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Salles: Governo avalia se liberar exportação de madeira nativa pode estimular desmate

Renan Truffi e Vandson Lima

"Há uma série de considerações feitas de parte a parte; estamos analisando tecnicamente", afirma ministro O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse hoje que o governo está estudando se a liberação da exportação "in natura" de madeira nativa da Amazônia poderia estimular o desmatamento na região. Salles confirmou que o governo Jair Bolsonaro recebeu esse "pleito" de madeireiros, mas que há "muitas considerações a serem feitas".

José Cruz/Agência Brasil

"Esse pleito foi apresentado ao ministério. Há uma série de considerações feitas de parte a parte; estamos analisando tecnicamente. Há uma visão, de um lado, de que isso poderia estimular eventualmente o mercado de exportação de madeira in natura e o desmatamento", disse. O ministro acrescentou, no entanto, que atualmente essas toras são desperdiçadas quando há, por exemplo, a construção de hidrelétricas ou a abertura de rodovias na floresta amazônica.

"Quando você verifica que Belo Monte, cerca de 500 hectares foram suprimidos sem nenhum aproveitamento da madeira. E essa madeira também continua sendo suprimida em abertura de rodovias, áreas privadas, que impedem que se venda a madeira que foi retirada. Em vários desses casos, houve ou a queima da madeira ou a inundação da área, desperdiçando a madeira. Se você tivesse a oportunidade de, em casos específicos, poder exportar essa madeira, ela não teria se perdido", disse.

Por fim, o ministro explicou que a decisão será tomada de maneira adequada. "Essa é uma decisão que tecnicamente está sendo analisada e será tomada na maneira adequada. Recentemente, o próprio presidente Jair Bolsonaro confirmou que o governo avalia essa possibilidade.

O ministro participa de audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados. A pauta da reunião são os programas e ações desenvolvidos no ministério que envolvam a agricultura e pecuária. Durante sua fala, o ministro também defendeu que a agricultura brasileira conseguiu desenvolveu uma "sinergia" com a conversação ambiental.

Produtores rurais

Ricardo Salles defendeu hoje que os produtores rurais sejam remunerados pela preservação ambiental. Disse ainda que este setor da economia não é o problema do desmatamento em unidades de conservação ambiental do país. Na avaliação dele, os recursos destinados por países desenvolvidos para a questão ambiental precisam chegar nos agricultores brasileiros.

"A missão nossa é fazer valer as promessas dos países ricos de prover recursos para que se remunere pelo trabalho [de preservação] que o Brasil já faz. Já temos reserva legais na Amazônia, cerrado, e o produtor tem 80% da sua área preservada. É justo que ele seja remunerado por isso. Esse dinheiro precisa chegar no produtor que preserva. O dinheiro tem parado em outro lugar e não na mão do produtor. É o produtor quem merece, em primeiro lugar, receber por isso", disse. "O campo definitivamente não é o problema [do desmatamento], o setor certamente não é o problema", completou.

"Esse é o setor que sustenta a economia brasileira ano após ano. Justamente no Brasil, ao contrário de outros países, encontra sinergia entre produção e conservação ambiental", afirmou.

Por fim, Salles enalteceu o Código Florestal, aprovado há alguns anos pelo Congresso, e atacou países que criticam o desmatamento no Brasil. "O Código Florestal conciliou visões até então tidas como inconciliáveis: a produção e a preservação. Em nenhum outro país, sobretudo os grandes países que competem com o Brasil na área agrícola, há uma restrição [ambiental] como a existente no Código Florestal brasileiro. Temos um marco legal muito acima dos muitos dos que criticam o Brasil, [muito acima] do que os países que se arvoraram em criticar o Brasil. Nós temos um problema que eles não têm, chamado miséria, pobreza", disse.

Brigadistas no Pará

O ministro do Meio Ambiente evitou comentar a operação da Polícia Civil do Pará, que culminou com a prisão preventiva de quatro brigadistas de Alter do Chão, em Santarém. As prisões ocorreram no âmbito da operação Fogo do Sairé, que apura a origem dos incêndios que atingiram a região no último mês de setembro. De acordo com a Polícia Civil, uma investigação de dois meses apontou indícios de que ONGs, entre elas a Brigada de Incêndio de Alter do Chão, teriam atuado como causadoras do incêndio.

"É uma questão que está sendo tratada pela Polícia Civil do Estado do Pará e, portanto, vamos aguardar o encaminhamento disso", disse. Salles respondeu sobre o caso para a imprensa, após participar de uma audiência pública em comissão da Câmara. Durante toda a sessão, vários deputados governistas procuraram destacar o assunto, mas o ministro evitou tocar no tema.