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Racisters: São Paulo, a capital do preconceito

Alma Preta
·4 minuto de leitura
Na semana passada, a Revista Veja, um dos principais produtos jornalísticos do país, publicou uma capa e uma reportagem especial sobre a presença de migrantes brancos nordestinos na cidade e indicou São Paulo como a capital do Nordeste
Na semana passada, a Revista Veja, um dos principais produtos jornalísticos do país, publicou uma capa e uma reportagem especial sobre a presença de migrantes brancos nordestinos na cidade e indicou São Paulo como a capital do Nordeste

Texto: Redação Agência Alma Preta

Definir São Paulo como a capital do Nordeste, além de uma afirmação descabida do ponto de vista geográfico, reforça uma série de preconceitos regionais e raciais existentes acerca de migrantes nordestinos. O título escolhido para a edição especial da Revista Veja sobre o aniversário da cidade sudestina fica ainda mais problemático quando olhamos para a imagem que ilustra a capa onde um grupo de pessoas brancas foi escolhida para representar aquela que é a região mais negra do país. Não há dúvida que essa é a imagem que a Veja e a classe média paulistana gostariam de ter do Brasil e dos migrantes vindos para São Paulo.

A capa da publicação, que disparou uma série de críticas e debates nas redes sociais, também reforça um estigma de que todo o Nordeste é homogêneo, desrespeitando a diversidade existente entre os nove estados que compõem a região. A revista jamais ignoraria as diferenças entre São Paulo e o Rio de Janeiro, dois estados do Sudeste brasileiro, mas com muitas singularidades.

Quem mora na cidade sabe o quanto há um preconceito regional e racial bastante explícito. Uma das ofensas cotidianamente repetidas entre os paulistanos é se referir ao outro como “baiano”. São Paulo tem muitos migrantes baianos, pessoas de maioria negra, que são descritas, de maneira negativa, como “lerdas” e com pouca vontade de trabalhar, algo muito associado à comunidade negra no Brasil de maneira geral.

Para os paulistanos, por outro lado, são eles os mais trabalhadores e que carregam o país nas costas. Trata-se da “Locomotiva do país”. Em primeiro lugar, os paulistanos parecem esquecer da mão de obra migrante que ajudou São Paulo a se desenvolver de maneira mais destacada. Em segundo, omitem a informação de que São Paulo não é o único estado da nação a repassar mais recursos para a União do que recebe, apesar de ser quem mais tem um déficit nesta conta. Dos 26 estados da nação, apenas 11 recebem mais recursos da União do que entregam na forma de impostos. Na matemática nacional, existem bem mais locomotivas do que vagões. São Paulo, contudo, acredita ser o único a mobilizar o país.

Isso sem contar que São Paulo se beneficia desta condição de “locomotiva” e consegue atrair mão de obra de todas as regiões do país para trabalhar na capital paulista e ser explorada. São Paulo também vende produtos para outras regiões do país sem grandes taxações, fatores que beneficiam a condição econômica do estado por fazer parte do país.

É necessário afirmar isso para expulsar o vulto existente da São Paulo de 1932, que entrou em guerra contra o restante do país para restabelecer o domínio paulista na política nacional. Guerra que até os dias de hoje parece alimentar um sentimento separatista entre os paulistas.

A guerra de 1932, motivada pelo fim da chamada política do café com leite, e o golpe dado por Getúlio Vargas para a continuidade do poder de Minas Gerais, é a expressão deste sentimento paulista de que o estado deve liderar independente das condições.

Seguindo a dinâmica desta concepção, é a São Paulo, representada pelo bandeirante branco, quem deve estar à frente dos processos por ter uma superioridade quase inata, sentimento bastante perigoso numa sociedade que precisa considerar a diversidade dos demais grupos raciais, como negros e indígenas.

O hino do estado de São Paulo, por exemplo, carrega consigo, de maneira aberta, menção racista que exalta a dominação de grupos indígenas. “Em Bandeira ou Monção; Doma os índios bravios; Rompe a selva, abre minas, vara rios!”. Em outros trechos, enaltece o trabalho feito no café, na retirada do ouro, ambos serviços feitos pelos negros escravizados, não pelos senhores brancos.

O bandeirantismo talvez seja um orgulho para as elites e a classe média paulistana, mas são uma afronta às comunidades negra e indígena. O monumento “As Bandeiras” representa pessoas negras esmagadas, carregando um barco e outros elementos para os bandeirantes, homens brancos contratados para acabar com quilombos, aldeias e sequestrar pessoas para trabalhar como escravizadas.

Definitivamente, existe uma São Paulo mais interessante do que está representada pelos órgãos oficiais. A São Paulo pioneira no samba, criadora do Hip Hop, de uma gastronomia bastante diversa, com manifestações culturais pulsantes em suas periferias, é certamente algo a ser valorizado e comemorado.

Nos 467 anos de São Paulo vale a pena comemorar a história de Racionais MC’s, Emicida, Negra Li, Camisa Verde e Branco, Vai-Vai, Nenê de Vila Matilde, centenas de times de várzea, entre outras incríveis manifestações culturais populares que foram também foram compostas com a riqueza cultural de outros povos que nesta cidade chegaram para contribuir não como mão de obra, mas com conhecimento e valores. É o tempo também de exortar e ir contra o racismo oficial reafirmado pelos órgãos públicos e pela grande imprensa acerca de outras regiões do país e demais segmentos raciais.