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Retrospectiva da década: de Lula a Bolsonaro, como o Brasil virou à direita

(AP Photo/Eraldo Peres)

Por Nathan Fernandes

A esquerda é como um diabo que precisa ser derrotado, segundo a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. No fórum conservador CPAC Brasil, que reuniu expoentes da direita, em outubro, em São Paulo, a ministra foi enfática: "Não podemos subestimar o outro lado. Eles estão à espera para poder usurpar o poder novamente. Nós não podemos subestimar o Cão. Não podemos subestimar o mal. Vamos ter que começar a ocupar as câmaras de vereadores e prefeituras, ouviram?”. 

O conceito de “mal” não nasceu de geração espontânea, ele foi criado. Grande parte das religiões mais antigas do mundo, como o budismo e o hinduísmo, são monistas, ou seja, concebem a ideia de que não há separação entre “bom” e “mau”. A figura do deus mexicano Quetzalcóatl, por exemplo, que representa ao mesmo tempo vida e morte, amor e destruição, ilustra bem essa ambivalência — é por isso também que a intolerância que liga filosofias de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, ao culto do Diabo soa incoerente, uma vez que a figura do Diabo sequer existe nestas religiões. 

O monismo teve sua primeira grande quebra de monopólio por volta de 600 a.C., com os ensinamentos de Zaratustra, no Irã. Segundo o profeta persa, a manifestação de algo ruim não poderia vir do divino. Assim, ele postulou a existência de dois princípios diferentes: um de bondade e luz, outro de maldade e trevas, dando origem ao dualismo religioso. A religião que se derivou desse pensamento, o masdeísmo, influenciou fortemente o pensamento grego e hebraico, que por sua vez serviu de base para o cristianismo e as concepções de Damares Alves sobre o mundo. 

Apesar de já ter sido exaustivamente utilizada ao longo da história da humanidade, na última década, a sombra do “mal” voltou a ganhar força na política brasileira. A demonização da esquerda e, especificamente, do PT ajuda a explicar a ascensão de políticos conservadores, com um viés “terrivelmente cristão”. O “medo do comunismo”, a representação maior desse mal, dá uma pista do porquê uma década que começou com Lula na presidência — alcançando 87% de aprovação em seu último mês de mandato, segundo o Ibope — terminou com o governo autocrático de Jair Bolsonaro, que no primeiro ano obteve 31% de aprovação, de acordo com o mesmo instituto. 

Segundo especialistas, essa disputa pela mente e a alma dos eleitores começou a ser maquinada ainda no primeiro mandato de Dilma Rousseff. “As jornadas de 2013 são tipo um tsunami, que começaram lá longe e arrasaram tudo”, compara o cientista político Eduardo Grin, da FGV/EAESP. “As ondas começaram em 2013 e acabaram em 2018. Por isso, tivemos uma taxa alta de renovação de parlamentares nas assembleias legislativas do congresso e do senado. O que a sociedade estava dizendo era: ‘Nós estamos penalizando as elites tradicionais’, porque todas foram vistas como farinha do mesmo saco.”

No Brasil, o tsunami eleitoral de 2018 registrou o auge do sentimento anti-establishment, dando forma a uma das máximas do crítico norte-americano H. L. Menken: “Na democracia, um partido sempre dedica suas principais energias tentando provar que o outro partido não está preparado para governar. Em geral, ambos são bem-sucedidos e têm razão.”

É impossível, no entanto, não destacar os esforços feitos para garantir esse desencanto social, que marcou o fortalecimento de uma direita revigorada em detrimento de uma esquerda semi-zumbi. “A esquerda brasileira foi contra [as jornadas de] 2013. Ela viu isso como um atentado contra ela mesma. Afinal, que tipo de povo é esse que se mobiliza contra um governo do povo? Até hoje a esquerda brasileira foi incapaz de criar um pauta a altura do que representou a recusa institucional de 2013”, afirma Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP. 

Como afirma a cientista social Esther Solano, da UNIFESP, a deterioração da esquerda já era esperada. “Em países no qual a direita estava no poder, a esquerda tem sido a beneficiada por esse processo de descontentamento popular. Acho que é um ciclo de desgaste natural de um partido que estava no comando há muito tempo”, explica ela, lembrando que, além do fator natural, o processo também sofreu a intervenção de agentes interessados na sua aceleração, como revelou o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. “Foi claramente uma jogada política. Acho que até as pessoas que o apoiaram entendem que o processo não teve nada a ver com responsabilidade administrativa.”

Além do impeachment, a prisão do ex-presidente Lula — por corrupção e lavagem de dinheiro em ação da Lava Jato sobre o sítio de Atibaia — também se mostrou uma intervenção conveniente dentro do teatro político, como lembra Safatle. “O caso da prisão do Lula foi shakespeariano, porque o juiz que o levou à prisão [Sérgio Moro] é alguém que quer ocupar o seu lugar. O juiz prendeu seu principal oponente”, diz. “A questão fundamental é que o Lula precisa ter um julgamento justo, mas o que aconteceu foi algo movido a interesse”. Para o professor, esse processo descortinou a falta de um horizonte comum pós nova política. “Tudo isso que a gente viu são cenas do fim da nova república, ou seja, do sistema de pactos e acordos. O sistema foi ruindo até chegar na situação de 2019”, explica. 

Apesar de estar alinhado com governos populistas mundiais, o Brasil tem uma característica que o distingue dos colegas autocratas. “Isso não aparece tanto nos outros casos, mas aqui é importante: é a questão da corrupção”, explica Eduardo Mello, professor de política e relações internacionais da FGV. “A crise do sistema brasileiro tem a ver com como a corrupção é parte intrínseca da política. Isso leva a um baque de elites tradicionais e abre espaço para o Bolsonaro.”

Nesse sentido, segundo Esther Solano, a Operação Lava Jato, deflagrada em 2014 na esteira dos protestos de 2013, também foi fundamental no processo que demonizou o fazer político e aproximou o PT da figura do diabo cristão. “Esse formato lavajatista de lutar contra a corrupção é espetacularizado, com uma forte utilização dos meios de comunicação, e uma criminalização dos partidos, do Estado, como se toda política fosse corrupta, ineficaz, negligente, suja. Isso ajuda na percepção negativa da opinião pública, que passa a ver a política como uma atividade criminosa”, explica.   

Quando nem os vigilantes são capazes de se vigiar, a demanda por um herói se torna urgente — de preferência, um que não vista o uniforme do político tradicional. “Esse é um mecanismo dos populistas de direita. Eles dizem: ‘Eu não represento o establishment, eu sou o candidato anti-elite’. Mas veja o contra senso: o Trump, que é um bilionário, conseguiu se apresentar como um candidato do povo”, explica Eduardo Grin, da FGV. “Bolsonaro também fez isso, dizendo que ia ‘mudar tudo isso daí’. O grau de desespero da sociedade com a democracia é tanto que uma pessoa com esse discurso se elege. Ele não disse nada [em relação a propostas]. Isso porque o ‘isso daí’ mostra que ele é establishment, que é contra as elites e que quer o bem do país.”

No livro “O Povo Contra a Democracia”, o cientista político alemão Yascha Mounk aprofunda essa comparação com líderes como Donald Trump e Viktor Orbán: “Como eles, Bolsonaro se pintou como o único representante verdadeiro do povo e chamou seus adversários de traidores ilegítimos; e, também como eles, atacou as regras e normas mais básicas das instituições do país — chegando ao ponto de elogiar a ditadura militar que dominou o país por duas cruéis década”.

Ao se alinhar ao “Chicago boy” Paulo Guedes, ministro da Economia, o “único representante verdadeiro do povo” trouxe uma inovação ao populismo de direita, alinhando uma política conservadora a uma política neoliberal. Forjou, assim, uma frágil esperança no coração dos eleitores e dessa entidade sem rosto e sem forma, que é o mercado. “O que vemos é a diminuição da máquina pública, porque Bolsonaro coloca o problema na corrupção e na ineficiência do Estado, passando a mensagem de que é importante diminuir o peso estatal, que é justamente o papel desse neoliberalismo representado por Paulo Guedes”, explica Esther Solano. “Num país como o Brasil, em que a maioria é pobre, isso é problemático. Muitas pessoas dependem do Estado. Então, quando falamos em ‘diminuir a máquina pública’ isso tem um impacto direto na vida de muitas pessoas”.

Com o fim do primeiro ano de mandato, as reformas políticas e econômicas promovidas por Bolsonaro não parecem ter surtido o efeito esperado — pelo menos não para os 12,8 milhões de brasileiros desempregados, segundo o IBGE. Apesar de uma queda tímida em relação ao início de 2019 — grande parte por conta dos empregos sem carteira assinada —, o terceiro trimestre do ano terminou com uma taxa de desemprego de 11,8%. Em 2010, no fim do governo Lula, a média anual foi de 6,7%, até então o menor índice da série histórica medida desde 2002, atingindo 1,9 milhões de desempregados. Em 2014, o índice atingiu sua menor marca com 4,8%. 

A diferença também se dá no dólar que, em novembro de 2019, passou a ser negociado acima do patamar de R$ 4,20, a maior cotação da década. Apesar disso, um levantamento feito pela Folha de S.Paulo, que analisou indicadores nacionais no primeiro semestre do governo Bolsonaro, mostrou que houve um equilíbrio na economia, em relação a 2018. Mas o mesmo não se pode dizer dos índices de saúde, meio ambiente e educação, que apresentaram deterioração. No total, dos 87 indicadores analisados, 44 apresentaram piora, 15 permaneceram estáveis e 28 tiveram alguma melhora, comparando com o ano anterior. 

Os dados reforçam a opinião de Eduardo Grin, da FGV, que acredita que Bolsonaro governa apenas para sua base eleitoral. “O que a gente vê nesse governo é que o pobre que votou em candidato comunista que se dane. Quem votou no Bolsonaro foi a classe média branca conservadora, que acha que o negócio é resolvido dando porrada em ladrão”, diz. “A conta que ele faz é que, a despeito de qualquer barbaridade falada, os 30% de aprovação continuam garantidos. Com esse índice, e uma pequena decolada na economia, ele se garante no segundo turno de 2022. Então para quê perder tempo governando para quem não vai voltar nele?”

Ao agradar seus apoiadores, colocando-se ao lado da crescente base evangélica com “Deus acima de todos”, Bolsonaro representa o extremo da polarização vivida no Brasil na última década, a qual garante que qualquer um que não esteja alinhado a suas ideias seja visto como inimigo — no caso da esquerda, como o próprio demônio — num dualismo rasteiro que desconsidera toda a complexidade humana. Sem lembrar que, como escreveu Neil Gaiman, em “Good Omens”, “a maioria dos grandes triunfos e tragédias da história foram causados, não por alguém que é fundamentalmente bom ou fundamentalmente mal, mas por pessoas que são fundamentalmente humanas”.