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Saiba como Bolsonaro desvirtuou as informações sobre a relação da vacina com a aids

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Em sua live semanal na última quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro divulgou mais uma notícia falsa que pode atrapalhar o andamento da campanha de vacinação no Brasil. Segundo ele, relatórios oficiais do governo do Reino Unido sugerem que as pessoas completamente imunizadas contra a Covid-19 estão desenvolvendo a síndrome de imunodeficiência adquirida (aids) "muito mais rápido que o previsto". O presidente não deu detalhes sobre a associação, sob a alegação de que poderia "ter problemas". Mas recomendou que seus seguidores lessem a matéria sobre o assunto.

A notícia citada por Bolsonaro como base para sua alegação também é falsa. O texto, publicado em pelo menos dois sites, afirma erroneamente que pessoas que completaram o esquema de imunização com vacinas de mRNA (categoria que inclui os imunizantes da Moderna e da Pfizer-BioNTech), "estão perdendo cerca de 5% da imunidade a cada semana, consequências a longo prazo que refletem a AIDS" e creditam a informação a um suposto relatório publicado pelo governo do Reino Unido. Entretanto, os relatórios originais não fazem nenhuma menção ao vírus causador da Aids nem à queda da imunidade após a vacinação.

O texto cita ainda uma matéria publicada pela revista Exame que aborda um possível aumento do risco de infecção pelo HIV associado a algumas vacinas contra a Covid-19. Trata-se de uma publicação de outubro de 2020. Na época, apenas um imunizante contra a Covid-19 estava aprovado no mundo: a Sputnik V, na Rússia. O texto da Exame se refere a uma carta publicada na revista científica The Lancet na qual pesquisadores alertam para o risco de vacinas de vetores virais que utilizam o adenovírus tipo 5 (Ad5).

A cautela remete a 2008, quando o estudo de uma vacina contra HIV contendo o Ad5 foi interrompido devido a uma associação entre o imunizante e o aumento de casos de HIV entre vacinados. Outro artigo, publicado em 2017 na Science Immunology pela equipe do imunologista brasileiro Rafael Larocca, mostrou que "o Ad5 induz um fenótipo nas células T CD4 que 'aumenta' chances da entrada do HIV", segundo publicação recente do pesquisador no Twitter.

— O trabalho do brasileiro Rafael Larocca mostra que o adenovírus 5 aumenta a produção de algumas proteínas, entre elas, a CCR5. Essa proteína é um dos principais receptores utilizados pelo HIV para invadir a célula humana — explica Salmo Raskin, geneticista e diretor do Laboratório Genetika, em Curitiba.

Atualmente, apenas duas vacinas contra Covid-19 em uso no nundo utilizam Ad5 em sua composição: a Sputnik V e o imunizante da CanSino. A preocupação com as consequências disso fez com que, recentemente, a África do Sul negasse o uso emergencial da Sputnik V devido a preocupações sobre sua segurança para pessoas em risco de HIV. A SAHPRA, agência regulatória sul-africana, disse que pediu dados que demonstrassem que a vacina era segura em locais com alta prevalência de HIV, mas que não recebeu dados fortes o suficiente. Em seguida, a Namíbia decidiu suspender o uso do imunizante no país. No entanto, não há preocupação para os brasileiros, já que nenhum desses imunizantes está em uso no Brasil.

— A primeira dose da Sputnik V utiliza outro tipo de adenovírus [o Ad26, também utilizado na vacina da Janssen]. O problema seria a segunda dose, que utiliza o Ad5. Os países da África são os mais preocupados com essa possível associação entre o imunizante e o aumento de infecção pelo HI, pois a prevalência do IIV é elevada nessa região e isso poderia ser um agravante. Mas isso é bem diferente da vacina causar a doença. As vacinas não aumentam a chance de contrair o HIV, de desenvolver aids nem comprometem o sistema imune da pessoa. Pelo contrário, as vacinas aumentam a capacidade do sistema imune para produzir anticorpos contra um vírus novo [o Sars-CoV-2]. Elas aumentam o cardápio do sistema imune — ressalta Raskin.

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