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Sócios devedores reativados por Peres podem decidir eleição no Santos

ALEX SABINO E CARLOS PETROCILO
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SANTOS E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ofício assinado por José Carlos Peres, então presidente do Santos e hoje afastado do cargo, em 1º de abril de 2019, voltou a agitar os bastidores do clube nos últimos dias porque pode mudar o rumo da próxima eleição santista, marcada para 12 de dezembro. Na ocasião, Peres determinou que os sócios devedores de mensalidades há mais de 180 dias teriam direito a serem anistiados se comparecessem ao clube para solicitarem seu desligamento, sem pagar nada. "Podendo assim, caso queiram, realizar nova adesão com nova matrícula e nova data de admissão", dizia o comunicado. Compareceram 451 sócios inadimplentes ao clube para regularizar sua situação até o final de julho do ano passado. Desse total, 250 cancelaram a inscrição. Os outros 201 aproveitaram o benefício, tiveram o débito esquecido e voltaram a ser sócios. Com as mensalidades em dia desde então, ficaram aptos a participar do processo eleitoral deste ano. Nos dois últimos pleitos, esse número de votantes teria sido suficiente para decidir as eleições no Santos. Peres se elegeu em dezembro de 2017, com vantagem de 190 votos sobre Andrés Rueda e Modesto Roma Júnior, que dividiram o segundo lugar. Em 2014, Peres havia sido derrotado por Modesto por 182 votos. Procurado pela reportagem, o presidente afastado disse nesta quinta-feira (29), por meio de mensagens, que não havia assinado o ofício e que ele se tratava de uma "peça de ficção de alguém querendo se promover contando mentira". Mais tarde, encaminhou novas mensagens, reconhecendo ter assinado o documento. Afirmou que, na ocasião, o Santos possuía um desfalque de R$ 38 milhões com o programa de sócios, fruto de calotes em mensalidades do programa. Disse que então enviou a proposta para o conselho e, mesmo sem ter uma resposta do órgão, procedeu com o que chamou de "higienização dos cadastros". "Tentamos corrigir um erro histórico e permitir que associados que foram esquecidos pelo clube tenham a oportunidade de voltar do zero", escreveu. O ofício teve pouca publicidade à época. Não foi divulgado para a imprensa ou no site oficial. A anistia não encontra respaldo no estatuto do Santos, que não menciona essa possibilidade. "O associado que deixar de pagar suas contribuições ou mensalidades e/ou taxas por seis meses consecutivos, bem como saldar outros débitos assumidos para com o Santos, será notificado para cumprir a respectiva obrigação e, não o fazendo no prazo de 15 dias a contar do recebimento da notificação, terá seus direitos associativos e estatutários suspensos por tempo indeterminado até que seja restabelecida sua condição de adimplente", diz o artigo 15 das regras do clube. O Santos, hoje comandado por Orlando Rollo, ex-vice de Peres e rachado com ele, confirma os números apresentados pela reportagem e afirma que nem o comitê de gestão, o órgão colegiado que na teoria administra o clube, poderia adotar esse procedimento. No texto assinado pelo então presidente não havia prazo final para a anistia. Não está claro ainda para a atual diretoria como o processo foi interrompido. O clube tenta averiguar se algum funcionário da secretaria social tomou a iniciativa de fazê-lo por conta própria ao perceber o problema. O conselho deliberativo, órgão que deveria legislar sobre o assunto, foi avisado apenas seis meses depois, em outubro. A influência no processo eleitoral pode ser mais significativa neste ano pelo número de candidatos. No pleito de 2017 foram quatro. Os 201 associados representariam 3,5% dos 5.676 votos registrados. Até o momento em 2020, o Santos tem oito pré-candidatos a presidente, o que pode dividir ainda mais a votação. Há também a possibilidade de esses 201 sócios influírem na composição do próximo conselho deliberativo. Cada chapa elege conselheiros proporcionalmente ao número de votos recebidos. De acordo com Rollo, o clube analisa o que é possível fazer a respeito. "Passei essa questão para que o comitê de transição, que é composto pelos representantes de todos os possíveis candidatos, decidisse de maneira técnica, democrática e imparcial. Com base nessa decisão, o comitê de gestão vai deliberar e enviar a decisão ao conselho deliberativo para apreciação", afirma. Rollo assumiu o comando do clube no último dia 28 de setembro, quando Peres foi afastado pelo conselho deliberativo por má gestão. O afastamento tem de passar ainda por uma nova assembleia de sócios, que precisa ser realizada até 27 de novembro. Conselheiros ouvidos pela reportagem consideram que o problema pode ter impacto maior do que apenas na eleição deste ano, porque mostra que o Santos não tem controle total do seu cadastro. O clube reconhece não ter o histórico da lista de sócios ou de pagamentos e que, se houve anistias anteriores a 2018, não se sabe. Em 2012, o clube fez uma parceria com uma empresa de consumo e relacionamento com clientes. O acordo durou três anos. Dirigentes disseram que na saída a companhia entregou apenas um bloco de papel com os nomes e contatos dos associados. O Santos em seguida fechou acordo com a Redegol para fazer o mesmo trabalho. Em setembro de 2018, a empresa acusou o próprio clube de fraude na assembleia de sócios que reprovou o impeachment de José Carlos Peres. Duas semanas antes, ela havia rompido o contrato.