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Sargento acusado de estupro em Copacabana disse que foi pedir contato de entrega de quentinhas à vítima

Rafael Soares
·3 minutos de leitura
Câmeras de segurança registraram PM na portaria do prédio da vítima, acompanhado por outro agente
Câmeras de segurança registraram PM na portaria do prédio da vítima, acompanhado por outro agente

RIO — O sargento Leonardo Lourenço da Silva, réu pelo estupro de uma produtora cultural em Copacabana, Zona Sul do Rio, afirmou, em depoimento à Corregedoria da PM, que foi à casa da mulher pedir a ela o contato de uma cozinheira que entrega quentinhas. A versão do PM é diferente da contada pela vítima, que afirma que o agente conseguiu subir até o apartamento após dizer ao porteiro que queria colher mais informações sobre uma ocorrência de briga entre vizinhos registrada dias antes. O Inquérito Policial Militar (IPM) que investigou o crime concluiu ele tentou tirar a roupa da mulher à força e passou a mão pelo seu corpo.

Na noite desta segunda-feira, a juíza Ana Paula Pena Barros, da Auditoria Militar do Tribunal de Justiça, recebeu a denúncia do Ministério Público contra Lourenço pelo crime de estupro e decretou a prisão preventiva do sargento. Segundo a denúncia, assinada pelo promotor Paulo Roberto Mello Cunha Jr., o PM — que é lotado no 19º BPM (Copacabana) — "dominou a vítima, valendo-se de sua maior força física, chamando-a de 'X9', e tocando o corpo da vítima em várias partes, apalpando seus seios e introduzindo os dedos em sua vagina".

O crime aconteceu no último dia 24, às 11h. Na ocasião, o sargento deveria estar patrulhando a orla da praia: ele estava escalado no Regime Adicional de Serviço (RAS), o "bico oficial" da PM, em que os agentes trabalham para a corporação em suas folgas. O policial, entretanto, deixou seu posto junto com um colega e foi até o prédio da vítima. Vídeos de câmera de segurança do prédio mostram quando o policial chegou e saiu do prédio, sempre de cabeça baixa. O outro agente, que o acompanhava, ficou do lado de fora.

— Ele tinha ido até o prédio em outra ocasião, dias antes, por causa de um desentendimento meu com uma vizinha. E voltou no dia 24 dizendo que precisava apurar alguns detalhes. Estava muito frio e chovendo. Eu usava uma blusa, um shortinho de dormir e um roupão. Ele enfiou a mão embaixo da blusa e a outra dentro do short e foi me machucando — recorda a vítima, de 31 anos.

Lourenço, segundo a investigação, fugiu às pressas do apartamento da mulher quando recebeu uma ligação de um oficial supervisor. Segundo a investigação, ele foi embora repentinamente, quando recebeu a ligação do superior, que queria saber onde ele estava.

A vítima fez exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (lML). O laudo atestou “vestígios de ato libidinoso diverso da conjunção carnal”, por “ação violenta contundente”.

O sargento está na PM há 20 anos — pelo menos sete deles, batendo ponto no 19º BPM. Essa não é a primeira anotação na ficha do agente: em 2015, uma investigação interna da PM concluiu que Lourenço integrava um grupo de agentes do batalhão que “foram observados, fotografados e filmados recebendo vantagem pecuniária para não coibir quaisquer irregularidades” numa boate de Copacabana.

A vigilância da Corregedoria durou de outubro de 2013 e abril de 2014. Segundo relatório da investigação, Lourenço e mais dez PMs foram observados recebendo envelopes de funcionários do estabelecimento. Ao final do IPM, os agentes foram submetidos a Conselho de Disciplina, que poderia até expulsá-los da corporação. Em agosto de 2016, no entanto, o sargento foi considerado “capaz de permanecer na ativa”.

A produtora cultural acusou PMs do batalhão de Copacabana de não levarem sua denúncia a sério quando ela prestou depoimento no quartel.

— Fizeram pegadinhas para me testar e ver se eu estava mentindo. Toda vez que eu o reconhecia, trocavam de foto. Aquilo para mim foi muito humilhante. Como mulher, você tem que provar que não é prostituta. E se for, não presta e tem que ser estuprada?.

A mulher deixou o Rio, amedrontada. Em nota, a PM alegou “que pune com o máximo rigor desvios de conduta”.