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Símbolos da desigualdade, aposentados precisam continuar trabalhando no Chile

SANTIAGO, CHILE, 15.11.2019 - PROTESTO-CHILE - Manifestação na Praça Baquedano região metropolitana de Santiago no Chile nesta sexta-feira, 15. (Foto: Clever Felix/Brazil Photo Press/Folhapress)
SANTIAGO, CHILE, 15.11.2019 - PROTESTO-CHILE - Manifestação na Praça Baquedano região metropolitana de Santiago no Chile nesta sexta-feira, 15. (Foto: Clever Felix/Brazil Photo Press/Folhapress)

SANTIAGO, CHILE (FOLHAPRESS) - Assim como a maioria dos aposentados do Chile, Maria Luz Navarrete Alarcón precisa continuar trabalhando durante a velhice para pagar as contas e manter uma vida digna na casa onde mora, em Santiago, com os três filhos e uma neta.

Alarcón, 70, trabalhou por 30 anos como contadora no Instituto de Previsión Social, órgão do Ministério do Trabalho chileno, e sempre se posicionou contra o modelo de aposentadoria implementado em 1981, durante a ditadura militar de Augusto Pinochet.

As chamadas AFPs (Administradoras de Fundos de Pensão) gerenciam dinheiro dos contribuintes investindo no mercado financeiro. O sistema de aposentadoria é um dos grandes pontos de insatisfação da população.

O conflito atual leva jovens e idosos como Alarcón a se manifestarem e provocou uma resposta dura do presidente, que colocou o Exército para reprimir a população, algo que não acontecia desde o período do regime de Pinochet.

Militante do movimento No+ AFP, ela trabalha como zeladora em um edifício para complementar a renda e conseguir terminar de pagar as prestações de sua casa, adquirida há 20 anos.

Por ter sido servidora pública e contribuído por mais tempo que o mínimo -20 anos-, sua aposentadoria, de 500 mil pesos (R$ 2.708), é considerada alta, ainda que não seja suficiente. Com a zeladoria, ela ganha mais 360 mil, somando um valor de R$ 4.660.

Segundo a Fundação Sol, 94% das chilenas aposentadas recebiam menos de 155 mil pesos chilenos (R$ 840) em 2016. Entre os homens, a taxa era de 87,5%. Hoje, o salário mínimo é de aproximadamente 300 mil pesos chilenos (R$ 1.625). "Sou uma privilegiada em relação à bruta realidade da maioria. Mas vivo. A maioria subsiste."

Alarcón luta contra uma depressão devido à artrose nos joelhos, além das dificuldades do alto custo de vida. "É importante que saibam que esse sistema não funciona. A AFP me tirou tudo", diz. "Os donos das AFPs têm ganhos escandalosos [com especulação financeira] e nós temos perdas."

Isso porque o sistema, além de impor uma contribuição obrigatória de 10% do salário a todos os trabalhadores, é recalculado todos os anos, aumentando a expectativa de vida do trabalhador -e, por isso, diminui o valor que o aposentado recebe por mês. "Temos que pagar comissões [para que as AFPs administrem o dinheiro] e calculam que vivemos 110 anos. Eu tive estabilidade e um bom cargo, mas minha pensão é 50% do que foi meu salário, e cai todo ano."

Mesmo tendo uma alta renda per capita, de quase US$ 16 mil (R$ 67.140), a desigualdade social no Chile é muito grande e, segundo Alarcón, a qualidade de vida da maioria trabalhadora ainda é muito baixa.

Apesar das dores e do cansaço, ela não perde as esperanças de um Chile menos desigual. "Ao longo dos anos temos sido ignorados, humilhados. Aprendemos a lição. Se com caos o governo ainda não entende o que queremos, teremos que incendiar o país."

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