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'Sou praticamente um padre', diz Chico César sobre período sem sexo durante pandemia

Eduardo Vanini
·6 minuto de leitura

Os ponteiros do relógio de Chico César correm numa cadência própria. Não há pressa para deixar a casa alugada com amigos, na Playa La Juanita, no Uruguai, onde está há dois meses. “Estou sempre de ida. Mas é bom estar aqui agora”, diz. Tampouco há qualquer ansiedade em relação aos anos de vida. “Acho ótimo ter 57 com o corpo que tenho, fazer aulas virtuais de pilates três vezes por semana, andar de bicicleta, caminhar, tocar com meus amigos. Tudo isso é celebração.”

O cantor passeia entre os temas enquanto come uma tangerina e caminha por um quintal solar, durante uma videochamada que se estende por mais de uma hora. Por trás do tom sereno, porém, há uma intensa rotina produtiva. No próximo dia 25, fará um show para 500 pessoas no Teatro Sodre, em Montevidéu, onde cabem 2.500 (embora o país tenha registrado alta no número de casos nas últimas semanas, foram cerca de 1.500 mortes desde o início da pandemia). “Qualquer simpatia já é paixão”, diz, sobre a plateia reduzida por segurança. Mais adiante, no segundo semestre, tem uma turnê ao lado de Geraldo Azevedo, com shows agendados em capitais do Nordeste e do Norte do Brasil, sobre a qual se diz confiante. Antes disso, ainda lança álbum de inéditas com Zeca Baleiro e música com Felipe Cordeiro.

Novidades esperadas por um público ainda maior, depois que Juliette, participante do “Big Brother Brasil”, da TV Globo, levou a canção “Deus me proteja” ao primeiro lugar da Parada Viral, do Spotify, ao cantá-la durante o programa. “É uma música criada há 13 anos. É legal pensar sobre a importância de compor sem a ansiedade de uma repercussão imediata. Não é hashtag, é obra de arte”, comenta Chico.

O ritmo de composições, de todo modo, anda bastante intenso. Foram mais de cem desde o início da pandemia. Boa parte foi exibida nas redes sociais, num exercício que provocou o simbólico episódio em que um fã o pediu para evitar temas políticos, e outras foram entregues à Maria Bethânia. A amiga, aliás, que já o classificou como “sacana”, após ler o seu livro “Versos pornográficos”, talvez se surpreenda com a vida sexual de Chico em tempos de isolamento. “Sou praticamente um padre”, ironiza ele, hoje solteiro, na entrevista a seguir.

O GLOBO - Por que está há tanto tempo no Uruguai?

CHICO CÉSAR - Vim me apresentar no festival Medio Y Medium, em fevereiro. Logo depois, uma casa de espetáculos pegou fogo, e me chamaram para encabeçar um show beneficente com outros grupos. Estava hospedado na casa de amigos em Montevidéu, mas eles estavam alugando uma casa na Playa La Juanita, em Jose Ignacio. Então, vi que poderia continuar aqui, fazendo as lives, atendendo à imprensa ou mesmo participando de discos de amigos. Há pouquíssimos casos de Covid-19 nessa região. Então, dá para ir à praia e à lagoa, porque não tem ninguém.

Você tem uma turnê com o Geraldo Azevedo prevista para o segundo semestre. Está confiante?

Muito. Sou praticamente um Cândido, personagem do Voltaire que é muito ingênuo e acredita que quando acontece algo ruim é para que venha algo bom. Acho que, se o país se empenhar na vacinação... O Geraldo já tomou, mas eu ainda não tenho idade. Estando por aqui, se sobrar vacina, eu tomo.

É verdade que compôs mais de cem músicas durante a pandemia?

Sim, mas aqui foram poucas. Componho um pouco para embelezar o mundo ou dentro dos questionamentos, no avião, na van. Se estou num ambiente mais contemplativo, tipo praia e cachoeira, não sai nada.

O que achou do sucesso com Juliette no ‘BBB’?

Fiquei muito contente. Faço música popular, inspirado em Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro. Tenho alguma vaidade intelectual, mas gosto muito quando algo chega num ouvinte que nem imaginei.

Sua relação com as redes sociais mudou durante o isolamento?

Creio que houve um olhar de todo o mundo um pouco para dentro de si e para dentro dos computadores e dos celulares. No meu caso, já vinha num ritmo forte de composição. Veio a pandemia, e continuei embalado. Conforme compunha, publicava. “Indócil” foi uma das primeiras músicas e dizia “Eu tô indoor / eu tô indócil / indo à loucura / eu tô indo aí”. Também fiz “Inumeráveis”, com Bráulio Bessa, em homenagem às vítimas do coronavírus, e outra para Djamila Ribeiro. Procurei não ser monocórdico. Usei a camisa de força da pandemia para me expressar. Só não mostrei as que fiz com o Zeca (Baleiro) e outras que achei a cara da Bethânia e mandei direto para ela.

Nessa relação com as redes, ficou assustado?

Assustado, não. Mas tivemos um caso icônico, em que um fã, e ele foi delicado, falou: “Nossa, que produção bacana, só lhe peço que evite os temas políticos e sociais, se possível”. Respondi que não me pedisse isso, porque todas as minhas músicas são de cunho político e social. Depois, fui à página dele pedir às pessoas que não o agredissem. Falava: “Não, pessoal. Não se trata disso. Não é para tudo virar uma guerra”. Serviu como reflexão.

Você teve um irmão preso na ditadura. Como é ver tanta gente pedindo intervenção militar?

Parece absurdo, é absurdo, mas é real. As pessoas pensam assim. Não é à toa que Bolsonaro, um homem que defendeu a tortura e o assassinato de Fernando Henrique Cardoso, tem 30% de aprovação. Há 30% da população que pensa como ele e, inclusive, o pressiona sempre que tenta parecer mais republicano. Essa gente não se sente representada pela Constituição. Prefere uma nação sem direitos, em que os pobres não entrem nas universidades, os pretos fiquem nas favelas, assim como os gays, nos armários, e as mulheres, na cozinha. Mas a gente não vai voltar mais.

Qual o papel do homem na desconstrução da opressão sobre gêneros e sexualidades?

O homem tem que ouvir. Já falou demais. Precisa entender que o patriarcado é um privilégio. Também é importante entender que a parceira ou o parceiro precisa experimentar, se conhecer e ser ativo em todos os lugares, inclusive na cama.

Você fez 57 anos em janeiro. Como a sexualidade tem se revelado nessa idade?

Com a pandemia, fiquei muito sem saber como é isso (Chico está solteiro, desde que se separou da atriz Bárbara Santos, em 2019). Mas acho que vem cada vez mais forte o aspecto da sutileza. O sexo é tudo, desde uma pessoa ligar, dizendo “estou indo aí na sua casa”, até você abrir a porta, abraçá-la, cozinhar juntos, lavar os pratos, ir para a cama e tomar banho juntos.

Ainda pensa em ter filhos?

Não ter filhos é um acaso. Se um dia vier, a paternidade será muito bem-vinda.

A proximidade dos 60 soa simbólica?

Sabe quem é referência nesse assunto para mim? Ney Matogrosso. Ele nunca comemorou muito, nunca fez o disco dos 50, dos 60. Talvez, por isso, se mantenha tão vivo e presente. Meu pai morreu com 91 anos e minha mãe, com 92. Ou seja, se eu continuar nessa batida, tenho mais 30 a 35 anos pela frente. Quero estar ativo para me comunicar por meio do meu bem mais precioso, que é a música. Agora, me sinto inquieto e cada vez mais livre para abordar temas espinhosos, como sexualidade, autoritarismo e liberdades. É assim que quero seguir.