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Ruídos na comunicação do governo alimentam disparada do dólar e juro pode ser afetado

Por José de Castro

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - A disparada do dólar a quase 4,28 reais nesta terça-feira, para novos recordes nominais históricos, é reflexo de novo episódio de ruídos na comunicação de membros do governo, o que começa a contaminar de forma explícita outros mercados locais e eleva riscos quanto ao cenário de juros baixos.

Mesmo agentes financeiros, os quais de forma geral têm elogiado a agenda reformista e as medidas pró-mercado do Executivo, passaram a adotar tom mais crítico em relação a falas de alguns integrantes da equipe econômica. E nem o Banco Central escapa das reclamações.

O mais recente fato gerador de instabilidade foi a declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, nos Estados Unidos, de que o câmbio de equilíbrio do Brasil agora é mais depreciado devido ao juro baixo.

"Quando você tem um fiscal mais forte e um juro mais baixo, o câmbio de equilíbrio também ele é mais alto", afirmou Guedes em entrevista coletiva na embaixada brasileira em Washington.

A interpretação do mercado foi: a alta do dólar não é um problema. Com a sensação de que a moeda acima de 4,20 reais não incomoda, os players viram espaço para reforçar as compras, o que automaticamente empurrou a cotação para acima da máxima histórica anterior, de 4,2482 reais na cotação de compra.

O movimento lembra muito o de 27 de agosto passado --por coincidência, também uma terça-feira--, quando comentário do próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, provocou uma corrida por dólares.

Na ocasião, o chefe do BC minimizou a desvalorização do real, que naquele dia estava em cerca de 4,14 reais --um mês antes, a cotação estava abaixo de 3,73 reais. Logo depois, o dólar saltou para perto de 4,20 reais, o que forçou a autoridade monetária a anunciar oferta líquida de dólar no mercado à vista.

Nesta terça, o "modus operandi" se repetiu, mas com o BC sendo obrigado a ser mais incisivo. A autoridade monetária anunciou pela manhã oferta líquida de moeda spot quando o dólar acelerou a alta. Depois de um breve respiro, a divisa não apenas voltou a subir como superou o pico anterior, agora ameaçando a linha de 4,28 reais.

Nesta tarde, o BC anunciou outro leilão de venda líquida de dólares.

"O dólar/real está disparando decisivamente hoje. O governo diz que não é uma grande questão, mas também está vendendo reservas cambiais para defender a moeda? Algo não está certo", avaliou Otavio Costa, gestor na Crescat Capital, em Denver, EUA.

"Faça o que eu digo, não faça o que eu faço", completou.

A variável comunicação ganha contornos dignos de maior cautela por parte do mercado porque se soma a um pano de fundo já problemático para a taxa de câmbio, afetada por queda histórica nos diferenciais de juros, escassez de fluxo, falta de perspectiva de ingressos robustos após a frustração com o megaleilão de petróleo, sinais negativos da conta corrente e um exterior ainda vulnerável ao noticiário comercial.

Isso sem falar nas manchetes sobre ondas de manifestações populares e discursos questionando reformismo econômico na América Latina.

"O Guedes não precisava falar o que foi falado", disse Alysson Lima, sócio responsável pela área de câmbio da BlueLine Asset. "Ele não falou uma mentira, mas subiu o tom, e o mercado não gostou", completou.

Já o presidente Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo que disse acatar a posição de Guedes sobre o câmbio, ressaltou que continua a torcer para que o dólar caia.

Enquanto isso, o Tesouro Nacional pareceu dar razão ao ministro.

"Minutos antes de o BC intervir (pela manhã), o Tesouro vem e diz que o dólar está normal, etc.", disse um gestor em São Paulo, que atribui a avaliação do Tesouro Nacional como outro fator a pressionar o dólar.

O coordenador de Operações da Dívida Pública, Roberto Beier Lobarinhas, disse nesta terça que não há "absolutamente nada" no radar do Tesouro no sentido de atuação conjunta com o Banco Central sobre o câmbio, o que já aconteceu anos atrás.

Para o gestor que pediu para não ser identificado, o BC "perdeu o respeito do mercado" e, por isso, será pressionado cada vez mais pelos agentes financeiros sobre os limites para intervenção.


JUROS EM ALTA

A maior preocupação do mercado com a recente alta do dólar é o risco de o juro precisar subir antes do esperado.

"Avisa ao Paulo Guedes que se continuar falando... não temos que nos acostumar com dólar alto só não, mas com juros também", disse Ivo Chermont, sócio e economista-chefe da Quantitas, num momento em que os sinais de retomada econômica ainda são embrionários.

A curva de DI já mostra Selic média de 5,3% no último trimestre de 2020, acima do patamar atual (5%) e 80 pontos-base acima do nível de 4,50% esperado pelo mercado para o fim de 2019 e de 2020. A curva começa a embutir altas de juros em meados de 2020.

Nesta terça, o DI janeiro 2021 chegou a saltar 12 pontos-base. Esse contrato reflete as expectativas do mercado para o rumo da Selic de hoje até o fim de 2020.

A inclinação entre os DIs janeiro 2025 e janeiro 2021, uma medida de risco, saltava a 1,84 ponto percentual, distante da marca de 1,50 ponto do começo de novembro.

O risco de altas de juros pressionou ainda o mercado de ações, que se beneficia de taxas mais baixas na renda fixa. O Ibovespa fechou em queda de 1,16% (segundo dados preliminares), pouco acima dos 107 mil pontos, descolando de Wall Street, que bateu novos recordes históricos.