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Reação ao massacre de Paraisópolis escancara nossa desumanização

Vista da favela Paraisópolis em registro de 2014. Foto: Paulo Fridman/Corbis via Getty Images

João Doria estava no Rio de Janeiro quando surgiram as primeiras notícias sobre o massacre em Paraisópolis, ocorrido na madrugada de sábado para domingo.

O governador de São Paulo foi até a capital fluminense para filiar ao PSDB o ex-ministro Gustavo Bebianno, comandante da campanha vitoriosa do PSL à Presidência e que rompeu com Jair Bolsonaro no começo do ano. 

Com um olho nas eleições de 2022 e outro nas sobras do barco bolsonarista, Doria bancou o novo aliado, a exemplo do que fizera com outro desafeto do presidente, o hoje deputado tucano Alexandre Frota. Ele “agora está na direção certa”, discursou o governador. E a direção certa, segundo ele, é “veloz e vai acelerar o Brasil”.

Em sua fala, Bebianno voltou a atacar o ex-aliado. Disse que “nossa democracia está em risco” e que Bolsonaro “pensa única e exclusivamente em sua reeleição”.

Longe do discurso oficial, amigos, parentes e familiares preparavam o enterro de nove jovens pisoteados em outra polis, a que ironicamente tem como prenome o paraíso. 

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Em 2016, durante o 4º Colóquio Brasil - Portugal, a então mestranda em serviço social da PUC Raquel Machado Werneck analisou a desigualdade no processo de urbanização do local do crime, a segunda maior favela da cidade de São Paulo, segundo o Censo 2010, com 44.982 moradores. 

O estudo mostrou que 80% da população local é de origem nordestina. Grande parte se mudou para a cidade para trabalhar na indústria de construção civil; hoje o bairro é formado por faxineiros e porteiros dos condomínios dos bairros vizinhos mais ricos, como o Morumbi.

Vem de lá as imagens do contraste da metrópole, onde simultaneamente convivem loteamentos de alto padrão e favelas que estão separados, às vezes, por uma rua ou apenas por um muro, segundo a autora. 

A história da ocupação da cidade serve como contexto e anteparo às mensagens que correram, no início da semana, nas correntes de WhatsApp das melhores famílias:

“Agora, o que a mídia está mostrando, referente ao episódio de Baile Funk em Paraisópolis, deve ser repensado...o que 5.000 jovens, em sua maioria menor, sem O RESPONSÁVEL, ONDE TODOS TEM O CONHECIMENTO, QUE "ROLA TUDO",  durante o dia, onde fecham as ruas, TRABALHADORES NÃO PODEM ENTRAR OU SAIR, e quando POLICIAIS TRABALHANDO...(38 POLICIAIS), Tem que conter uma BAGUNÇA DE 5.000 Menores, *durante o dia, e agora culpam aqueles que são chamados para dar Seguranca....Absurdo!...Os pais responsáveis é que devem ser responsabilizados (em parte), porque sabemos que alguns NÃO RESPEITAM SEUS PAIS.”

Mensagens como essa denotam um processo duplo de desumanização: a de quem vê amigos e familiares morrerem pisoteados como barata e não tem direito ao luto e à memória e a de quem desdenha da morte - logo, da própria humanidade.

Quem acha, e já não tem vergonha de esconder, que todos são iguais diante da lei e dos deveres, mas uns têm mais direitos que outros a morrer já morreu há muito tempo.

No Brasil, quando a distância econômica não corresponde à distância física entre ricos e pobres, a militarização das zonas urbanas é o caminho escolhido pelas autoridades para evitar o contato - em muitos casos, intensificando o conflito contra os sujeitos “indesejáveis” da mesma cidade.

Primeiro, retira-se desses grupos o acesso aos serviços e equipamentos culturais e educacionais básicos; depois, criminaliza-se as reuniões de grupos que podem ser observados, em paralelo, nos grandes festivais e festas raves dos bairros ricos; por fim, sufoca-os. Se alguém reclamar, lembre-se: a culpa é de quem deixou esses “menores” a solto.

Grifo, aqui, a palavra “menores” para expor a tentativa de reforço de uma suposta delinquência de quem suprimiu o direito à vida já no nome.

Uma das vítimas, Dennys Guilherem, dizia em suas redes, há poucos dias: “vou ser um universitário que vai conquistar o mundo. Vou ser pra minha mãe o motivo de tanto orgulho”.

Não vai, Dennys. Não vai porque seu destino é ser sufocado, pisoteado. E no fim você e seus pais serão considerados culpados pelo tribunal do WhatsApp das chamadas famílias de bem que vão sempre olhar seu lugar de nascimento como a fonte de todo mal.

Como lembrou o site G1, a cidade de São Paulo registrou, no primeiro semestre de 2019, 9.449 reclamações de barulho, incluindo os demonizados pancadões - em média, 52 ocorrências diárias. 

A Vila Andrade, onde fica Paraisópolis, é só a 76ª localidade mais acionada. Os lugares com maior reclamação são os bairros de Pinheiros, Santa Cecília e Vila Mariana.

Em sua página no Facebook, a cientista política Fhoutine Marie resumiu que é importante ressaltar o racismo institucional dessas ações que miram as periferias e poupam os bairros ficos e de classe média. “Porém, é preciso estar alerta para o fato de que não se trata apenas da velha política de extermínio do povo preto e pobre e sim da nossa capacidade de tolerância aos massacres. Este é um teste e as cobaias são os corpos pretos e periféricos, que sempre são atingidos antes, em maior quantidade e de forma mais bruta. Mas, assim como a PM chegou na Paulista e bateu em aluno da PUC (em junho de 2013), os massacres sairão da periferia em direção ao centro. E não vai demorar. Aliás, já tá tendo. A prisão dos brigadistas em Alter do Chão da semana passada é um indicativo disso. Exemplos não faltam. Há outros ativistas sendo presos, assassinados ou recebendo ameaças de morte. O processo de criminalização dos movimentos sociais segue a todo vapor nas esferas de governo. Vai dar ruim pra todo mundo.”

No auge da campanha, João Doria prometeu que em sua gestão a PM atiraria para matar.

Com versões desencontradas da ação, seis policiais foram tirados de atividade de policiamento. À Folha de S.Paulo o ouvidor da polícia, Benedito Mariano, afirmou que é necessária uma rigorosa investigação, porque não é aceitável ocorrer mortes em uma ação como esta. “Não dá para uma perseguição de dois suspeitos terminar em uma ação de controle de distúrbios, precipitada, sem planejamento, inadequado, quando a intervenção policial se dá quando o baile já está em andamento”.

Na música “Haiti”, composta em 1993, Gilberto Gil e Caetano Veloso já falavam do silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina. A de Paraisópolis não foi a primeira e nem será a última.