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Como o racha no DEM pode alavancar ou sepultar os planos de Doria para 2022

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
SAO PAULO, BRAZIL - NOVEMBER 19: Governor of Sao Paulo Joao Doria gestures during a press conference to give updates about the development of the vaccine Coronavac of Chinese laboratory Sinovac Biotech at Palacio Bandeirantes on November 19, 2020 in Sao Paulo, Brazil. The batch with the first 120,000 doses of the CoronaVac vaccine arrived in Sao Paulo today. The material imported from China is being developed by the Chinese laboratory Sinovac, in partnership with the Butantan Institute. CoronaVac is one of four candidates for the vaccine against coronavirus that are being tested in Brazil, but has not yet had authorization from the National Health Surveillance Agency (Anvisa) to be applied in Brazil. (Photo by Rodrigo Paiva/Getty Images)
O governador de São Paulo, João Doria. Foto: Rodrigo Paiva (Getty Images)

João Doria quer fazer uma limonada com o racha do DEM, a perna direita do PSDB em todas as corridas presidenciais desde 1994 --sempre com um candidato tucano na cabeça de chapa.

O Democratas vê na troca de farpas entre o neto de Antônio Carlos Magalhães e o filho de César Maia um novo movimento de dissidência em uma legenda que nasceu na dissidência. Fundado em 1985, o PFL (Partido da Frente Liberal) é resultado de um racha entre os quadros do velho PDS (Partido Democrático Social) que não aceitavam a indicação de Paulo Maluf como candidato apoiado pela ditadura nas eleições indiretas para presidente naquele ano. O PDS era o herdeiro político da Arena (Aliança Renovadora Nacional).

Rebatizado em 2007, numa tentativa de se modernizar e se dissociar da imagem de um partido de oligarcas e coronéis, o atual DEM conseguiu conter um processo de dissolução em meio à onda progressista nos anos 2000. Em 1998, por exemplo, o então PFL chegou a eleger a maior bancada da Câmara, com 106 deputados federais. Hoje possui 29, o suficiente para desequilibrar o jogo em favor de Arthur Lira (PP-AL) para o comando da Câmara.

Em 2020, o partido quase dobrou o número de prefeitos eleitos nas eleições municipais (saltou de 268 para 464). Parecia um movimento ascendente, mas faltou combinar com seus caciques --ou filhos e netos de caciques.

Maia botou em dúvida o caráter dos correligionários que colocaram a cabeça da legenda a serviço do governo Bolsonaro. Neto respondeu que o ex-aliado se deslumbrou com o poder.

Como sempre, os ataques de cunho pessoal são um movimento sem volta na implosão partidária. Uma implosão que pode realinhar a legenda aos seus primórdios. Sem Maia, Mandetta e companhia, ACM Neto e Ronaldo Caiado, governador de Goiás, passarão a ser algumas das referências principais do novo velho partido —que terá o comando do Senado e pode ganhar novos ministérios em breve.

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O flerte com a base bolsonarista, liderado pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto, provocou fissuras e feriu o brio do agora ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), a figura de maior expressão do partido e uma espécie de muro de contenção para a pauta de governista. Hoje ele se declara um opositor.

O movimento na legenda pode provocar uma situação inédita desde 1989, a primeira e última eleição presidencial em que PSDB e o então PFL correram separados.

O apoio da legenda é considerado fundamental para os planos do governador paulista em direção a 2022, mas está cada vez mais distante.

ACM Neto não descarta uma aliança com Jair Bolsonaro em 2022. Já é apontado como possível candidato a vice-presidente. Com ele, o capitão ganha uma trincheira no Nordeste, região onde foi derrotado pelo candidato petista Fernando Haddad em 2018.

Jogada de mestre?

Tudo depende de como estarão os humores do eleitorado ao longo dos próximos dois anos, quando Bolsonaro terá de decidir se pretende seguir praticando bullying no fundão da sala no Twitter ou trabalhar minimamente, com uma base relativamente estável de apoio no Congresso, para ajudar o país a atravessar a crise sanitária e econômica. Se Bolsonaro tropeçar novamente nos narcisismo das pequenas diferenças que marcam seu mandato até agora, o destino do DEM e das outras legendas que amarraram seus burros na cerquinha do atraso estará selado.

Ganharia força, assim, o que se convencionou a chamar de direita democrática no país.

Doria viu a oportunidade e abriu as portas para reforçar o PSDB com a ala insatisfeita do DEM. Não é à toa que o governador paulista voltou a colocar à mesa a possível expulsão de Aécio Neves (PSDB-MG) na legenda. Este é um acerto de contas que, se não for feito em algum momento, servirá de âncora a qualquer projeto em direção ao Planalto. Maia sabe disso tanto quanto Doria.

Não deixa de ser uma jogada arriscada apostar no racha do PSDB contando com o reforço de quem rachou o DEM.

Se isso acontecer, dois cenários se desenham. Em um deles, o DEM vira o esteio da governabilidade, emplaca o candidato a vice em 2022, constrói pontes com um eleitorado ainda hostil a Bolsonaro, ajuda a drenar as chances de Doria e, enquanto a esquerda briga lembrando quem foi e quem não foi a Paris em 2018, o capitão segue fazendo arminha com a mão com uma cartela de cloroquina no bolso entre as emas do Alvorada até 2026.

Em outro, o DEM atrela seu destino a um governo inábil, paga o preço por dar um passo maior que a perna e vira um partido comum no rame-rame do centrão. Isso abriria o caminho para Doria vitaminar seu PSDB com o reforço de Rodrigo Maia em um estado-chave, o Rio, capturar os quadros remanescentes do DEM, ganhar o apoio dos empresários com alguma visão de país e, enquanto a esquerda briga lembrando quem foi e quem não foi a Paris em 2018, o tucano pode dizer “tchau, querido” ao atual ocupante do Planalto.

Entre um cenário e outro existe um pequeno detalhe: a recuperação ou não da economia do Brasil pós-covid.

Mas isso é assunto para os próximos capítulos.