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Se Lula não atender rápido a anseios da população, governo vai por água abaixo, diz Mantega

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Integrante do governo de transição, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega afirma ser necessário dar prioridade máxima à população mais pobre para o governo não se enfraquecer e que isso está por trás dos questionamentos feitos por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a exigências fiscais nesta semana.

"Ele não quer começar o governo com as mãos amarradas. Porque, se não, ele não vai longe. Se ele não conseguir atender rapidamente os anseios dessa população, o governo vai por água abaixo", afirma à Folha de S.Paulo.

O mais longevo ministro da Fazenda do Brasil diz que Lula sempre pediu ao então titular da pasta preocupação com as contas públicas e que não existe antagonismo entre fiscal e social. No entanto, ele diz que é necessário gastos emergenciais e que é preciso estimular a taxa de investimento no Brasil usando os cofres públicos.

Segundo ele, o governo vai precisar de uma licença de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões fora do teto em 2023, inclusive para fazer a taxa de crescimento sair do 0,5% estimado por ele em 2023, e o mercado já aceitou isso. Mas os números finais necessários, em discussão por meio da PEC (proposta de emenda à Constituição) da Transição, só devem ser definidos após conversa com o Congresso.

"Esse dinheiro vai voltar, porque essa população [mais pobre] consome. Você vai ter aumento de arrecadação", diz. "Ela vai ajudar a mobilizar a economia também. Quer dizer, não é só um gasto, né? Também é um estímulo", afirma.

Na sequência, durante o ano que vem, deve ser discutida a nova âncora fiscal do país para guiar as expectativas de médio e longo prazo.

Mantega diz que seu trabalho na transição terá como objetivo remontar o antigo Ministério do Planejamento, inclusive para receber novamente a Secretaria de Orçamento Federal (hoje sob o guarda-chuva da Economia). Descarta ser ministro nem da área e nem de qualquer outra.

Ele elogiou os economistas escolhidos para a área da Economia e concorda com a afirmação de um deles, Persio Arida, de que o governo não pode errar na largada.

"Acho que é bastante salutar essa ideia. Não se pode queimar a largada", diz. "Mas também não se pode mergulhar na estagnação que o Bolsonaro deixou".