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SAIBA MAIS-O que a "união monetária" de Brasil e Argentina realmente significa

Ministros da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, e da Argentina, Sergio Massa, dão entrevista coletiva, em Buenos Aires

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - Brasil e Argentina provocaram inquietação neste domingo com a possibilidade de uma potencial "união monetária", embora os dois países provavelmente não abandonem o real ou o peso tão cedo. Então, qual é o plano?

O QUE ELES DISSERAM?

Em carta conjunta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente argentino, Alberto Fernández, disseram que querem "avançar nas discussões sobre uma moeda sul-americana comum" a ser usada para fluxos financeiros e comerciais.

Isso gerou rumores sobre uma moeda zonal no estilo da União Europeia para a América do Sul, embora as autoridades desde então tenham minimizado isso e os analistas digam que uma união monetária completa é uma perspectiva distante.

Lula disse desde então que as primeiras negociações estão focadas no desenvolvimento de uma unidade de valor compartilhada para o comércio bilateral para reduzir a dependência do dólar norte-americano.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, disse à Reuters que a "unidade de contabilidade regional" virá junto com a expansão do crédito para apoiar as exportações para a Argentina por meio de bancos que operam no país.

Galípolo disse que o governo do Brasil ofereceria garantias aos bancos que ajudassem a fornecer financiamentos, enquanto a Argentina, um grande exportador de grãos, teria que fornecer garantias por meio de ativos tangíveis como grãos, gás ou petróleo.

ENTÃO, SEM EURO SUL-AMERICANO?

De acordo com o plano, o real brasileiro e o peso argentino continuariam a existir, com a nova moeda voltada estritamente para o comércio. Isso é muito diferente, digamos, do euro, que é usado para todos os tipos de transações dentro do bloco europeu.

A nova moeda seria usada em câmaras de compensação para executar pagamentos comerciais entre os dois países, ajudando em parte a reduzir a dependência do dólar. Isso é fundamental para a Argentina, que enfrenta baixas reservas em moeda estrangeira após anos de crises de dívida.

"Essa moeda não circularia dentro do Brasil ou da Argentina. É especificamente para ser um denominador comum das trocas comerciais", disse Fábio Terra, professor de Economia da Universidade Federal do ABC.

QUAL SERIA SEU VALOR?

Como a nova moeda será avaliada ainda está para ser debatido, mas o governo brasileiro está olhando para as stablecoins como uma possível referência, disse Galípolo à Reuters.

As stablecoins digitais, atreladas a um ativo como o ouro, ou às principais moedas, como o euro, a libra e o dólar, têm surgido à medida que emissores buscam expandir os usos das moedas digitais, que geralmente não são regulamentadas e são voláteis.

"É óbvio que o real terá o maior peso na equação porque é a moeda mais líquida que temos no mercado internacional", disse Galípolo.

ISSO JÁ FOI TENTADO ANTES?

No final dos anos 1980, Brasil e Argentina chegaram a discutir a ideia de uma moeda comum para o comércio chamada "gaúcho", que caiu no esquecimento devido ao desafio de implementar a ideia. Em 2019, o ex-presidente Jair Bolsonaro divulgou planos para uma união monetária, que também nunca se materializou.

A atual equipe econômica do governo brasileiro, no entanto, acredita que uma moeda focada no comércio e combinada a um financiamento reforçado pode ajudar o país sul-americano a recuperar o comércio com a Argentina que perdeu para a China nos últimos anos.

(Reportagem de Marcela Ayres)