campeonato Brasileiro de 1986 só foi decidido em 25 de fevereiro do ano seguinte, com o São Paulo batendo o Guarani nos pênaltis. Meses depois, no dia 7 de julho, o então presidente da CBF, Octávio Pinto Guimarães, anunciou, via imprensa, que não havia condições financeiras para bancar o campeonato daquele ano.

Foi a deixa para que dirigentes como Márcio Braga e Carlos Miguel Aidar, então respectivos presidentes de Flamengo e São Paulo, começassem a se articular na criação de um campeonato gerido pelos próprios clubes, negociando eles próprios a logística de deslocamento das equipes e os contratos de TV. Quatro dias depois do anúncio, em 11 de julho, foi criado o Clube dos 13.

Clube dos 13 

Formado por Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos, Atlético-MG, Cruzeiro, Grêmio, Internacional e Bahia, o Clube dos 13 convidou Coritiba (campeão brasileiro de 1985), Santa Cruz e Goiás para completar os 16 participantes da Copa União - que, para a entidade, seria o Campeonato Brasileiro de 1987. Claro que nem todo mundo gostou disso.

Insatisfação e negociações

O regulamento da Copa Brasil (Campeonato Brasileiro) do ano anterior determinava que a edição de 1987 seria disputada pelas 28 equipes melhores classificadas em 1986. Entre elas estavam, por exemplo, Guarani e América-RJ, vice-campeão e terceiro colocado em 1986. Pressionada por quem ficou fora da Copa União, a CBF decide criar um outro módulo - como passou a se referir às chaves - com 16 times, totalizando 32 clubes.

Enquanto o Clube dos 13 articulava para que o “seu” campeonato - o Módulo Verde da Copa União - equivalesse à Primeira Divisão e que o Módulo Amarelo fosse a Série B, a CBF afirmava que os dois módulos correspondiam a um mesmo campeonato de Série A, com 32 clubes. Na visão da CBF, a Segunda Divisão seriam os módulos Azul e Branco, com 24 equipes cada um.

O polêmico cruzamento entre os Módulos Verde e Amarelo

Eis o ponto crucial da discórdia: no regulamento do Campeonato Brasileiro estava previsto um quadrangular entre os dois melhores times de cada módulo. Ele seria disputado em jogos de ida e volta, a princípio apenas para definir os representantes brasileiros na Libertadores da América de 1988. No entanto, se o Módulo Verde sozinho fosse considerado a Série A do Brasileiro, como queria o Clube dos 13, não teria respaldo nem da CBF nem da FIFA, sendo considerado um torneio pirata.

Assim, no dia 8 de setembro de 1987 - três dias antes do início do torneio - Eurico Miranda, dirigente do Vasco e representante do Clube dos 13 na reunião para aprovação do regulamento, assinou o documento aceitando o cruzamento entre campeão e vice dos módulos Verde e Amarelo para definir o campeão brasileiro de 1987, contrariando a tese de que o regulamento foi mudado durante a competição.

Com toda a cobertura da mídia, incluindo uma quantidade até então inédita de jogos transmitidos pela TV, patrocínio da Coca-Cola e da Varig e álbum de figurinhas oficial, o Módulo Verde da Copa União começou na noite de sexta-feira, 11 de setembro de 1987, um dia antes do previsto por conta da transmissão na TV, com a vitória do Palmeiras por 2 x 0 sobre o Cruzeiro. Sem muito alarde e praticamente “escondido” pela grande mídia, o Módulo Amarelo teve seu pontapé inicial dois dias depois, com quatro partidas.

Bola rolando 

Com esquemas de disputa idênticos - divisão em dois grupos de 8, primeira fase com times enfrentando adversários do outro grupo e segunda fase com duelos dentro dos grupos - os módulos foram disputados simultaneamente. No Verde, o Atlético Mineiro venceu as duas fases do Grupo A de forma invicta. O Flamengo pegou a segunda vaga por ter ficado em segundo lugar na segunda fase. No Grupo B, deu Internacional na primeira fase e Cruzeiro na segunda.

No Amarelo, o Atlético-PR venceu a primeira fase no Grupo A, com o Guarani vencendo a segunda. No Grupo B - com uma equipe a menos por conta da desistência do América-RJ, que se recusou a jogar o Módulo Amarelo - o Sport Recife venceu as duas fases, com o Bangu levando a segunda vaga.

Nas semifinais do Módulo Verde, o Flamengo venceu as duas partidas contra o Atlético-MG, 1 x 0 no Maracanã e 3 x 2 no Mineirão. Já Internacional e Cruzeiro ficaram duas vezes no 0 x 0, com os gaúchos vencendo por 1 x 0 na prorrogação da segunda partida. No Módulo Amarelo, o Sport fez 3 x 1 no Bangu na partida de volta após derrota por 3 x 2 na ida; já o Guarani ficou no 0 x 0 em Curitiba contra o Atlético-PR e venceu em Campinas por 1 x 0.

Finais no mesmo dia e disputa de pênaltis sem fim

As decisões dos módulos aconteceram nos mesmos dias, 6 e 13 de dezembro. O Flamengo levou o Verde após empatar em 1 x 1 com o Internacional no Beira-Rio e fazer 1 x 0 no Maracanã. Já Sport x Guarani foi uma decisão um pouco mais complicada. E longa.

O Guarani fez 2 x 0 em Campinas e foi para o Recife com a vantagem do empate, mas o Sport fez 3 x 0. Como não havia vantagem de gols marcados, a decisão do Módulo Amarelo foi para os pênaltis.

Após 12 cobranças de cada lado, cada time desperdiçara apenas um pênalti. Com o placar em 11 x 11 os presidentes dos dois clubes entraram em consenso e dividiram o título, já que estavam classificados para o quadrangular que apontaria o campeão. Mas que, como será visto mais adiante, teria apenas eles próprios.

O quadrangular de dois times

O Flamengo e sua diretoria se mantiveram firmes na postura de não disputar o quadrangular e de se considerarem os campeões brasileiros de 1987, tendo a solidariedade do vice Internacional. Já o Guarani abdicou da divisão do título e o Sport acabou reconhecido como campeão do Módulo Amarelo pela CBF, pela melhor campanha no torneio.

O quadrangular decisivo foi marcado para começar em 24 de janeiro de 1988, com as partidas entre Guarani x Flamengo e Sport x Internacional, vencidas por WO pelos times do Módulo Amarelo. A mesma coisa aconteceu na rodada seguinte, e em todas as partidas que envolveriam Flamengo e Internacional.

Assim, apenas dois jogos foram realizados naquele quadrangular: Guarani 1 x 1 Sport , na terceira rodada (31/01) e Sport 1 x 0 Guarani na derradeira (07/02), dando ao Sport Recife, em campo, seu primeiro título brasileiro e classificando as duas equipes para a Libertadores da América de 1988. Mas a disputa nos tribunais estava apenas começando.

Tribunais, ações e recursos

Já em 1988 o Flamengo acionou a FIFA para que fosse ele, e não o Sport, reconhecido como campeão brasileiro de 1987. A FIFA não se envolveu no caso, mas indicou que a CBF confirmasse Sport e Guarani como campeão e vice de 1987.

Após diversas ações impetradas pelo Flamengo requerendo o título de campeão brasileiro de 1987, em 2011 a CBF tentou apaziguar a questão reconhecendo Sport e Flamengo como campeões e Guarani e Internacional como vices. O Sport recorreu e manteve-se como único campeão de 1987. Após ter um recurso negado em segunda instância em 2011, o Flamengo recorreu ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e perdeu novamente em 2014.

No ano seguinte, a CBF tentou “dividir” o título entre Sport e Flamengo, mas em março de 2016 o Supremo Tribunal Federal (STF) manteve a decisão do STJ de considerar o Sport como único campeão. Um novo julgamento no STF aconteceu em abril de 2017, novamente a favor do Sport. No mesmo ano, o Flamengo recorreu e foi derrotado mais uma vez em dezembro. Finalmente, em março de 2018, a ação transitou em julgado no STF, que homologou em última instância o título de campeão brasileiro de 1987 ao Sport Club do Recife, impedindo o Flamengo de recorrer.

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