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Sete em cada dez policiais mortos no Rio nos últimos cinco anos estavam de folga

·5 min de leitura

RIO —Em 2018, o sargento Luciano Soares da Costa trocou a cidade de Queimados, na Baixada Fluminense, onde morava com a família, por Saquarema, na Região dos Lagos. Policial militar, ele temia a violência e buscava um lugar melhor para criar a filha de 7 anos. Lá, abriu um pequeno comércio com a mulher, a dona de casa Luana Barcelos, de 36 anos, mas sem deixar o trabalho no Batalhão de Ações com Cães (BAC). Na última sexta-feira, aproveitou que estava de folga para ir até Duque de Caxias, também na Baixada, comprar mercadorias. Acordou cedo, pegou o ônibus em direção à Rodoviária Novo Rio e completou viagem de trem até Gramacho. No entanto, o que mais o amedrontava pôs fim aos sonhos do PM. Luciano foi morto com um tiro na cabeça durante uma troca de tiros entre policiais e criminosos que praticavam um assalto a uma agência bancária.

A morte de Luciano é um exemplo do que demonstra um estudo feito pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio e obtido com exclusividade pelo GLOBO: entre 2016 e 2020, sete a cada dez policiais militares e civis mortos por causas não naturais no estado foram assassinados. Do total de 506 agentes que morreram, 364 (72%) foram vítimas de homicídio ou de latrocínio, que é o roubo seguido de morte. A grande maioria — 253 policiais, o que corresponde a 70% — estava de folga.

— Eu falei com ele minutos antes, pedi para ele ter cuidado na rua. Ele me disse para ficar tranquila e que me amava. Parecia que estávamos nos despedindo. Nos mudamos por causa da violência, e ela tirou a vida do meu marido. Estávamos construindo a nossa casa, vendo nossa filha crescer, planejando o futuro. E bandidos destruíram toda uma família. Só posso pedir por justiça — desabafa Luana, mulher do policial militar, cuja morte causou grande comoção no BAC, batalhão onde ele trabalhava.

A pesquisa aponta ainda que um terço (33,3%) dessas mortes ocorreu a até 500 metros de distância de comunidades. Já se contabilizadas as mortes violentas em serviço, esse índice sobe para 74,1%. Além disso, a maior parte (32,2%) aconteceu à noite, das 18h à meia-noite. O estudo “Vitimização policial no Estado do Rio de Janeiro: panorama dos últimos cinco anos (2016-2020)” reúne todas as mortes provocadas pelas chamadas causas externas: letalidade violenta (homicídios e latrocínios), acidentes (incluindo os no trânsito) e os suicídios.

Dos 506 mortos nesses cinco anos, mais de 90% eram policiais militares. Do total, 148 estavam de serviço e 358, de folga. Para o sociólogo Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, uma série de fatores explica o alto número de mortes na folga.

— Durante o trabalho, o policial militar costuma estar em grupo, utiliza colete protetor e segue um planejamento de operações que minimizam os riscos. Fora do serviço, há brigas e conflitos interpessoais, o envolvimento com o crime e a necessidade de fazer “bicos”. Outra questão é a presença da arma, já que infelizmente muitos PMs saem com ela na folga, não a acautelam. Um policial armado e reconhecido como tal é um risco enorme, situação em ele acaba sendo executado — detalha Cano.

Foco na redução de casos

A diretora-presidente do ISP, delegada Marcela Ortiz, explica que o estudo foi realizado para municiar as polícias Civil e Militar com dados sobre a vitimização dos agentes, no intuito de auxiliar em políticas para a redução dos casos. Ela ressalta que a pesquisa também é importante para levar à sociedade a discussão sobre o tema.

— A importância de trazer esses dados para a sociedade é justamente demonstrar que os agentes do Estado também são vítimas da violência e que isso precisa ser combatido. São diversos fatores que contribuem para esse cenário. É preciso que haja uma preocupação com a segurança dos policiais não só durante o serviço, mas também na folga — analisa.

Os dados divulgados pelo ISP revelam ainda que das 364 mortes de policiais por causas violentas no estado, 263 (72,2%) tratavam-se de homicídio. Desses, 254 provocados por arma de fogo. Já em 98 casos (19,3%), os PMs foram vítima de latrocínio.

— Mais de 70% (de mortes por letalidade violenta) mostra o grau de violência regular a que estão submetendo os policiais. Nenhuma outra profissão tem um número tão alto — afirma Cano, que completa: — A proteção aos agentes torna-se importantíssima para reduzir a letalidade e as mortes por intervenção. Trabalhar nas duas pontas é essencial.

Apesar do Rio ainda ser um dos estados com o maior número de mortes de policiais, em 2020 o número foi o menor de toda a série histórica, iniciada em 1998. Foram 65 civis e militares. A delegada Marcela Ortiz afirma que a pandemia, que reduziu o número de pessoas circulando pelas ruas, pode ter influenciado a queda. Mas frisa que os trabalhos de prevenção dentro das polícias também contribuíram, opinião corroborada pelo porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Ivan Blaz.

— Essa queda é resultado de um trabalho contínuo implementado pelo comando da corporação, seguindo duas diretrizes: melhorar as condições para o policial com atenção para a saúde e a aquisição de equipamentos mais adequados de proteção individual; e ampliar cada vez mais o programa de treinamento da tropa, tanto para atuar em serviço como para se proteger nos períodos de folga — afirma Blaz.

Nos seis primeiros meses deste ano, outro dado tem se mostrado positivo: a redução da morte de policiais militares na folga. No primeiro semestre de 2021, foram 16, contra 25 no mesmo período de 2020, uma queda de 32%. Já as mortes de policiais civis que não estavam trabalhando se manteve em três nos dois anos. Já as mortes em serviço de policiais civis e militares se mantiveram em 11 nos dois períodos.

O estudo do ISP aponta ainda que, em cinco anos, 35 policiais tiraram suas próprias vidas. Desses, 31 estavam em dia de folga e outros quatro em serviço.

— Ter tantas mortes causadas por suicídio é surpreendente. E aí entram dois fatores: vida e rotina estressantes, onde eles vivem sempre no limite do perigo e do risco; e o fácil acesso às armas. Seria interessante instituir iniciativas para que isso seja evitado ao máximo — explica Cano.

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