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Rede de policiais LGBT tem como missão combater LGBTfobia dentro e fora da corporação

(Reprodução)

Por Melissa Santos

Criada há oito anos, a Renosp (Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBT) cuida de casos que envolvem ameaças a agentes gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. Com representantes em diversas áreas da corporação, como Polícia Federal, Guardas Municipais e Bombeiros, a rede conta com 100 inscritos e está em quase todos os Estados brasileiros.

O PM brasiliense Alexandre Dias, que é um dos coordenadores, explica que atualmente o grupo se concentra em fazer pontes entre vítimas, ministérios públicos, Ministério da Justiça e corregedorias. A rede ganhou destaque pela forte atuação em defesa do PM Leandro Prior, que foi filmado beijando um homem no metrô de São Paulo e que sofreu ameaças.

“Em 2018, voltamos a reestabelecer o contato para a rede funcionar de fato. Estamos estruturando um estatuto e seremos uma associação, para não ficarmos vinculados a nenhuma estrutura específica. Fora que antes para participar era preciso receber um convite e agora os operadores de segurança pública interessados poderão se inscrever na rede pelo site”, conta Dias.

Um dos objetivos da Renosp é ter um membro em todos os Estados brasileiros, mas a maior missão para todos que fazem parte da rede é, sem dúvida, combater a LGBTfobia dentro e fora da corporação.  “Ainda que a princípio a gente atue mais no acolhimento dos operadores de segurança que sofrem preconceito dentro da corporação, nós também passamos segurança para a própria comunidade LGBT”, explica Dias.

Em 2018, a Renosp já atendeu quatro casos de agentes que foram vítimas de descriminação. Sendo o do soldado Prior como um dos que teve maior repercussão. “Prior recebeu mais de dez páginas de xingamentos e ameaças. Tinha até comentário de um outro policial falando que ele tinha que morrer. Levamos o caso para o Ministério Público de SP, à Secretaria Municipal de Direitos Humanos, ONGs e delegacias. E o inquérito já foi aberto”, conta Dias.

No entanto, segundo o coordenador da rede, o soldado Prior também está passando por um processo administrativo por desatenção por estar com o coldre da arma aberto no momento da filmagem.  “Mas sabemos que nada disso aconteceria se o caso envolvesse um casal heterossexual. Isso é tudo uma desculpa! Só queremos que esse processo seja arquivado sem mais prejuízos e danos”, fala.

Para Alexandre, ainda há um desinteresse das polícias em combater denúncias de LGBTfobia. “E é isso que faz com que a rede seja tão necessária. Esse próprio policial que escreveu isso para o Prior não foi punido. Disse que foi alguém que usou o computador dele. A polícia poderia ter apurado isso, mas não quis. Tem corregedoria que leva as denúncias a sério e outras não”, diz.

Dias explica que um dos objetivos da rede também é dar cursos paras policiais, bombeiros e guardas municipais sobre transexualidade e como lidar com quem sofre agressão por ser da comunidade LGBT. “Um dos nossos integrantes já criou esse material de abordagem e vamos implementar um projeto piloto agora em parceira com o Ministério dos Direitos Humanos na PM-DF. Vamos prestar um serviço cada vez melhor para a sociedade”, conta.

A meta é que no futuro o Brasil possa se igualar ao Canadá, Inglaterra e Estados Unidos, países onde, segundo Dias, é comum encontrar agentes de segurança LGBT; e há muitos relatos de respeito dentro do ambiente de trabalho. “Acho que nesses países o movimento LGBT já está mais forte e estruturado. E como as instituições são um reflexo da sociedade é por isso que ainda existe muito preconceito. Mas ainda assim vejo muitos avanços significativos”, fala.

Um deles é a própria existência da rede que, segundo Dias, trouxe mais representatividade para os próprios oficiais. “Muitos agentes se sentiam excluídos e marginalizados dentro da corporação. Não se sentiam à vontade para se assumir. Mas só o fato da rede existir dá essa segurança emocional, psíquica e trabalhista para eles e isso não tem preço. Fora que podemos trocar experiencias. Acho que a Renosp é uma grande conquista”, fala.