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Para além da hashtag, ser antirracista exige autocrítica, escuta e ação

Ativistas falam sobre a luta antirracismo no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

No dia seguinte ao ‘apagão’, nas redes sociais, em protesto antirracista, na terça-feira (2), algumas pessoas brancas seguiram a vida com sensação de dever cumprido, quase aliviadas com a oportunidade que ganharam para, com uma simples publicação, acompanhada por uma hashtag, dizer ao mundo que também fazem parte dessa luta; outros começaram a pensar em como se aproveitar da causa para aumentar os números de seguidores, de clientes e de vendas. Mas também teve uma parcela de pessoas brancas que acordou se perguntando: por onde começar a luta antirracista pra valer? E como contribuir com a igualdade racial sem roubar o lugar de fala dos negros?

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Para ativistas e pesquisadores da questão racial no Brasil, o primeiro passo que uma pessoa branca pode dar para avançar nessa pauta é reconhecer o racismo em si, se entender como parte do problema. “Todo mundo no Brasil sabe que o racismo existe. Mas a questão é que as pessoas brancas não querem se responsabilizar. Elas não querem se perceber racistas, por causa da relação do racismo com uma ordem de crueldade. Em uma sociedade tão católica e tão benevolente quanto essa que foi construída, ninguém quer ser vilão”, avalia o escritor, fotógrafo, influenciador e colunista da Mídia Ninja Roger Cipó.

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Lia Vainer Schucman, doutora em Psicologia Social e professora em psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) (Foto: Arquivo Pessoal)

De acordo com Lia Vainer Schucman, doutora em Psicologia Social e professora em psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é muito importante entender que temos que tirar o racismo do âmbito moral. “Ser racista é algo que nós aprendemos na sociedade brasileira. O que não quer dizer que não tenhamos responsabilidade. Mas, se nós vermos o racismo como algo moral, de ser uma pessoa má, ninguém vai se enxergar racistas, porque as pessoas não querem se enxergar como pessoas más. (...) Nós aprendemos a ser racistas em uma sociedade em que brancos e negros ocupam lugares tão diferentes. Então, a gente tem que ‘desaprender’ a ser racista”, diz Lia.

No livro “Memórias da Plantação” (Ed. Cobogó), a escritora, psicóloga e artista portuguesa Grada Kilomba disserta sobre um percurso de consciencialização coletiva, com base na psicanálise, pelo qual pessoas brancas passam para se tornarem capazes de reconhecer o racismo na sociedade e em si para, então, se responsabilizar. O percurso é composto pelos seguintes mecanismos: negação, culpa, vergonha, reconhecimento e reparação.

Mito da democracia racial e falta de autocrítica

Protestos nos EUA contra o assassinato de George Floyd (Foto: Johannes EISEL / AFP/Getty Images)

A despeito da recente mobilização do povo negro em protesto aos assassinatos de João Pedro e de João Vitor e da luta secular contra o genocídio desse grupo que, hoje representa 54% da população do Brasil, foi o racismo dos Estados Unidos e a reação a ele que despertaram a branquitude brasileira para a questão racial. Isso diz muito sobre o estágio de negação no qual ainda nos encontramos por aqui. “Se interessar por racismo quando é nos Estado Unidos faz com que a gente se livre de pensar que o próprio Brasil é racista”, afirma Lia, autora do livro “Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na Cidade de São Paulo”.

De acordo com Ad Junior, apresentador, influenciador digital e head de marketing da Trace Brasil, nunca tivemos uma discussão ampla do racismo no seio da branquitude no Brasil.  “Os brancos brasileiros sempre se negaram a olhar para o passado e fazer uma autocrítica ou análises do próprio comportamento. Portanto, quando se negaram a falar sobre raça e, ao mesmo tempo, usaram raça para estabelecer privilégio, criou-se uma dicotomia. (...) Por conta de um racismo que é passivo-agressivo, os brancos têm uma dificuldade maior de reconhecer as suas próprias práticas”, afirma Junior.

Gabi Oliveira, influenciadora, ativista e criadora do canal ‘De Pretas’, defende que o mito da democracia racial dificulta que a branquitude brasileira dê o primeiro passo no sentido de se reconhecer racista. “Por estarmos em um processo de miscigenação, a gente passou a se entender muito cedo como uma democracia racial, na qual ninguém liga se você é preto ou branco, (...) as pessoas brancas no Brasil são racistas, mas têm dificuldade em se entender assim, porque nós tendemos a acreditar que a miscigenação nos salvou do racismo. Tanto é que a frase que a gente mais escuta é: ‘ah, eu tenho um amigo negro, eu já namorei uma negra, eu já namorei um negro’. ‘Então isso me livra de ser racista’”, explica Gabi.

A influenciadora e ativista Gabi de Pretas (Foto: Reprodução/ Instagram)

Atitudes dizem mais que mil hashtags

Ao mesmo tempo que se relacionar com pessoas pretas não livra as brancas de exercerem práticas racistas em diferentes âmbitos sociais, aderir campanhas e compartilhar hashtags não as tornam antirracistas. “O que resolve o problema é uma ação concreta e direta, e que precisa ser elaborada junto com pessoas pretas, que são as pessoas impactadas diretamente pelo racismo. (...) A gente não precisa de pessoas brancas batendo no nosso ombro dizendo: ‘Olha, eu estou com você, eu mudei a tela do meu Facebook por causa de você’. A gente precisa de ação de pessoas que impeçam as atitudes racistas na sociedade. A ação é a mais urgente e não precisa ser publicada”, afirma Cipó. 

De acordo com Ad Junior, por meio desse tipo de campanha, a gente declara que o novo normal será falar sobre pautas que sejam sobre diversidade e que traga mais protagonismo para mais de 50% da população do país. “Para isso, os brancos brasileiros que ainda não se veem na luta precisam estar ao lado dos pretos e viabilizar, inclusive com investimento financeiro, tudo o que estamos pedindo, que é igualdade de direitos e igualdade de oportunidades”, diz o apresentador.

Não existe um manual para a luta antirracista, mas todas as pessoas brancas podem ser agentes transformadoras de acordo com o lugar que cada uma ocupa na sociedade. “Uma dona de casa pode ser responsável pelos desenhos que o filho assiste. Se ele só assiste desenho de pessoas brancas e princesas brancas de olho azul isso já está moldando o ideal de beleza do filho. Então, passa desde a escolha do desenho, das bonecas que a criança tem, ou do fornecedor que vai fazer o bolo de aniversário do seu filho. (...) “Se a pessoa é RH ou dono de uma empresa, o lugar da pessoa é outro: pensar como contratar, quem contratar, o plano de carreira para a população negra, em que lugar ela está sendo contratada, quem são os fornecedores”, afirma Lia.

Para Gabi Oliveira, reverberar vozes de pessoas negras também faz parte de uma conduta antirracista, da mesma forma que fortalecer sistemas de educação antirracistas como a Lei 10.639 (que, desde 2003, torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares). 

Tanto Gabi quanto Roger Cipó reforçam a importância de denunciar atitudes e situações racistas. “Todo mundo sabe como é o racismo, mas ninguém quer se constranger. Mas o não constrangimento resulta em morte, o não constrangimento resulta no encarceramento injusto”, afirma Cipó. “Pessoas brancas devem tutelar a ação de outras pessoas brancas para inibir e impedir a ação racista delas, desde o almoço de domingo, em casa, às relações de trabalho. Porque, se eu permito isso, eu estou sendo conivente”, alerta ele.

“Para além de se falar de racismo estrutural e subir hashtag, que as pessoas comecem a tomar a ação de seguir pessoas negras, ler notícias negras, a mídia preta que acontece com muito fervor, porque conta histórias que protagonizam pessoas negras, assistirem programas protagonizadas por pessoas negras para que seu olhar seja descolonizado”, acrescenta Ad Junior.

Leitura de intelectuais pretos e diversificação de repertório cultural

O escritor, fotógrafo, influenciador e colunista da Mídia Ninja Roger Cipó (Foto: Arquivo Pessoal)

Se por um lado, a discussão racial é inédita para grande parte da população branca, por outro, pessoas pretas vivenciam, individualmente, o racismo cotidiano desde os primeiros anos de vida e, coletivamente, elaboram estratégias para combatê-lo desde que foram raptados de países da África, no século 16, para servir a um sistema de exploração planejado pelos povos europeus. 

Por mais que esse sistema tenha feito um grande esforço para apagar a cultura e para silenciar as vozes, houve resistência. E, nos últimos anos, com as políticas públicas de cotas, a população preta chegou à academia, onde está produzindo conteúdo intelectual com potencial de transformar as estruturas da sociedade brasileira. 

“É importante as pessoas interessadas em uma ação antirracista não perguntarem paras as pessoas pretas ou para o seu amigo preto: ‘O que eu devo fazer?’. É preciso estudar. A gente tem aí uma produção científica que já deu conta de dizer o que o racismo é. Pesquisas voltadas para a educação, para a saúde, para cultura… A gente já elaborou muita crítica social com base teórica e intelectual que dá pra resolver o problema”, afirma Roger Cipó”.

O escritor, fotógrafo e influenciador ressalta a importância de pessoas brancas aproveitarem esse momento de mobilização para começarem a visitar obras de intelectuais pretos africanos ou em diáspora no Brasil e em outros países, que construíram, com base na epistemologia, caminhos possíveis para uma sociedade mais plural, que consiga erradicar o racismo. “Achille Mbembe, Grada Kilomba, Sueli Carneiro, Lélia Gonzales, Abdias de Nascimento, Hamilton Borges, Milton Santos, Hélio Santos, Aparecida Bento, Bianca Santana, Tiago Soares e Túlio Custódio, entre tantos outros”, recomenda Cipó.

Além de estudar o que já foi produzido cientificamente acerca do racismo e críticas sociais relacionadas a esse sistema de opressões, existe um universo de produções culturais pretas nacionais e internacionais que vem sendo ignorado pela branquitude, que parece achar feio o que não é espelho. 

“Ainda hoje, no Brasil, o olhar de algumas pessoas é incrivelmente colonizado, porque enxergam pessoas negras como não produtoras de conhecimento, não produtoras de entretenimento que não seja caricato, não propositoras de reflexão e análise crítica de uma sociedade”, alerta Ad Junior. 

“Portanto, quando eu vejo a #sejaantirracista,  eu pergunto: Quantos livros você já leu de autores negros? Quantas peças vocês já foi assistir que estão contando histórias que não sejam eurocentradas? A gente vê releituras e releituras de MacBeth e de peças eurocentradas, mas nunca vai lá assistir ao teatro negro que existe, que está contando outras histórias. O olhar do colonizador ou do colonizado faz com as pessoas enxerguem esse movimento como algo novo, quando o país tem mais 50% de pessoas pretas e esse deveria ser o normal”, diz Junior.

Lugar de fala e prepotência do ‘branco salvador’

Ad Junior, apresentador, influenciador digital e head de marketing da Trace Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Após reconhecer o racismo em si, estudar o racismo e suas consequências na sociedade e colocar em ação práticas antirracistas, espera-se que o branco aliado à luta entenda que todo esse processo nada mais é que um dever, mas “existe uma tendência dos brancos de se ver como protagonista de qualquer pauta. Como, por exemplo, um negro começa a falar de racismo estrutural, e a pessoa branca começa a falar dela, do que ela fez, do que ela falou... Não. Quando nós estamos falando de racismo nós estamos falando de uma pauta de protagonismo negro”, afirma Ad Junior.

“É necessário que os brancos escutem a nossa voz. Desaprender a ideia de que eles estão nos dando voz. Ela já existe, mas precisa ser ouvida. E mesmo que escute, você entende o que a gente tá falando? Você tem empatia?”, questiona Ad Junior. “Para se tornar um aliado, ele precisa passar por diversos estágios e o primeiro é escutar, sentar numa cadeira e estudar, se esforçar muito, muito mesmo, para poder começar a conversar sobre racismo com os seus”, diz o apresentador.

“Pessoas brancas não podem mais cair no lugar de dizer: ‘Nós estamos dando voz a pessoas pretas’. Porque isso é uma falácia e uma reelaboração do racismo. Porque nós sempre tivemos vozes”, afirma Roger Cipó. “

Para Lia Vainer Schucman, o papel de ‘branco salvador’ aparece como uma ideia de se sentir superior, como se estivesse fazendo algo para o outro. “Ser antirracista não é a luta pelo outro, é uma luta por uma sociedade que é humana para todos. É muito fácil sair do papel do ‘branco salvador’ quando você entende que não está fazendo um favor, mas sim um dever cívico, ético, por uma sociedade mais igualitária”, diz Lia. Ainda de acordo com ela, aos brancos, cabe ser antirracista na vida e no cotidiano, que é diferente de estar no movimento negro, que não é um lugar para brancos.

“Os brancos da luta antirracista precisam ser aqueles que vão levar a mensagem para os brancos que não ouvem aquilo que nós negros falamos, ou seja, seus parentes, seus amigos, seus colegas de trabalho, seus funcionários. Para que, lá, eles possam protagonizar sim a ideia de que eles precisam se juntar para poderem ser antirracistas. Porque quem é protagonista da pauta do negro é o negro. (...) Eu posso analisar a história de cada grupo, mas não vou protagonizar a história deles”, explica Ad Junior.