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Seis em cada dez LGBTs ficaram sem renda na pandemia

·3 minuto de leitura
Imagem: Fotos Públicas
Imagem: Fotos Públicas
  • Pessoas LGBTQIA+ sofrem mais com a vulnerabilidade financeira e têm saúde mental prejudicada na pandemia

  • Desempenho do presidente Jair Bolsonaro quanto às políticas públicas para os LGBTQIA+ é um agravante na saúde mental dessas pessoas

  • Taxa de desemprego entre Lésbicas, Gays, Bissexuais, Interesexuais e Assexuais é de 17,15%, com porcentagem ainda maior para Travestis e Transexuais, em que o índice é de 20,47%;

Texto: Caroline Nunes

A vulnerabilidade financeira e psicológica de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis, Queers, Interssexuais e Assexuais (LGBTQIA+) aumentou em 16% na pandemia de Covid-19, de acordo com um levantamento realizado pelo coletivo #VoteLGBT, em conjunto com a Box1824. O estudo, feito de junho de 2020 ao mesmo mês de 2021, compõe o "Diagnóstico LGBT+ na Pandemia", e mostra que 6 a cada 10 pessoas da comunidade LGBTQIA+ tiveram diminuição ou ficaram absolutamente sem renda no período.

Para o pesquisador que assina o estudo, o demógrafo Samuel Araújo, o índice ainda se fortalece de forma negativa para LGBTQIA+ pretos, pardos e indígenas, mesmo que a análise não tenha se aprofundado neste parâmetro. Samuel explica que por conta das vulnerabilidades sociais sofridas de forma cotidiana por essas pessoas em específico - nos pilares de renda e trabalho - o percentual pode ser maior.

“Isso pode ser decorrente de um fator estrutural e que foi aprofundado com a pandemia, visto que as relações de trabalho sempre foram mais informais e a instabilidade econômica maior para estas pessoas”, salienta o demógrafo.

De acordo com as informações da pesquisa, com a crise sanitária sendo prolongada para 2021 foi possível acompanhar que a taxa de desemprego na comunidade LGBTQIA+ é de 17,15%, com porcentagem ainda maior para pessoas trans: índice de 20,47%.

Outro dado alarmante é que 6 em cada 10 dos desempregados LGBTQIA+ (59,47%) já estão sem trabalho há um ano ou mais; e 4 em cada 10 pessoas deste grupo (41,53%) vivem em domicílios com insegurança alimentar. Mais uma vez, para pessoas trans e travestis, esse número apresenta alta se comparado às demais categorias (56,82%).

Piora na saúde mental

O diagnóstico também mostra uma piora significativa na saúde mental das pessoas LGBTQIA+ durante a crise do novo coronavírus. Uma das motivações, de acordo com o estudo, está parcialmente relacionada com a atuação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no que tange às políticas públicas de apoio à comunidade.

O percentual de 98,7% dos eleitores LGBTQIA+ rejeitam o presidente, e 95% são favoráveis ao seu impeachment. A ineficiência do programa nacional de vacinação também é um fator que agrava a saúde mental dessas pessoas, segundo o levantamento.

As informações ainda apontam que 55,19% dos 7 mil entrevistados consideram que estão em condições piores em relação à sua saúde mental, se comparado a 2020, e 54,92% foram diagnosticadas com o risco de depressão no nível mais grave. Além disso, 30% das pessoas já haviam recebido diagnóstico prévio de depressão e 47,59% de ansiedade. Em ambos os casos, o indicador mostrou alta de 2% quando comparado com o ano passado.

“Esta população por diversas vezes é preterida por fugir da normatividade e por outras questões sistêmicas, como falta de acesso à educação de qualidade e rede de contatos para empregos formais e melhor remunerados. Da mesma forma, estar o tempo todo sob a ameaça de sofrer preconceitos traz uma carga mental bastante grande para esses profissionais”, diz o estudo.

O que esperar para 2022?

“Várias destas questões, que estão ligadas ao índice de vulnerabilidade, são estruturais, portanto, para interrompê-las, é necessário trabalhar na redução de alguns impactos que o racismo, machismo, transfobia e LGBTfobia em geral atuam na sociedade”, ressalta Samuel.

O demógrafo avalia que ir no sentido contrário à situação que acontece atualmente no Brasil e pautar essas informações desde o ensino básico podem ser medidas de redução de danos à comunidade LGBTQIA+ no futuro. A inclusão igualitária no mercado de trabalho e a criação de políticas públicas eficientes para este grupo são maneiras que podem auxiliar na autonomia financeira e evitar que, no ano que vem, os indicadores apontem novamente o aumento da vulnerabilidade dos LGBTQIA+, pondera o pesquisador.

“O ideal é vivenciar a identidade de gênero e orientação sexual sem acreditar que estes fatores são entraves para o bem estar psicossocial dessas pessoas. Ter segurança de conforto e renda fixa são planos a longo prazo. Políticas de inclusão e diversidade dentro do ambiente corporativo podem também ajudar neste processo”, finaliza o autor da pesquisa.

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