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Sharylaine: A mulher negra da primeira geração do rap Brasil

Shararylaine fez parte Gangue Nação Zulu, uma das quatro primeiras crews de breaking dance. (Foto: Reprodução)

Na cobertura do mês da Consciência Negra, o Yahoo Notícias realiza o “Escurecendo a História”, que visa dar o merecido destaque e reconhecimentos aos negros e negras que escreveram a história.

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Texto / Juca Guimarães

Todo fã de rap sabe que os encontros semanais que aconteciam no pátio da estação São Bento do metrô de São Paulo representam o início da cultura hip-hop no Brasil e de lá surgiram nomes que norteiam a música e a atitude até hoje.

Na gêneses do rap uma personagem foi fundamental na quebra de tabus e início do empoderamento feminino. A rapper Sharylaine foi pioneira em várias frentes de batalhas e compôs clássicos com rap como: “Saudade”, “Poderosa”, “Mina”, “Missão” e “Livre no Mundo”.

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A música sempre fez parte do universo e do campo de interesses da artista. O pai era intérprete de escola de samba Unidos de Santo Estevão, na região Leste da Capital, e a mãe era cantora fã de Elza Soares. E ainda tinha um tio que era DJ e promovia bailes pela região. 

“Eu era cercada por música. Ouvia os discos do meu tio. Escrevia as letras das músicas no caderno de repertório do meu pai”, disse. Na época de escola, ela também tocava caixa da fanfarra.

O início no rap veio por conta da dança break. Ela fez parte Gangue Nação Zulu, uma das quatro primeiras crews de breaking.  O ambiente da música de rua levou jovem de voz afinada em direção ao microfone. Na época, o b-boy Marrom fazia umas produções em K-7.”Ele me deu uma fita para ouvir e eu fiz uma adaptação para o ‘eu’ feminino, completei a letra e fiz o meu primeiro rap”, disse.

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Foi então que ela e a prima City Lee decidiram criar o Rap Girls, que durou três anos. Em 1989, com 20 anos de idade, a cantora foi convidada para participar da coletânea Consciência Black, do selo Zimbabwe, que é até hoje um marco no rap nacional.  O vinil chegou às lojas um ano depois do centenário da abolição inconclusa da escravidão no Brasil. Veio com críticas pesadas contra o racismo, a violência policial e ao genocídio da população negra.

No início dos anos 2000, Shararylaine ajudou a criar o coletivo Minas da Rima. (Foto: Reprodução)

“Eu comprava discos com instrumental e fazia as minhas letras sobre essas bases. Mesmo sem um disco próprio, os baileiros me chamavam para os shows”, disse. 

Até 1996, a rapper foi figura atuante no hip-hop engajado. Cantou com grupos importantes como DMN, Guetto ZO, Vítima Fatal, entre outros. A partir daí e até 1998, ela se dedicou ao reggae cantando no grupo Naybing Brothers, onde pode explorar outros aspectos da música negra.

“Em 1999, eu entrei no Coral da USP (Universidade de São Paulo) e fiquei por três anos. Foi uma experiência muito boa. Eu continue fazendo rap nessa época também”, comentou. 

Sharylaine seguiu como uma grande referência no rap e no início dos anos 2000 ajudou a criar o coletivo Minas da Rima. “Era um projeto para pensar a mulher da cultura hip-hop em um cenário muito masculino. Era 90% de homens no mercado. Juntava eu, a Rúbia do RPW e a Lady Rap. A gente trouxe mais meninas e fizemos a roda girar”, disse.

As raízes falaram mais forte e em 2005 ela decidiu concorrer com um samba-enredo para o Grêmio Recreativo e Cultural Flor de Vila Dalila, na zona Leste, fundada em março de 1973 e que já esteve por quatro vez no Grupo Especial do Carnaval paulistano. 

Em 2010, ganhou um prêmio pelo reconhecimento pela carreira cultura hip-hop. Dois anos depois, ela se incorpora ao coletivo Amigas do Sambas. “Eu comecei a levar os meus raps em ritmo de samba. Deu certo e elas gostaram bastante. A minha música tem um pouco dos sons que eu ouvi a minha vida inteira”, analisou.

Essas experiências e arrojo em desafiar os limites da arte estão no álbum “Soul Soul” de 2013 com os grandes sucessos da carreira e canções inéditas até então. 

Na militância o feminismo, Sharylaine também é uma das idealizadoras da FNMHH, Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop, que tem força e representantes em 17 estados brasileiros.

A produção musical da rapper tem uma ligação muito forte com a obra da escritora e compositora Maria Carolina de Jesus, autora do livro clássico Quarto de Despejo.

“Eu e canto Carolina. É uma questão de identidade de vivência e do que vejo no dia-a-dia. É fascinante o olhar que ela tinha e como ele permanece atual. Tem muito a ver com as crônicas que a gente escreve como rapper”, comentou.

Nunca foi fácil para a cantora conquistar espaço no rap, mas ela não desistiu e muito menos abaixou a cabeça. Lutou e serviu de inspiração para as novas gerações, mesmo com todas as adversidades que uma carreira independente impõe.  Atualmente, ela também faz parte do corpo de intérpretes da escola Flor de Vila Dalila e vai cantar no desfile de 2020.