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Repactuações de empréstimos na crise já somam R$ 614,5 bilhões

Estevão Taiar

Montante renegociado durante a pandemia representa 17% da carteira do sistema financeiro, informou diretor do Banco Central As repactuações de empréstimos somaram R$ 614,5 bilhões entre 13 de março e 5 de junho, afirmou nesta quinta-feira o diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Bruno Serra Fernandes. A quantia equivale a 17% da carteira do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

"É um número bastante relevante", disse ele, em live promovida pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para debater os impactos econômicos da pandemia.

A medida, adotada pelo BC durante a crise, permitiu que as instituições financeiras alongassem esses empréstimos sem "onerar" o seu próprio capital.

Segundo Serra Fernandes, as repactuações ficaram "muito concentradas" nas pequenas e médias empresas. "Provavelmente os bancos entenderam as dificuldades delas" e aceitaram rolar a dívida, de acordo com ele.

As operações com pessoas físicas e de crédito imobiliário também apresentaram bons resultados, na avaliação do diretor do BC.

Impacto no mercado de capitais

Segundo Serra, a crise econômica fez com que os investidores abandonassem o mercado de capitais e optassem por escolher ativos de "altíssima liquidez" durante a pandemia.

"O mercado de capitais, que vinha sendo uma fonte de financiamento importantíssima, principalmente para as empresas, se retraiu fortemente. O fluxo de recursos para esse mercado cessou", explicou. "A preferência dos investidores está sendo por ativos de altíssima liquidez, em geral em bancos de primeira linha, com solidez grande, com risco de perda de capital mínimo."

Em sua apresentação, Serra também destacou que, "as famílias que puderam manter a sua renda regular certamente estão gastando menos, segurando mais a liquidez". Já as empresas "se previnem tomando o máximo de crédito possível para passar por esse período difícil".

Compromissadas

O diretor também afirmou que as operações compromissadas com títulos soberanos brasileiros denominados em dólares e os empréstimos com lastro em debêntures estão encerrados. Ambas as medidas foram adotadas pela autoridade monetária durante a crise como forma de manter o bom funcionamento do sistema financeiro e do mercado de capitais.

No caso das compromissadas, do impacto potencial de R$ 50 bilhões, foram usados R$ 22 bilhões, de acordo com o balanço do diretor. Segundo ele, a medida manteve o fluxo de dólares para o Brasil em um momento em que o funding externo cessou. Aos poucos, "o mercado internacional for normalizando" e a linha não passou mais a ser necessária, afirmou.

Já os empréstimos com lastro em debêntures para instituições financeiras atingiram R$ 3 bilhões dos R$ 91 bilhões projetados. Segundo o diretor, eles foram substituídos pelos empréstimos com lastro em Letras Financeiras Garantidas (LFG), "uma forma mais abrangente de dar liquidez ao sistema bancário por meio de praticamente qualquer ativo". Até aqui, as operações com LFG somam R$ 26 bilhões do potencial de R$ 670 bilhões.

Na avaliação de Serra Fernandes, o "sistema tem respondido positivamente às medidas" adotadas pelo BC durante a crise.

Ele destacou também que a Pesquisa de Estabilidade Financeira realizada pela autoridade monetária em maio mostra confiança "elevada" na estabilidade do sistema financeiro, em nível superior ao que foi visto na crise de 2015 e 2016. O diretor também afirmou que os índices de Basileia das maiores instituições financeiras, pertencentes aos segmentos S1 e S2, permamecem em nível acima do esperado.

Por fim, Serra Fernandes disse que a regulamentação da compra de títulos pelo BC diretamente no mercado deve ser realizada em "breve".

Ontem, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC cortou a taxa básica de juros de 3% para 2,25% ao ano. O Copom, do qual Serra Fernandes faz parte, segue em período de silêncio, o que significa que o diretor não pode comentar a decisão.