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Setor de construção está otimista, mas cresce preocupação com matéria-prima, diz CNI

FERNANDA BRIGATTI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os empresários da construção civil no Brasil continuam confiantes na retomada do setor, mas o otimismo agora está estável, após uma sequência de altas desde o mês de maio. O patamar ainda é inferior ao observado antes da pandemia. Entre os fatores positivos para o segmento, sondagem da CNI (Confederação Nacional da Indústria) divulgada nesta quarta (28) aponta para a alta da utilização da capacidade instalada, o avanço no nível de atividade e o índice de evolução do emprego, que em setembro teve a maior alta em oito anos. Do lado oposto, cresceu a importância de problemas como escassez ou alto custo de matéria-prima. No terceiro trimestre, a dificuldade com prazos e preços passou a ser o maior problema do setor para 39,2% das empresas —no trimestre anterior, a questão aparecia em 11º lugar, apontada como problema mais importante por apenas 9,5% das indústrias da construção. Depois de insumos, o problema mais apontado por empresários no terceiro trimestre foi a carga tributária, indicada por 28,2% das empresas (no segundo trimestre, era 31,8%). Na comparação entre os dois trimestres, além das dificuldades com os insumos, cresceu o número de empresas que relatam falta ou alto custo de trabalhador qualificado: de 6%, subiu para 10,1%. A sondagem da CNI considera que o nível de atividade e o número de empregados apontam para a manutenção do ritmo de recuperação da construção civil em setembro. O índice de evolução do nível de atividade, por exemplo, chegou a 51,2, de uma escala que vai de zero a 100. Em agosto, estava em 51,4. Apesar da queda, a CNI considera positivo que o índice se mantenha acima de 50 –um ano antes, em setembro de 2019, o nível de atividade estava em 49,5 pontos. O mês de setembro também foi bom para a redução da ociosidade no setor. A utilização média da capacidade instalada cresceu dois pontos ante agosto e chegou a 62%, empatando com o índice de setembro de 2019. No emprego, o índice cresceu 0,6 ponto e foi a 50,1 –o maior desde abril de 2012, quando chegou a 51 pontos. Para a CNI, o resultado confirma o bom momento do emprego no setor. “Se olharmos a série histórica, vamos ver que faz muito tempo que o índice de evolução do emprego não cruza a linha divisória de 50 pontos como ocorreu em setembro. Esse é um dado importante. Só não podemos esquecer que as altas registradas foram precedidas por fortes quedas observadas em março e abril, que haviam levado o emprego a um patamar muito baixo”, diz o gerente de análise econômica da CNI, Marcelo Azevedo, em nota. O indicador relacionado ao mercado de trabalho foi o único que não teve queda em relação às expectativas das empresas do setor para o mês de outubro –passou de 54,1 pontos para 55. Na compra de insumos e matérias-primas, caiu de 55,6 para 54,2. Para a CNI, no entanto, as expectativas continuam otimistas, uma vez que todos os indicadores seguem acima de 50 pontos. Esse otimismo, porém, não chegou à intenção de investir na construção. Para o mês de outubro, o indicador ficou em 40,9 pontos, uma queda de 3,5 pontos ante setembro, interrompendo quatro meses de alta. A média histórica desse indicador é 34,3 pontos. A Folha mostrou em reportagem publicada no domingo (25) que 40% as empresas do setor registram falta de produtos ou dificuldade de insumos, com base em sondagem do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). Um outro levantamento da própria CNI apontava que 44% das indústrias estavam com problemas para atender seus clientes. Em 41% delas, a capacidade de produção era menor que a demanda, e em 38%, não era possível aumentar a produção. O economista André Braz, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) do Ibre/FGV, disse em seminário nesta quarta que as cadeias de produção foram desmobilizadas na pandemia e que leva um tempo para o nível de atividade ser retomado. Além disso, Braz considera que os setores produtivos estão vivendo agora um cenário similar ao do varejo de alimentos no início da pandemia, quando houve uma corrida aos supermercados e isso levou a uma alta de preços. “Se o produtor vai direto ao ponto de ‘vou recompor meu estoque rápido porque a economia vai reaquecer e há uma certa incerteza quanto ao preço da minha matéria-prima’, isso pode representar até um aumento maior de preços. O sinal que o setor emite é de que pode aumentar o preço que eu vou comprar”, diz o economista.