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Relatos de racismo em lanchonete na PB voltam a repercutir nas redes: 'Não podemos nos calar'

João de Mari
·4 minuto de leitura
Nos prints da conversa é possível ler a mulher dizendo que o atendimento foi bom, que a vítima identificada como Gabriel Akhenaton, de 18 anos, foi “educado”, mas que “a cor dele não nega” (Foto: Reprodução/Instagram)
Nos prints da conversa é possível ler a mulher dizendo que o atendimento foi bom, que a vítima identificada como Gabriel Akhenaton, de 18 anos, foi “educado”, mas que “a cor dele não nega” (Foto: Reprodução/Instagram)

Um funcionário negro de uma lanchonete em Campina Grande, na Paraíba, foi vítima de racismo e injúria racial por uma cliente que mandou mensagens para os donos do estabelecimento dizendo que se sentiu incomodada ao ser atendida por “um negro”. Ela também atacou o restaurante alegando que admitir um trabalhador negro “mancha” a imagem do local.

O caso aconteceu no dia 8 de dezembro, mas voltou a repercutir nas redes sociais nesta quinta-feira (24), véspera do Natal, após divulgação da conversa entre a mulher e o estabelecimento. A troca de mensangens ocorreu de madrugada pelo WhatsApp.

Nos prints da conversa é possível ver a cliente dizendo que o atendimento foi bom, que a vítima identificada como Gabriel Akhenaton, de 18 anos, foi “educado”, mas que “a cor dele não nega”.

Na conversa, o funcionário que estava respondendo as mensagens questiona se as “reclamações” se tratavam de uma “brincadeira” e a pessoa diz que não e ainda que achava que o estabelecimento fosse “um local de família”.

A cliente, que não teve o nome divulgado, ainda diz que ter uma pessoa negra na equipe “mancha a imagem da lanchonete, não é questão de racismo” e que não é obrigada a ser atendida por um negro.

A delegada da 6ª Delegacia Distrital, Mairam Moura, afirmou ao G1 que já instaurou o inquérito competente, expediu as intimações e solicitou a quebra de dados do número que enviou as mensagens. Para ela, a princípio houve injúria racial contra o funcionário e racismo contra negros, porque no final da mensagem a mulher ofende a todos.

A reportagem tentou entrar em contato com a delegada para atualizar o caso e saber se a vítima já foi ouvida para que o caso seja investigado, mas não conseguiu.

Combate ao racismo com a ‘ponta da caneta’

O funcionário Gabriel Akhenaton se posicionou em seu perfil no Instagram sobre o ocorrido, dizendo que mesmo sentindo medo de falar percebu que “não pode se calar e deixar isso acontecendo”.

"No primeiro momento eu não queria expor ao público, fiquei com medo. Mas percebi que a gente não pode se calar, a gente não pode deixar isso continuar acontecendo, eu estaria sendo conivente, sendo racista. A gente tem que falar, gritar, chegar nas mídias. Quantos 'Gabriels' não existem por aí que não tiveram a oportunidade que eu tive de expor o seu caso de racismo, quantos mais não podem ter sua voz ouvida?", lamentou.

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Além de trabalhar na lanchonete, Gabriel também é artista e comanda um projeto de rap chamado “Cypher”. Um dia após o episódio sofrido no estabelecimento, o jovem publicou uma música com o nome “Racismo nao existe?”.

Na letra, Gabriel diz que não irá se calar e traz referências de outros casos de racismo no Brasil, como o assassinato do cliente negro João Alberto, de 40 anos, que foi espacando por dois seguranças até a morte em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre.

“Atitude deploravel, mano, mais um racista tentando diminuir o povo preto, fere a mim, fere a você. Nós combate (sic) racista com a ponta da caneta. Não insista em dizer que racismo não existe, então me explica o fato daquelas mensagens, então me explica o fato dele ser espancando dentro do mercado, explicar o fato de a cada 23 minutos um jovem negro ser morto”, diz um trecho da música.

A reportagem entrou em contato com a lanchonete solicitando uma entrevista, mas não obeteve resposta até a publicação. No entanto, ao UOL, o dono do estabelecimento, Ramon Vieira, afirmou que o episódio "foi muito constrangedor”.

“Pensamos em como ele receberia tudo isso. Mas eu e minha esposa decidimos fazer uma reunião com a equipe e então falamos sobre o fato. Gabriel e outras pessoas se emocionaram, foram ataques fortes. É algo que a gente vê em filme, em novela, mas nunca imagina que vai acontecer tão perto de nós", declarou.

Vieira disse ainda que espera que isso não fique impune e que não aceita, em seu estabelecimento, nenhum tipo de discriminação. "Se isso tivesse acontecido com uma mulher, idoso, qualquer outra pessoa teríamos a mesma atitude, pois não admitimos esse tipo de tratamento", afirmou.