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Refugiada do Congo troca advocacia por faxina e informalidade no Brasil

Sylvie Mautiene está no Brasil há seis anos e encontra dificuldades de emprego formal (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Giovanna Maradei

Sylvie Mautine estava ao celular e demorou um pouco para desligar. “Minha amiga chegou nos Estados Unidos, ela estava com aquele grupo de pessoas que tentavam cruzar a fronteira. Eu não teria coragem”. Apesar os extremos, a vida de imigrantes e refugiados no Brasil não é fácil. Formada em direito, ela foi perseguida politicamente no Congo e passou por diversos empregos informais antes de conseguir uma oportunidade no Brasil.

Ela faz parte de uma estatística bastante grave. No país, segundo pesquisa realizada pela Agência Nacional de Refugiados da ONU, 68% dos refugiados não utilizam suas habilidades profissionais nos atuais trabalhos.

Da vida estável à perseguição política

A advogada de 36 anos vivia na capital, Brazzaville, com o marido e seus dois filhos. Cercada por amigos e familiares, ela estudou e se formou na universidade de direito. Em seguida, foi trabalhar como assistentes jurídica. Era a única mulher do escritório e, segundo ela, tinha tratamento de rainha. “Todos queriam saber o que eu achava antes de tomar uma decisão”, conta.

Com o nascimento dos filhos, e graças às boas condições financeiras do marido, saiu do emprego. O plano era voltar quando eles tivessem maiores, estudar para passar no que corresponderia a OAB de lá, e seguir como advogada. Mas não foi bem assim que aconteceu.

Há cinco anos, o marido de Sylvie - filiado a um partido político - foi preso. O motivo nunca ficou claro. Após duas semanas de incertezas, ela recebeu uma ligação. Era o marido pedindo para que a esposa fugisse de casa. “Queria entender o que estava acontecendo e tentar resolver. Fiquei por mais um dia e foi quando os militares vieram. Naquela noite, eu sofri tanta violência que eu decidi ir embora”.

Apesar da guerra ter terminado oficialmente em 2003, a República Democrática do Congo tem hoje um dos índices mais baixos de democracia do mundo. Segundo um ranking feito pela revista The Economist, a nação ocupa a 155a posição em uma lista de 167 países e vive uma profunda crise política que não raro culmina em conflitos e prisões de civis.

Aos 36, Sylvie tem três filhos e conseguiu trazer irmão e mãe ao Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Sylvie e as duas crianças, na época com 1 e 3 anos, mudaram de cidade para, depois, “embarcar” no porão de um navio rumo a Europa. O capitão, a quem a ex assistente jurídica deu suas economias, colocou a família em um quarto do tamanho de um colchão de solteiro. Trazia comida e também avisava quando era seguro ir ao banheiro que ficava no fim do corredor. Passaram-se muitos dias - 45, nas contas de Sylvie. Foi quando ela disse que desceria na próxima parada, não importava qual fosse.

A difícil chegada ao Brasil

Até hoje, ela não sabe exatamente onde foi, mas que a areia era brasileira. Com uma ajuda ou outra conseguiu carona até um lugar onde poderiam ajudá-la. Era uma abrigo em São Paulo. O suficiente para começar a segunda fase dessa saga, a busca por um emprego.

Com diploma universitário, mas sem falar muito bem português e nem ter com quem deixar as crianças, ela começou como diarista e empregada doméstica. O primeiro emprego de carteira assinada foi de ajudante geral de limpeza em uma escola infantil.

“O refúgio é você se esquecer do que você é. Tudo o que você planejou na sua vida cai por terra. As bombas não matam pessoas, matam quem você é.”

Ela admite que, no começo, foi difícil aceitar a posição na faxina, especialmente com diploma universitário. “Era um trabalho pesado, que eu nunca tinha feito na minha vida. Eu limpava a minha casa, mas lá eu tinha empregado, então não era todos os dias”, completa.

De qualquer forma, não havia tempo nem dinheiro para muito mais do que acordar, deixar as crianças na escola, ir trabalhar, pegar as crianças e voltar para o abrigo. A vida era essa, naquele momento, até que veio a próxima reviravolta. Enquanto estava na recepção do abrigo, ouviu a assistente social chamar por um homem, que não só tinha o mesmo nome de seu marido. Era o próprio.

Os dois voltaram a ficar juntos e Sylvie engravidou do terceiro filho, hoje com 4 anos. No começo, ela escondeu a gravidez: não sabia da licença maternidade. Após a criança nascer, ficou 4 meses fora e voltou ao posto de faxineira. Sem conseguir conciliar o volume de trabalho com as paradas para amamentar e os cuidados com os outros dois filhos, ela optou sair do emprego.

“Já tinha me acostumado com o trabalho pesado, mas com a criança, toda vez que ela chorava e eu ia dar de mamar, tinha reclamação. Um dia, minha chefe chegou a me falar que eu não estava trabalhando bem por causa da neném, que era melhor não dar de mamar e que elas iam ajudar com isso lá na escola. Mas minha filha não pegava a mamadeira e ficou chorando o dia inteiro. Ninguém aguenta isso. No mesmo dia pedi a conta”.

Foram meses trabalhando na informalidade. Ela vendia comida congolesas em eventos para ajudar nas contas da casa, enquanto levava e buscava as crianças nas escolas. Uma logística que só ficou mais fácil quando a mãe e o irmão de Sylvie conseguiram vir para o Brasil. “Neste meio tempo consegui um visto para eles [mãe e irmão], e com a ajuda de uma amiga fiz uma vaquinha online para comprar as passagens”.

Tendo com quem deixar os filhos, Sylvie voltou a buscar emprego formal. Primeiro trabalhou em um hospital municipal, como copeira hospitalar substituta. Depois surgiu uma vaga em uma multinacional sediada na França, a Sodexo. “Levei meu currículo como copeira hospitalar, mas a pessoa que me entrevistou pediu para eu contar um pouco da minha história e me falou: ‘você é formada, vamos achar uma outra vaga para você’”.

A oferta demorou seis meses, mas chegou: Sylvie seria recepcionista bilíngue. Era de longe o trabalho mais difícil que ela iria encarar no Brasil, especialmente pela necessidade de não apenas falar, mas escrever em português. Nada que os colegas e o Google tradutor não pudessem ajudar.

“A felicidade depende de você, não depende do dinheiro que você tem, não depende do material. Se estou aqui no Brasil, vivendo, se meus filhos estão com saúde, estudando.”

“Era melhor, porque o trabalho não era mais tão pesado, mas foi difícil também, era muita coisa nova. Você ficava no computador o dia todo, tem vários e-mails para responder. Mas sempre que eu não sabia alguma coisa de gramática eu pedia ajuda, não tenho vergonha de perguntar”, conta Sylvie.

Diferentemente da invisibilidade que experimentou como faxineira, agora Sylvie voltava a ter um pouco da voz que buscava quando cursou direito. Se na escola em que limpava o chão não era convocada nem para ajudar a cuidar das crianças durante um passeio, lá chegou a participar de palestras sobre inclusão e diversidade, compartilhando a sua história.

A lua de mel, no entanto, foi interrompida com uma proposta que incluía o dobro do salário. Sylvie saiu da recepção para ser assistente pessoal de uma produtora. O emprego era dinâmico e desafiador, mas depois de dois meses ela foi dispensada e voltou a fila de desempregados, onde está há quase 90 dias.

Quer voltar a trabalhar, como recepcionista, não em um trabalho braçal, e também a estudar para entender a dinâmica de trabalho dos advogados aqui no Brasil. “Vi em um grupo que me colocaram [no Whatsapp] que a OAB vai fazer um grupo para estudar a previdência, eu vou tentar acompanhar tudo”, explica a advogada que sente muita falta do mundo jurídico, mas há duas semanas não consegue ir nas reuniões presenciais da entidade jurídica porque falta dinheiro para o transporte.