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Sem o apoio do pai Amyr, Tamara Klink tornou-se a mais jovem brasileira a cruzar o Atlântico sozinha

·8 min de leitura

Em pleno Oceano Atlântico, alto mar, enquanto a noite se aproximava, Tamara Klink comandava sozinha seu pequeno veleiro de 26 pés (oito metros de comprimento) quando viu uma nuvem escura e pesada chegar rapidamente. Mal teve tempo de pensar: em segundos, uma tempestade caiu com força e as ondas cresceram, fazendo o mastro vibrar e o veleiro bater, ranger e balançar assustadoramente. A violência da água fez com que alguns equipamentos caíssem no mar e outros se quebrassem. Tamara sentiu muito medo. Mas, a uma semana do seu porto de chegada, no Brasil, era impossível voltar atrás. “Eu olhava e dizia: ‘Bom, nesse mar eu não vou me jogar’. Eram as maiores ondas que eu já tinha visto. Não tinha como fugir. ‘Agora tenho que chegar logo’, pensei.”

Estava quase no final de uma jornada que a transformaria, aos 24 anos, na mais jovem brasileira (entre homens e mulheres) a cruzar o Atlântico sozinha. Os 17 dias entre Mindelo, no Cabo Verde, e Recife, foram a etapa final de um percurso que começou dois meses e meio antes, em Lorient, na França, em agosto. Mas o sonho de ser velejadora e viajar longas distâncias sozinha é bem mais antigo. Surgiu ainda na infância, quando a filha do navegador solitário Amyr Klink ouvia as histórias de viagens do pai antes de dormir, e ganhava força a cada vez que velejava com a família para a Antártica, onde descobriu que aqueles cenários majestosos descritos pelo pai existiam de fato. “Depois de ver aquilo tudo, não podia mais voltar a viver como antes, nem me contentar com a imaginação das coisas”, lembra. O mundo, para aquela Tamara tão pequena, ficou gigante. “Os sonhos típicos da cidade, de ter uma posição, um cargo, objetos, de repente não eram mais compatíveis comigo.”

Decidiu, no início da juventude, que precisava ter seu próprio barco para, um dia, se lançar ao mar. Afinal, ensinou Amyr à filha, para navegar não basta saber usar um barco, é preciso conhecer intimamente uma embarcação específica: a sua própria. É de se imaginar que, para isso, ela tenha tido o apoio dos pais, claro. Mas, não. Ambos negaram todo e qualquer auxílio. “Não me ajudaram com conselhos nem com recursos financeiros”, conta. Pelo contrário. Uma das palavras que a velejadora usa para definir sua relação com o pai é forte: desacolhimento. “Ele sempre foi muito duro, rígido, ríspido até. Quase agressivo com as palavras”, diz. Amyr se assume “um pai difícil”, mas faria tudo de novo. “Não ajudei por uma razão muito simples: seria ruim para ela ser vista apenas a menina que herdou tudo do pai.”

No final do ensino médio, foi uma adolescente deprimida, mas a terapia a fez aprender a lidar com a reprovação dos outros, e de Amyr, principalmente. “O fato de meu pai ser distante e ter me dito muitos nãos me deu liberdade”, acredita. “Sem ele, eu podia experimentar tudo por mim mesma sem dar satisfação.” Aprender a velejar foi o segundo passo, e Tamara trilhou seu caminho por si só. “Precisei estar longe e me afastar da família pra reprocessar muitas visões, sensações, lembranças que eu havia construído a partir da relação com meus pais”, conta ela, que deu seus primeiros passos sozinha quando foi estudar Arquitetura Naval em Nantes, na França, há três anos.

Até chegar lá, economizou o máximo que podia para comprar seu próprio barco. Ainda assim, estava longe de ter a quantia necessária. Abriu um canal no YouTube para falar sobre o sonho de se tornar velejadora e saiu pedindo patrocínios de porta em porta, mas os ventos não eram favoráveis. Até que um amigo da internet ofereceu a ajuda e o estímulo que precisava. No ano passado, Henrique, brasileiro e velejador, emprestou o dinheiro para Tamara comprar um veleiro usado na Noruega, onde ele mora. E se tornou seu principal mentor. Até então, só ele e a avó de Tamara, Ana, que batizou o barco de Sardinha, conheciam os planos ousados da velejadora iniciante de cruzar solitária os mares europeus. “Já bastavam os meus medos, eu não precisava me influenciar também pelos medos da minha mãe”, diz.

A fotógrafa Marina Link, mãe de Tamara, de sua irmã gêmea, Laura, e da caçula Marina Helena, por sua vez, “sempre soube que isso aconteceria um dia, só não sabia quando”. “Ela é aventureira desde pequena. Nas nossas fotos de viagem, é ela quem sempre aparece no leme comigo e com o Amyr”, conta.

O casal soube que a filha realizou o sonho do barco próprio poucas horas antes de ela deixar o porto de Alesund, na Noruega, rumo a Dunquerque, na França, para onde levou o veleiro logo depois de comprá-lo. Aquela viagem, um ano atrás, incluiria uma perigosa passagem pelos fiordes noruegueses. “Mas, filha, você não sabe velejar sozinha, você nunca fez isso na vida”, disse Marina. “Eu sei, mãe, mas vou aprendendo no caminho”, respondeu.

Em São Paulo, Marina passou noites em claro enquanto a filha desviava de pedras e navios. Ali, ambas se prepararam para o que viria meses depois — o percurso da França até Recife, incluindo uma temida travessia do Atlântico. “Este foi o pior momento. Passei 16 noites em claro, grudada no celular vendo o GPS dela. O barco dela era uma flechinha vermelha que precisava estar sempre indo para o sul numa velocidade de 3 a 4 nós”, conta a mãe, emocionada. O coração apertava quando a tal flechinha reduzia a velocidade ou mudava a direção. “Eu parava de respirar, começava a tremer, entrava em pânico”.

Um dia, o barco passou quatro horas quase sem velocidade rumo ao norte, indicando que pudesse estar à deriva. Soube-se depois que Tamara estava dormindo — o que não é habitual neste tipo de viagem, em que se dorme em doses homeopáticas de 30 minutos. “Foram as piores quatro horas da minha vida”, lembra Marina, que contou com o apoio de mães no Instagram: “Sou eternamente grata a elas. Estiveram comigo o tempo todo. Não sei o que teria sido de mim sem essas mulheres.”

Quando desembarcou em terras brasileiras, Tamara levou um susto ao ver, no cais, o pai, a mãe, as irmãs, as primas e a avó. Os abraços emocionados foram os primeiros sinais de que algumas coisas tinham mudado. “Meu pai me elogiou quando cheguei. Disse que estava orgulhoso. Isso foi estranho”, lembra. Não sem antes se espantar com a Sardinha. “É um barco muito precário”, disse Amyr, com a experiência de quem, há 37 anos, atravessou o mesmo oceano a remo. Para a mãe, Marina, a partida — e a volta — da filha mudaram todas as relações em casa. “Hoje eu me vejo como aprendiz delas, é uma nova etapa das nossas vidas. E ele passou a respeitá-la mais”, diz a mãe. Amyr está, de fato, cheio de orgulho e lista inúmeras proezas da filha no percurso, mas ainda não se conformou com a precariedade do barco: “A principal manilha do veleiro é igual à do meu chaveiro”, espanta-se. “Se eu tivesse visto antes, e ainda me restasse autoridade, teria proibido.”

Ainda no cais de Recife, Tamara se surpreendeu também com a quantidade de curiosos que se aproximaram, muitos deles seguidores das sua aventura nas redes sociais. Impressionou os que souberam que ela se lançou ao mar num barco de 26 pés, como a velejadora olímpica Gabriela Nicolino, bronze nos Jogos Panamericanos de 2019: “Ele demora mais, tem pouquíssimo espaço, não dá para ficar em pé na cabine e só carrega o mínimo para a subsistência”, explica a atleta. “Tamara rebate todas as crenças e preconceitos de que este universo é só para homens. Ela fez toda a parte de planejamento, navegação e força sozinha. É uma inspiração enorme para outras mulheres”, acredita Gabriela.

Tamara sabe disso e, em terra, tem se dedicado de fato a inspirar outras mulheres a seguirem seus sonhos. Para isso, escreve poesias no Instagram, inclusive em alto-mar, quando mandava pequenos textos por satélite, e acaba de lançar dois livros com seu relato e diário de bordo sobre a viagem do ano passado, da Noruega à França, “Mil Milhas” e “Crescer e Partir” (Petrópolis, 2021). Amyr Klink assina o posfácio de um deles, onde registra: “É duro dizer não a quem se ama. Mas Tamara reagiu à minha negativa com seu sorriso intenso — que de mim não herdou — e, de um jeito delicado e decidido, compreendeu que cada um escreve sua história, que não é algo que se herda ou se empresta”.

As suas histórias de aventuras, filosofa a navegadora, são o que vai deixar de mais relevante para o mundo. “Já que ninguém vai comigo na viagem, preciso contar como foi”, brinca, adiantando que a próxima será de Recife a Paraty, no início do ano. Certamente, virão novos diários e livros por aí. Escrever, para ela, é uma forma de “contaminar as pessoas”: “Lembrá-las de imaginar e de quererem coisas que valem mais do que objetos, que valem mais do que números numa conta bancária, do que títulos, do que ter nossos rostos em jornais ou em revistas, mais do que likes numa rede social”. Embora leve a sério esse compromisso, Tamara também se diverte com o fato de ser inspiração. “Se vissem o jeito que eu lutei contra aquela tempestade, de biquíni porque não me preparei antes, toda atrapalhada e perdendo os equipamentos, não diriam isso”, ela diz, e gargalha em seguida.

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