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Sem eficácia: Insistência de Bolsonaro com cloroquina lembra caso da pílula do câncer

Ana Paula Ramos
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Considerada pelo presidente Jair Bolsonaro como arma no combate à pandemia do coronavírus, cloroquina não tem eficácia no tratamento da covid. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
Considerada pelo presidente Jair Bolsonaro como arma no combate à pandemia do coronavírus, cloroquina não tem eficácia no tratamento da covid. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Diversos estudos mostram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não trazem melhoras no tratamento da covid-19. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro insiste no uso dos medicamentos para o tratamento da doença. E o Ministério da Saúde liberou o uso da droga desde o estágio inicial da doença, contrariando as recomendações de diversas entidades médicas e científicas.

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido por Bolsonaro por conta de divergências na condução da pandemia, alertou que a ampliação do uso de cloroquina para pacientes com quadro leve de infecção pelo novo coronavírus pode elevar a pressão por vagas em centros de terapia intensiva e provocar mortes em casa por arritmia.

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Nelson Teich, que comandou a pasta após Mandetta, também se mostrou contrário ao uso do remédio e acabou deixando o Ministério da Saúde. A autorização acabou sendo dada na gestão do ministro interino, general Eduardo Pazzuelo.

Usada para prevenir e tratar a malária há anos, hoje a hidroxicloroquina é receitada também para casos de artrite reumatoide e para alguns sintomas de lupus, além de outras doenças autoimunes.

Mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) não reconhece nenhum medicamento para a covid-19.

NEGACIONISMO

Já não é a primeira vez que Bolsonaro insiste na administração de um medicamento sem comprovação de eficácia. Em 2016, quando ainda era deputado pelo PP, ele foi um dos autores do projeto de lei que dispunha sobre o uso da fosfoetanolamina sintética por pacientes com câncer. Aprovado pela Câmara e sancionado sem vetos pela então presidente Dilma Roussef, o projeto foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal meses depois.

Sem autorização da Anvisa, a substância não havia sido aprovada para uso médico e sequer estava no processo de testes com essa finalidade.

A fosfoetanolamina sintética, mais conhecida como pílula do câncer, foi produzida durante anos num laboratório de química da Universidade de São Paulo em São Carlos e distribuída a pacientes com câncer. Algumas pessoas diziam ter tomado o composto e melhorado, mas nunca haviam sido feitos testes em humanos para determinar se ela era segura e se efetivamente funcionava. Pacientes foram então à Justiça reivindicar acesso ao tratamento.

Na época, simpatizantes da causa diziam que a mídia, movida por interesses poderosos, queria negar à sociedade o acesso à fosfoetanolamina, em uma aliança que envolvia a indústria farmacêutica, acadêmicos e setores da comunidade médica e do Poder Judiciário.

Em 27 anos como deputado, Bolsonaro teve apenas dois projetos aprovados: o que autorizava o uso da chamada “pílula do câncer” e uma proposta que estendia o benefício de isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para produtos de informática.