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A resposta à altura de Rodrigo Maia ao general Heleno mostra que ele tem retaguarda

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, durante a votação da reforma da Previdência (Foto: Evaristo Sá / AFP)


O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), subiu o tom ao responder ao general Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Dias atrás, o auxiliar de Jair Bolsonaro, ao ser questionado sobre declarações do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), sobre a possível criação de um novo AI-5 para conter eventuais rebeliões no país, praticamente referendou o plano dizendo que “tem de estudar como vai fazer, como conduzir” o instrumento.

Em entrevista ao Estado de S.Paulo, o general afirmou ainda que, se acontecer “uma coisa no padrão do Chile, é lógico que tem de fazer alguma coisa para conter”. “Mas até chegar a esse ponto tem um caminho longo.”

Em outras palavras, o chefe do GSI em momento algum demonstrou preocupação com a proposta, e sim com o modo com que essa proposta poderia ser implementada. Só faltou dizer que só não estamos vendo por aí deputados com mandato cassado, Congresso sendo fechado e direitos como o habeas-corpus suspensos porque daria muito trabalho pra fazer.

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A declaração já era grave vinda da boca de um parlamentar, ainda mais sendo filho do presidente. Tornou-se um objeto de tensão entre Executivo e Legislativo ao ser referendada por um dos mais influentes ministros do governo.

Maia não deixou barato. Em evento em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, o deputado classificou a fala de Heleno como grave. “É uma cabeça ideológica. Infelizmente o general Heleno, o ministro Heleno virou um auxiliar do radicalismo do Olavo. Uma pena que um general da qualidade dele tenha caminhado nesta linha”.

Ao ser procurado para a tréplica, Heleno dessa vez se calou.

O episódio tem algumas pistas sobre o saldo da tentativa do governo de criar um espantalho - a volta dos tempos mais sombrios do regime militar - em um momento delicado, em que o nome do presidente aparece nas investigações do caso Marielle, o ex-assessor Fabrício Queiroz ressurge das cinzas com áudios para lá de suspeitos e a guerra intestina do clã com o PSL chegou à fase infinita.

Enquanto leões e hienas trocam de papel, Paulo Guedes leva a público um filho gestado em 10 meses de governo, com uma ampla proposta de reformas, inclusive tributária e administrativa. É briga de cachorro grande.

Como aconteceu na Previdência, quando o presidente submergiu, o projeto só avança se o ministro da Economia voltar a fazer a ponte direta com os líderes da Câmara e do Senado, os últimos adultos numa sala tomada por atiçadores de torcida.

Maia sabe que será peça-chave para o avanço do projeto, talvez o último ponto de conexão entre o mercado e um governo que já demonstrou que só ajuda quando não atrapalha.

Ele, ou qualquer um que ocupe o posto que ocupa, não avançaria a linha que avançou em direção a um general de quatro estrelas se não estivesse resguardado - possivelmente por quem já percebeu que o radicalismo da ala olavista do governo é a receita para o caos.

A área de desembarque só aumenta. Na última terça-feira foi a vez do general Maynard Marques de Santa Rosa, chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, pedir o boné. A expectativa é que uma leva de oficiais o siga.

Fora do governo, ele fará companhia a outro general respeitado na carreira militar, Carlos Alberto dos Santos Cruz, que se desgastou ao entrar em rota de colisão com o vereador Carlos Bolsonaro e perdeu a queda-de-braço.

“É um show de besteiras”, resumiu ele após a demissão.