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Skate olímpico adiciona técnico e rotina de treino ao 'lifestyle' do esporte

·5 minuto de leitura

TÓQUIO, JAPÃO (FOLHAPRESS) - Após as disputas da categoria street, o skate volta às Olimpíadas de Tóquio para os eventos do park.

Na noite desta terça-feira (3), a partir das 21h (de Brasília), será realizada a competição feminina. A masculina acontece no dia seguinte, no mesmo horário.

A estreia no mundo olímpico fez o skate se adaptar e importar algumas características de outras modalidades, tentando também preservar as suas.

A montagem de seleções de park e street pela CBSk (Confederação Brasileira de Skate), orientadas por técnicos, fisioterapeutas, médico, psicóloga e nutricionista, é uma das novidades que a entrada nos Jogos proporcionou.

Ter um treinador discutindo o que fazer na pista não é algo com o que a maioria dos skatistas, principalmente a geração mais experiente das seleções, está acostumada.

"Não é nada comum. Se enquanto skatista você me falasse que eu teria um técnico, eu não acreditaria. Mas viemos amadurecendo e sentimos que é necessário ter um respaldo na hora da competição. Bolar estratégias, pensar em manobras, entender a competição e o julgamento. Hoje faz uma diferença tremenda", diz Edgard Pereira, consultor técnico da equipe de park.

Vovô, como é conhecido, tem 39 anos e competiu várias vezes com Pedro Barros, 26, principal nome do Brasil no park. Ele admite que no início teve receio sobre como agir para que os skatistas do país entendessem seu papel como treinador.

"A gente teve que vir pelas beiradas, não podia impor. Hoje em dia opino nas manobras, nas linhas, mas a última decisão é deles sempre. No começo nem isso permitiam. O Luizinho falava: 'Vovô, deixa eu andar de skate, só me acompanha'. Até que eles entenderam nosso papel, que podia ajudar a ampliar a visão."

Luizinho é Luiz Francisco, 21, outro representante do Brasil cotado para uma medalha nos Jogos. Ele compõe a delegação masculina com Pedro Barros e Pedro Quintas, 19. Yndiara Asp, 23, Dora Varella, 20, e Isadora Pacheco, 16, tentarão surpreender na prova feminina.

Além de ter que ganhar a confiança dos skatistas, Vovô se deparou com outro desafio: como aplicar um programa de treinos buscando objetivos específicos e que também fizesse sentido para a dinâmica do esporte e de seus atletas.

"A gente não tinha uma repetição, como nos outros esportes. Ia andar de skate, fazia a sessão e o que rolasse, rolou. Hoje a gente tem planilha e anota a quantidade de manobras que eles acertam diariamente. Trabalha com números, estratégias", explica Vovô.

"Eles estão competindo com atletas de outros países, que não viveram esse lifestyle do skate e que estão se preparando muito, principalmente fisicamente. A gente tem que estar à altura. Não adianta só falar 'quero viver o lifestyle, sou skatista' e chegar na competição, se dar mal e depois ficar puto porque podia ter se preparado."

Antes da pandemia, Vovô e os skatistas da seleção estavam quase sempre reunidos. Diferentemente do que ocorre no street, em que há desentendimentos internos entre os principais atletas, no park o grupo é visto como coeso.

Yndiara, Isadora e Pedro Barros são de Florianópolis, cidade que é a maior referência nacional das pistas de bowl (em formato de piscina), elemento central dessa categoria.

O formato de disputa do park tem três voltas de 45 segundos para cada skatista. Cinco juízes avaliam os atletas numa escala de 0 a 100 pontos (a nota mais alta e a mais baixa são descartadas). A melhor volta determina a classificação final.

Já no street, em que o Brasil conquistou duas medalhas na última semana, com Rayssa Leal e Kelvin Hoefler, são sete possibilidades de pontuação (duas voltas e cinco tentativas de manobras específicas). As quatro melhores notas contam para a soma final.

É um quebra-cabeça mais complexo do que no park, e no qual o treinador pode ter papel fundamental.

"O técnico tem que entender muito de skate e ser mais rápido que um computador. O erro conta muito. Então, para não errar, às vezes você diminui um pouco [o nível] das manobras", afirma Roger Mancha, consultor técnico da seleção brasileira de street. "Às vezes você tem uma situação de tentar uma manobra para ficar em primeiro, ou ir para o bronze e deixar o ouro de lado. O street é muito estratégico."

O favorito americano Nyjah Huston, por exemplo, ficou fora da disputa por medalhas por zerar quatro tentativas.

Assim como Vovô, Mancha aponta dificuldades em estabelecer um programa ideal de treinamentos técnicos no esporte. "Repetições e situações de mecânica de exercício estão sendo encaixadas no skate. Ainda não existem protocolos de treino e não sei se existirão."

Entre os atletas que disputaram as Olimpíadas na última semana, Kelvin e Pâmela Rosa não receberam orientações diretas de Mancha durante a competição. Eles preferiram consultar um ao outro ou pessoas próximas. O medalhista conversou com a esposa e treinadora, Ana Paula Negrão, por telefone antes de levar a prata. Pâmela costuma falar com seu agente.

"Durante a competição, falei com ela o tempo todo", disse Kelvin sobre a esposa. Ela é a minha técnica, meu braço direito, esquerdo, perna, tudo. Ela que me ajuda sempre." O jornal Folha de S.Paulo mostrou que o fato de Ana Paula não poder integrar a delegação brasileira em Tóquio levou o atleta a brigar com a confederação.

Questionado se houve um desconforto na seleção por nem todos receberem orientações da mesma pessoa, o presidente da CBSk, Eduardo Musa, refutou: "Se eu fosse pai, marido ou empresário de uma delas, eu queria que elas tivessem a orientação do Mancha, que para mim é disparado o melhor técnico do mundo. Sabe o Bernardinho no vôlei? O Mancha é vezes cem. Mas existe essa questão de confiança, desses dois skatistas, com as pessoas que estão ao lado deles".

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