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Relações entre OMS e China são mais complicadas do que parecem

Robin MILLARD
·4 minuto de leitura
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em 21 de janeiro de 2021

As relações entre a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a China estão sob os holofotes desde o primeiro dia da pandemia de covid-19, mas a atenção aumentou com a publicação do relatório sobre as origens da doença.

Os críticos estimam que Pequim, muito preocupada em combater qualquer reprovação à sua gestão da pandemia, "enrolou" a agência da ONU durante a crise e relutou em compartilhar os dados que esclareceriam as origens de uma doença que já matou mais de 2,7 milhões de pessoas no mundo desde dezembro de 2019.

A OMS foi acusada de ser muito tolerante com a China desde os primeiros dias do que se tornaria a pior pandemia em um século.

Mas a situação da OMS não é simples. Para poder realizar investigações em um país, a organização é obrigada a contar com sua colaboração.

Foi somente em janeiro de 2021, mais de um ano após o início da crise, que especialistas internacionais indicados pela OMS puderam investigar na cidade de Wuhan, considerada o epicentro da crise.

Se muitos questionam a falta de transparência das autoridades chinesas, outros enfatizam que a investigação sobre a forma como o vírus passou do animal para os seres humanos foi feita em plena colaboração com cientistas chineses.

O relatório, do qual a AFP obteve uma cópia nesta segunda-feira, considera "entre provável e muito provável" que o vírus tenha sido transmitido ao Homem por meio de um animal intermediário, previamente infectado por um morcego.

E considera "muito improvável" que o vírus tenha saído de um laboratório, hipótese levantada principalmente pelos Estados Unidos, enquanto a transmissão por carne congelada é considerada "possível".

- "Cumplicidade institucional" -

Entre os críticos está o diretor da ONG de direitos humanos Human Rights Watch, Kenneth Roth, que acusa a OMS de "cumplicidade institucional".

"A OMS rejeitou completamente, como instituição, qualquer tipo de crítica sobre a maneira como a China escondeu a transmissão entre humanos, ou o fato de que continua a se recusar a fornecer evidências", disse Roth a repórteres no mês passado.

"O que precisamos é de uma investigação honesta e vigorosa, em vez de continuar a ceder aos esforços da China para esconder a realidade", enfatizou.

Ouvida pela AFP, uma pessoa habituada a frequentar os círculos diplomáticos em Genebra destacou que a OMS deixou para os chineses a tarefa de realizarem sozinhos os trabalhos preparatórios, bem como de controlar a forma como as investigações decorreriam no terreno.

Ninguém foi, no entanto, mais crítico do que Donald Trump, quando ainda era presidente dos Estados Unidos, e acusou abertamente a OMS de ser uma "marionete da China".

Assim que assumiu o cargo, seu sucessor Joe Biden decidiu que seu país deveria retornar à organização com sede em Genebra, embora não sem críticas.

- Boa cooperação -

Mark Cassayre, o diplomata americano de mais alto escalão em Genebra, explicou na semana passada que Washington ficou "consternado" com o longo tempo que levou até que os especialistas pudessem ir a Wuhan.

Cassayre expressou dúvidas sobre a liberdade que tiveram para trabalhar, uma vez no terreno.

"Será o critério, pelo qual julgaremos a relação" entre a OMS e a China, estimou.

Mas, ao fechar a porta para a OMS - da qual os Estados Unidos eram o maior contribuinte -, Washington criou um vácuo que Pequim preencheu rapidamente.

Chen Xu, o embaixador da China na ONU em Genebra, chamou essas acusações de "infundadas".

"A cooperação entre a China e a OMS tem sido muito boa nos últimos anos", disse ele, avaliando que as relações com a agência da ONU durante a pandemia "não tiveram incidentes" e foram "exaustivas".

Já David Heymann, que preside o comitê científico e técnico da OMS sobre riscos infecciosos, saudou a cooperação com a China.

A informação "fornecida voluntariamente pela China" logo no início da crise permitiu "um rápido entendimento do mecanismo de transmissão", disse ele à AFP.

- Questão séria -

O embaixador da União Europeia na ONU em Genebra, Walter Stevens, ressalta que, quando a China se sente "pressionada", "não facilita as coisas".

Mas, para ele, esse é um problema sério da OMS, e não uma atitude chinesa. "Não concordo em absoluto com a ideia de que a China controla a OMS", diz.

Se ninguém vê a lentidão da missão de investigação sobre as origens como um golpe à credibilidade da OMS, Peter Ben Embarek, que a liderou no campo, considera que não teria sido muito útil ir mais cedo, especialmente porque os trabalhos preparatórios realizados pelos chineses não estariam prontos.

Outro membro da equipe, Marion Koopmans, recomenda que essas missões sejam automáticas, para evitar que sejam percebidas como uma busca por culpados.

"Se quisermos superar essas sensibilidades, vamos fazer [dessas investigações] uma rotina, uma norma", propõe.

bur-rjm/nl/mar/pc/zm/mr/tt