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Segunda onda da COVID-19 já começou lá fora; o Brasil está preparado?

Fidel Forato
·8 minuto de leitura

Passado quase um ano do primeiro caso confirmado do novo coronavírus (SARS-CoV-2), o mundo ainda enfrenta a pandemia da COVID-19 e todas as suas complicações. Se algumas regiões do globo conseguiram controlar, de forma mais eficaz, o contágio, outros países não. Afinal, a segunda onda já é uma realidade, principalmente, na Europa.

Em números totais, quase 50 milhões de pessoas já se contaminaram com esse agente infeccioso, sendo mais de 1,2 milhões de óbitos, segundo a plataforma da Universidade Johns Hopkins. No entanto, a tendência é que os números de casos da infecção pelo coronavírus tendam a crescer pelos próximos meses.

Em segunda onda da COVID-19, a situação da Europa é diferente da brasileira (Imagem: Reprodução/ Johns Hopkins University)
Em segunda onda da COVID-19, a situação da Europa é diferente da brasileira (Imagem: Reprodução/ Johns Hopkins University)

De olho nos noticiários, é normal se perguntar: o que aconteceu para o número de casos da COVID-19 aumentar de forma tão significativa na Europa? Não existe uma única explicação, mas um conjunto de fatores que apontam para esse crescimento. Agora, a velocidade de propagação surpreende e parece ser igual dos primeiros meses da pandemia por lá. Outra questão importante é entender como o Brasil pode se preparar para esse possível quadro.

Segunda onda do coronavírus invade a Europa

Na quinta-feira (5), a França registrou mais de 58 mil novos casos da COVID-19, sendo este o recorde de infecções diárias já registradas por coronavírus, segundo a agência de notícias RFI. Até o momento, o país tem mais de 1,6 milhão de casos e é o mais afetado pela pandemia na Europa. Nesse cenário, há mais de uma semana, os franceses passam por um novo lockdown que é, por enquanto, menos rígido do que o primeiro (imposto entre março e maio). Mesmo assim, a França já estudo transferir doentes para hospitais na Alemanha.

Para achatar a curva epidemiológica da COVID-19 que também atinge recordes de casos diários na Inglaterra, as autoridades locais também instituíram um novo bloqueio. Em números, o Reino Unido acumula o maior número de óbitos no continente (47 mil mortes) desde o início da pandemia. Ainda no continente, o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, anunciou na última quarta-feira (4) um novo pacote de medidas para evitar o contágio do coronavírus. As restrições incluem lockdown parcial em Lombardia, capital financeira do país e um epicentro da doença durante a primeira onda.

Prevendo esse contexto, ainda em outubro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertava para a chegada de uma segunda onda da COVID-19 na Europa, em paralelo ao inverno no continente. Em toda a região, já são mais de 12,4 milhões de casos, de acordo com a entidade.

O que é a segunda onda de uma pandemia?

Antes de seguirmos, vale definir o que seria uma segunda onda de uma pandemia. Para um país ou cidade enfrentar essa situação, é preciso identificar um aumento significativo de casos, internações ou óbitos devido a uma única doença, depois de uma queda significativa ou do controle do contágio dessa infecção, em uma região específica. Essa é uma definição simples e, puramente, numérica.

O comportamento humano é um dos principais responsáveis pela segunda onda da COVID-19 no mundo (Imagem: Gabriella Clare/Unsplash)
O comportamento humano é um dos principais responsáveis pela segunda onda da COVID-19 no mundo (Imagem: Gabriella Clare/Unsplash)

Em contextos de pandemias, como o coronavírus, o difícil é entender porque a segunda onda chega, já que existem alguns fatores. De modo geral, o aumento de casos está relacionado ao comportamento humano, número de pessoas suscetíveis, sazonalidade de uma doença — como o vírus da gripe que age mais durante o inverno —, eventuais mutações do vírus e duração de imunidade — ainda desconhecida para a COVID-19.

Entretanto, o mais provável é que uma segunda onda surja a partir de uma combinação de ações humanas, como é possível visualizar na Europa. Com o primeiro controle dos casos e relaxamento das restrições de isolamento, muitos europeus viajaram e se reuniram, nem sempre de forma protegida (usando máscaras) para aproveitar o verão. Nesse sentido, é possível pensar que essas ações foram precoces, ou seja, aconteceram antes do controle do coronavírus, permitindo que esse agente infeccioso se espalhasse, de maneira, silenciosa.

Como já apontado pela OMS, há também a questão da sazonalidade do coronavírus. Aparentemente, o vírus da COVID-19 é transmitido com maior facilidade durante a mesma época que o vírus da gripe, ou seja, o outono e o inverno — nos períodos que são mais gelados.

Mutações do vírus da COVID-19

Entre uma das possíveis explicações para a expansão da COVID-19 na Europa, está uma mutação do agente infeccioso. Em pesquisa sobre os casos de coronavírus, uma equipe internacional de cientistas, com membros da Suíça e da Espanha, identificou essa nova variante. Identificada oficialmente pelo nome de 20A.EU1, essa cepa foi descrita em um artigo ainda não revisado por pares e publicado na plataforma online medRxiv.

Mutações no vírus da COVID-19 podem aumentar a capacidade de infecção (Imagem: Reprodução/ Viktor Forgacs/ Unsplash)
Mutações no vírus da COVID-19 podem aumentar a capacidade de infecção (Imagem: Reprodução/ Viktor Forgacs/ Unsplash)

Mais especificamente, os cientistas rastrearam o aparecimento dessa cepa do coronavírus entre trabalhadores no nordeste da Espanha e ela teria se espalhado, de forma rápida, por grande parte da Europa desde o verão. O estudo ainda sugere que pessoas que voltaram de férias na Espanha tiveram um papel fundamental na disseminação dessa variante pela Europa.

Atualmente, o grupo de pesquisadores aponta que ela é responsável por parte significativa dos novos casos de COVID-19 em vários países do continente europeu. Inclusive, essa é uma possibilidade que levanta uma série de questões sobre se a segunda onda da pandemia. Se medidas mais rigorosas de triagem em aeroportos e outros centros de transporte fossem adotadas, dificilmente o continente estaria enfrentando a situação.

Mesmo que as análises tenham indicado que a nova variante, agora dominante, é mais infectante, felizmente, ela não é mais virulenta, pois não há diferenças na capacidade de infectar as células pulmonares. E nem se estabeleceu em pacientes uma correlação entre a nova variante e a gravidade da doença. Uma outra vantagem é que, até agora, nenhum pesquisador identificou mutações significativas no coronavírus e que poderiam comprometer as vacinas em desenvolvimento.

Brasil terá segunda onda da COVID-19?

“Apesar das diferenças entre si, os vírus respiratórios têm um padrão recorrente de comportamento. Se avaliarmos as oito principais pandemias deste tipo desde 1.700, vamos notar que pelo menos sete tiveram mais do que uma onda em alguma parte do mundo”, explica Márcio Sommer Bittencourt, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein e pesquisador da Clínica Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo, em entrevista para a Agência Einstein.

De acordo com o pesquisador, é provável que mais países enfrentem uma segunda onda da COVID-19, no entanto, a situação brasileira é diferenciada. "Não é possível responder com certeza se teremos uma segunda onda. Até porque no Brasil ainda não ocorreu uma queda sustentada no número de casos. Estamos num platô", explica Bittencourt. Em outras palavras, o país não teve uma queda drástica de novas infecções, como foi verificado na Europa.

São Paulo já se prepara para uma eventual segunda onda da COVID-19 (Imagem: Anrita1705/Pixabay)
São Paulo já se prepara para uma eventual segunda onda da COVID-19 (Imagem: Anrita1705/Pixabay)

"É possível que tenhamos uma segunda onda nos períodos de transmissão mais intensa de vírus respiratórios no Brasil no ano que vem [provavelmente, no inverno]. Apesar disso, se uma proporção grande da população já tiver sido infectada, essa segunda onda pode não ser forte, ainda mais se continuarmos com uma transmissão intensa na comunidade até lá", completa Bittencourt. No entanto, o médico ressalta que a gravidade da situação brasileira, nessa situação ainda hipotética, dependerá da capacidade de resposta das autoridades sanitárias.

COVID-19 em São Paulo e Manaus

Mesmo que a maioria das regiões mantenha controlada a taxa de contágio da COVID-19, há duas situações que chamam a atenção para uma eventual segunda onda nacional da infecção. Em São Paulo, o Centro de Contingência da COVID-19 — grupo que coordena ações contra a propagação da doença no estado — já alertou sobre a possibilidade dessa nova onda.

"Estamos nos mantendo alertas, mantendo reserva de leitos nas unidades de terapia intensiva", afirmou José Medina, coordenador do Centro. Essa possibilidade leva em consideração o aumento do risco de contágio durante as festas de final de ano. "É um período em que as pessoas se reúnem, há um contato maior por um tempo maior, o que aumenta o risco da transmissibilidade", apontou João Gabbardo, coordenador-executivo do Centro de Contingência.

Em outro extremo do Brasil, é possível que a cidade de Manaus, no Amazonas, já enfrente uma segunda onda localizada da COVID-19, de acordo com uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). "É indubitável que estamos em uma segunda onda em Manaus, que estamos tendo um elevando número de hospitalizações por casos graves de síndrome respiratória aguda grave. Esse tipo de cenário epidemiológico em que se tem a Prefeitura aumentando os atendimentos nas unidades básicas de saúde, você tem o governo do estado aumentando o número de leitos para internação por casos suspeitos e confirmados da COVID-19, é completamente incompatível com a tese de que temos imunidade de rebanho", defendeu Jesem Orellana, epidemiologista e autor do estudo.

Como conclusão do trabalho, Orellana ainda propõe a adoção de lockdown na região para conter a circulação do coronavírus. Inclusive, medidas de contenção do contágio já foram tomadas pelas autoridades locais. Voltando ao Brasil, será uma rápida resposta ao eventual aumento de casos e o rastreamento de doentes que impedirão uma segunda onda, como enfrenta a Europa.

Fonte: Canaltech

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