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Ser mãe na pandemia: “Chorava e não conseguia brincar com o meu filho”

Priscila Carvalho
·7 minuto de leitura
Mães, pandemia, filhos e saúde mental. Como estamos? (Ilustração: Ferilustra/Yahoo Brasil)
Mães, pandemia, filhos e saúde mental. Como estamos? (Ilustração: Ferilustra/Yahoo Brasil)

Reuniões, aulas online, brincadeiras e choro. Desde o início da pandemia, essa virou a rotina de muitas mães que tiveram que conciliar o dia dia do home office com o cuidado com os filhos dentro de casa.

A crise forçou muitas mulheres a terem que lidar com o novo e, consequentemente, trouxe uma piora na saúde mental. De acordo com uma pesquisa feita por Gênero e Número e SOF (Sempreviva Organização Feminista), 50% das brasileiras tiveram que realizar atividades extras como cuidar de uma criança ou idoso durante esse período.

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Já um outro estudo realizado pela Kearney, consultoria de gestão global americana, mostrou que 30% das mulheres pensaram em largar o trabalho desde o começo da pandemia.

Para expor essa problemática, o Yahoo! conversou com três mães para saber como elas estão lidando com essas adversidades e o que estão fazendo para manter a mente saudável. O texto faz parte do projeto editorial "Segurando a Onda", serão 21 textos sobre saúde mental.

“Eu não sei como sobrevivi”

Thais Britto, 31 anos, professora de educação infantil e mãe de um filho (Foto: Arquivo Pessoal)
Thais Britto, 31 anos, professora de educação infantil e mãe de um filho (Foto: Arquivo Pessoal)

“Trabalho em uma escola bilíngue e tinha uma rotina agitada também dentro de casa. Tinha que preparar atividades para os meus alunos, realizar reuniões, fazer comida, cuidar da casa e ainda dar atenção para o meu filho. Não sei como sobrevivi.

Sou mãe solo e tinha que me virar para fazer tudo sozinha. Quando ele ia para escola, era mais fácil para organizar os horários e atividades, mas fazendo tudo em casa, ficou bem pior. Às vezes ia para pracinha e ficava no celular para tentar desestressar.

A rotina da professora durante esse período também piorou, então, cheguei a um ponto que fiquei sem vontade de brincar com o meu filho. O cansaço foi piorando lá para o final de maio e eu chorava todos os dias. Me culpava por deixar o Henrique passar mais tempo na TV ao mesmo tempo que pensava que ele não ia morrer se passasse mais umas horinhas na frente da tela.

Às vezes ele aparecia no meio das minhas aulas também e não tinha o que fazer. Cheguei a desligar a minha câmera durante uma aula para tentar ajudá-lo a ir ao banheiro. Não tinha muito como fugir.

Depois de um tempo, comecei a olhar para mim e cheguei a fazer atividades que gostava como um banho longo e exercícios. Comecei a fazer terapia e, às vezes, tinha as sessões às 22 horas por causa da falta de horários. É puxado e para fazer tudo isso, tenho que acordar às 5h. Mas claro que tinham dias que não dava conta e deixava tudo de lado e ia deitar com ele às 20 horas. Não foi um período fácil.

Fiquei feliz com as aulas presenciais. Foi maravilhoso voltar. Lógico que tem o risco, mas diante do que passei, eu valorizo mais o presencial. Foi um estresse muito grande, muita ansiedade.”

“Pensei em desistir do trabalho”

Indianara Castanho, 39 anos, professora e mãe de gêmeos (Foto: Arquivo Pessoal)
Indianara Castanho, 39 anos, professora e mãe de gêmeos (Foto: Arquivo Pessoal)

Indianara Castanho, 39 anos, professora e mãe de gêmeos

“Trabalhava meio período e meus filhos iam para escola junto comigo. No começo não foi tão ruim, porque tive mais tempo com eles, mas depois tive que fazer um equilíbrio entre as atividades.

Depois passei a trabalhar o dia todo online. Tinha que colocar um desenho para eles se distraírem e pra eu organizar minhas coisas.

Também liberei meus filhos da aula online. Acredito que muito tempo na frente do computador não faz bem para crianças e, como eles só têm quatro anos, não tinha porque ser obrigatório.

O trabalho não acabava e meu marido teve que fazer mudança de horário para dividir melhor as tarefas. A gente achou que a pandemia não ia se estender tanto, mas acabou piorando e as crianças também já estavam cansadas de ficarem em casa o tempo todo.

Como professora, exigiu muito mais de mim também. Tinha que pensar em estratégias para os meus alunos não dispersarem e não tinha jeito. Se você não os prender, eles vão dispersar sim.

Tinha dias que eu falava que não dava mais e que ia sair do trabalho. Pensava direto: ‘Não dou mais conta’. Comecei a ter ansiedade, insônia, tensão e irritação. Muitas vezes eu chorava, me descabelava e ficava mal.

E eu demorei muito tempo para perceber que a minha saúde mental estava afetada. Para melhorar, comecei a fazer yoga, cursos e tirava um tempo para mim.

Agora, ‘desafogou’ um pouco, porque as aulas presenciais tinham voltado, mas honestamente eu sinto uma insegurança maior, além do medo de sair para trabalhar. A gente não tem vacina e eu vou trabalhar porque preciso. ”

Maya Tremontine, 38 anos, administradora e mãe de dois filhos

“Estou em casa desde o dia 13 de março e, na época, meu filho estava com 11 meses e minha filha com três anos. Meu marido teve uma demanda maior de trabalho e eu também. Até abril de 2020 foi bem pesado e a gente se revezava nos horários.

Foi bem difícil conciliar as agendas e acabava trabalhando depois que as crianças iam dormir. Às vezes ia deitar uma ou 2 horas da manhã. Isso começou a me dar um treco e me deixar ansiosa. Foi aí que decidimos ir para o interior, ter a ajuda dos meus pais e adiantar os trabalhos.

A gente abandonou as aulas online e minha filha não participava mais. Por um lado fiquei mais com os meus filhos, por outro estava um caos. Embora meu marido dividisse muito bem as tarefas comigo, ainda foi bem exaustivo e só melhorou durante nossa estadia fora da capital.

E, mesmo assim, era uma rotina básica: comida, sono, trabalho. Não tinha desenho com eles e outras coisas. Para desestressar, eu e meu marido começamos a malhar em casa, usamos aplicativos e esse era o treino que dava para fazer. O foco era tentar manter tudo bem.

As crianças voltaram para as aulas presenciais (paralisadas no momento) e ainda estão se adaptando à rotina. Na escola eles ficam em um espaço mais tranquilo e com mais interação. Também estou me organizando e, provavelmente, meu trabalho volte a ser presencial a partir de abril.”

Pandemia pode agravar ainda mais saúde das mães

Embora algumas escolas e empresas já tenham voltado às atividades presenciais, muitas ainda continuam em sistema home office, contribuindo para a sobrecarga de trabalho das mulheres.

Por isso é importante colocar na agenda tarefas em que você, mãe, olhe um pouco para si e cuide da saúde mental. “Se a gente não tem uma agenda ou um planejamento diário, esquece até mesmo de escovar os dentes ou tomar banho. Estamos sempre apagando incêndio e nunca nos vemos como prioridade”, explica Letícia Gomes, psicóloga, especialista em psicologia da maternidade e educadora parental.

A especialista ressalta ainda que é muito comum as mulheres ficarem vulneráveis durante essa fase, aumentando o risco de desenvolver doenças de cunho mental. “É possível ficar ansiosa deprimida, desesperada, fora de si. É uma situação muito, muito complexa. A exaustão física e mental é certa.”

“Costumo dizer que se você não teve nenhum momento de completa desesperança e tristeza durante a quarentena, você está fazendo isso errado ou não é mãe”, pontua Gomes, que também é mãe e disse que sentiu esse o mesmo sentimento durante o auge da pandemia.

Ellen Moraes Senra, psicóloga clínica e especialista em terapia cognitivo comportamental explica que, caso no caso de mães solo, tente estipular sempre rotinas para si na hora do cuidado. Além disso, se tiver uma rede de apoio, recorra a ela para tentar “desafogar” o cansaço excessivo.

Não romantize a maternidade

Senra reforça que um dos problemas mais comuns da sobrecarga das mães é a romantização da maternidade. “Ser mãe é muito desgastante e só serve para nos encher de culpa e claro que esse desgaste mental ficou mais elevado durante a pandemia”, diz.

Por isso a psicóloga ressalta que é fundamental que a mãe não esqueça que também é mulher e tem suas obrigações e hobbies para fazer. Além disso, se for impossível realizar atividades sozinha, coloque os pequenos para ajudar nas tarefas domésticas ou ainda brincar com você nas horas vagas.