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Sergio Moro, afinal, conversou sobre chance de virar ministro durante as eleições?

Sergio Moro e Paulo Guedes deixam a casa de Jair Bolsonaro após o ex-juiz aceitar o convite para assumir o Ministério da Justiça (Photo by Mauro Pimentel / AFP via Getty Images)


Em entrevista ao repórter Fabio Pannunzio, o ex-secretário-geral da Presidência Gustavo Bebianno afirmou que o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) conversou “cinco ou seis” vezes com Paulo Guedes (Economia) durante as eleições sobre a possibilidade de deixar a magistratura e assumir o posto no governo Bolsonaro.

A revelação, em condições normais, seria razão para escândalo.

Moro, afinal, foi o juiz responsável por prender um adversário direto do futuro chefe na corrida presidencial e, como lembrou o colunista Elio Gaspari, na última quarta-feira, dia 20, por divulgar um dos anexos da colaboração do ex-ministro petista Antonio Palocci. O medo de que Fernando Haddad (PT) ganhasse a disputa, conforme lembrou o colunista, era manifestado em mensagens trocadas pelos procuradores da Lava Jato. 

Bebianno, que deixou o governo Bolsonaro pelas portas dos fundos e vira e mexe demonstra disposição em revelar fatos incômodos ao presidente, disse na entrevista que foi Paulo Guedes quem conversava com o então juiz.

Até então, era dele, Bebianno, o nome mais cotado para assumir o Ministério da Justiça. 

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O ex-ministro contou que, no início, não acreditava que Moro trocaria a estabilidade da magistratura por “uma missão tão turbulenta, numa vitrine tão grande, sem garantias de nada”. E, na conversa que teve com Paulo Guedes, concordou que, entre ele e Sergio Moro, o segundo deveria ser o escolhido por conta da “notoriedade”.

Se aconteceram de fato, as negociações sobre um possível convite jogam ainda mais dúvidas sobre a imparcialidade de Moro nas decisões tomadas no âmbito da Lava Jato. A suspeita é a de que ele já pensava em se beneficiar do resultado das urnas com um novo emprego.

Moro tem um bom argumento contra essas suspeitas: quando condenou o ex-presidente Lula no caso do triplex do Guarujá, em julho de 2017, Bolsonaro era ainda uma piada quando avaliadas as possibilidades de se tornar presidente.

A divulgação da delação de Palocci, porém, ocorreu quando as chances eram mais do que reais.

A menção às possíveis conversas com a campanha de Bolsonaro, como não poderia deixar de ser, causou incômodo.

Em nota, o Ministério da Justiça respondeu à coluna de Elio Gaspari dizendo que Moro foi sondado por Paulo Guedes apenas na semana anterior ao segundo turno das eleições de 2018 e que somente após o resultado final recebeu o convite oficial do então presidente eleito. “O ministro Sergio Moro reitera que, até então, não havia nenhum relacionamento ou quaisquer tratativas com Jair Bolsonaro ou Paulo Guedes. E que, portanto, repudia insinuações, sem nenhuma base, sobre a sua atuação isenta como juiz”.

Até aqui, fica o dito pelo não dito.

Bebianno, vale lembrar, foi o homem-forte da campanha de Bolsonaro à Presidência. Durou menos de dois meses no governo.

Moro, por sua vez, segue com moral entre os eleitores, mesmo após a Vaza Jato. Em setembro, o Datafolha mostrou que 54% da população avaliavam sua gestão à frente do ministério como ótima ou boa. Outros 24% a consideravam regular, e 20%, ruim ou péssima. Os números superam os do chefe, aprovado por 29% e reprovado por outros 38% na pesquisa mais recente de popularidade.