Mercado fechado

Sachsida defende que Tesouro assuma risco de linhas a microempresas

Alex Ribeiro

Segundo secretário, governo poderia separar R$ 10 bilhões ou R$ 15 bilhões para esse fim O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, defendeu nesta segunda-feira que o Tesouro Nacional assuma 100% do risco de crédito em linhas de financiamento para microempresas.

"No caso de microempresas, acho que [a garantia] tinha que ser 100% do Tesouro. Entendo a importância de alinhar incentivos. É importante deixar o banco pagar um pouco se der errado. É que, no momento atual, qualquer risco para o banco vai ter que ser com taxa de juro mais alta", disse em um webinar do International Chamber of Commerce (ICC) Brasil.

Segundo Sachsida, num momento em que o governo está dando R$ 150 bilhões para os informais por meio de um programa de transferência de renda, poderia separar R$ 10 bilhões ou R$ 15 bilhões para fornecer garantias integrais para o financiamento de microempresas.

Marcos Oliveira/Agência Senado

Para ele, iniciativas para salvar as empresas menores fazem sentido. “Vejo artigos defendendo que o governo não deve salvar empresas pequenas porque não inovam. Não é bem assim, existem diferenças importantes entre o Brasil e os Estados Unidos.”

O debate sobre se o Brasil deve ou não salvar empresas pequenas foi “importado” dos EUA, onde alguns economistas influentes dizem que os recursos fiscais deveriam se concentrar nas grandes empresas, que são mais inovadoras. Segundo essa linha de raciocínio, o governo deveria deixar as pequenas empresas quebrarem porque elas reabrem rapidamente.

“No Brasil, se a empresa pequena quebrar, leva cinco anos para reabrir. Aqui, o microempresário não entra em recuperação judicial, ele fica ilegal, deprecia todo o estoque de capital”, disse Sachsida. “Nos Estados Unidos, a pequena empresa fecha num dia e reabre no outro. Aqui, é um parto para reabrir.”

De acordo com ele, um raciocínio semelhante deve ser aplicado à preservação de empregos. “Se a empresa demitir, não contrata de novo”, afirmou. “É diferente dos Estados Unidos, que demite e depois readmite.”

O secretário de Política Econômica disse que, devido aos altos custos para demissão, as empresas brasileiras relutam mais em dispensar trabalhadores, mas depois torna-se mais difícil recontratar.

Sachsida também disse que, se as ações já anunciadas não surtirem os efeitos desejados, o governo tem novas medidas de crédito para micro e pequenas empresas (MPEs) em desenvolvimento para serem implementadas.

“Estamos muito atentos a isso, estamos inclusive trabalhando no plano B, plano C”, disse ele durante o webinar da ICC, sem entrar em detalhes. “O governo não parou, não.”

Ele fez um histórico das medidas que foram adotadas para fornecer crédito a esse segmento, incluindo o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e o Programa Emergencial de Suporte a Empregos (Pese).

Também presente no evento, o diretor de Regulação do Banco Central (BC), Otávio Damaso, disse que a oferta e a contratação e crédito pelos bancos aumentou sensivelmente durante a pandemia – e a sensação de falta de crédito entre as MPEs se deve a uma forte alta da demanda.

“Uma coisa que chama a atenção é o incremento que teve na demanda por crédito de micro e pequenas empresas”, disse Damaso. “Aumentou em torno de 200% a 300% a demanda em relação ao ano passado, segundo pesquisa do Sebrae.”

Segundo Damaso, um desafio daqui por diante, além de fazer o crédito chegar às MPEs, é o aumento da inadimplência das operações de crédito.

“No curto e médio prazo, a gente está também olhando o impacto da ampliação de inadimplência no sistema como um todo”, disse. “Há uma inadimplência contratada, o sistema tem capacidade de absorver.”