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Quem são as mulheres linha de frente do SOS Funeral em Manaus

Redação Notícias
Divulgação/Prefeitura de Manaus

Por Rosana Pinheiro

Dona Lourdes Rodrigues, gerente do SOS Funeral, em Manaus, está atualmente internada devido à covid-19. "Minha mãe é uma mulher guerreira, sempre ajudou as pessoas, e hoje luta pela própria vida em um leito de UTI", conta o filho de Dona Lourdes, Erlon Jorge Rodrigues, que pelo Instagram mantém amigos e familiares informados sobre o estado de saúde da mãe. Em novembro de 2020, quando Dona Lourdes concedeu esta entrevista, ela não imaginava que o pior ainda estava por vir: "Ontem [17 de novembro de 2020] nós tivemos 14 serviços funerários e não pegamos nenhum caso de covid-19", ela contou sentada em uma das salas do SOS Funeral.

Em janeiro de 2021, o estado do Amazonas voltou a ser o epicentro da crise. "Infelizmente Manaus vive a segunda onda, dessa vez pessoas muito próximas de nós estão doentes", fala Amanda Sarkis, técnica municipal.

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Dona Lourdes e Amanda fazem parte de uma força tarefa do SOS Funeral que reúne cerca de 80 mulheres lideradas pela Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) para acolher as famílias das vítimas da covid-19, oferecer serviços de transporte e sepultamento dos corpos, e garantir a segurança dos colaboradores do sistema funerário de Manaus. São servidoras públicas que, diariamente, arriscam as próprias vidas, isoladas de amigos e familiares, pelo bem comum.

Amanda Sarkis, 33 anos, é técnica municipal e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)
Amanda Sarkis, 33 anos, é técnica municipal e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)

Eu só queria estar segura, com a minha mãe, como todo mundo estava. Mas, naquele momento, a nossa atividade passou a ser vista como essencial. A gente tinha que estar na linha de frente. Eu não bebia água no trabalho, eu não comia, com medo de pegar o vírus. Eu dava banho de álcool em mim e nos outros funcionários aqui. Tive que me separar da minha mãe, ela foi morar em outro canto. Eu fiquei muito sozinha. A minha função era recrutar pessoas. Eu tinha que chegar pra pessoa e falar 'o trabalho é carregar corpos'. Ninguém queria. Chegou uma hora que a gente não encontrava interessados.

Eu via as minhas colegas aqui do SOS Funeral abraçando as famílias que perderam entes queridos para a doença. Eu fiquei muito ansiosa. Com medo de me infectar. Eu olhava as minhas colegas e pensava 'por que elas não tem medo e eu tenho?', 'por que elas estão conseguindo e eu não?' Foi aí que eu comecei a perceber o que é ser servidor público. Eu cheguei pra minha chefe e falei 'eu já sei o que é ser servidor público.' Doeu muito entender isso. Porque no fundo você quer estar segura. Mas aqui você trabalha para o outro 24 horas por dia. Não foi fácil. Mas a gente se uniu e passou por cima de tudo quanto é medo.

 Calesta Araújo, 45 anos, é assistente social e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus, para acolher as famílias das vítimas da COVID-19 (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)
Calesta Araújo, 45 anos, é assistente social e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus, para acolher as famílias das vítimas da COVID-19 (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)

De início não era obrigatório usar máscara. Então fui ao supermercado e acabei me infectando. Fiquei internada. Depois isolada do meu filho e do meu esposo. Não tem coisa pior do que você estar na mesma casa e não poder se aproximar de quem você ama. O que me restava era assistir televisão e ver como estava Manaus.

Quando voltei ao trabalho, o momento mais difícil foi ver o sofrimento das famílias. Havia uma multidão ali fora [em frente ao SOS Funeral]. Todo mundo se abraçando. E ao mesmo tempo a gente tinha que orientar para o distanciamento social. Pra gente é muito difícil. Eu sou assistente social, estou acostumada a ficar próxima das pessoas. Mas não podia.

Eu tenho muita gratidão a Deus por estar viva. E por ter ajudado as famílias nesse momento tão difícil.

Jucimaria Menezes, 44 anos, é Chefe de Divisão dos Serviços Sócio-assistenciais e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)
Jucimaria Menezes, 44 anos, é Chefe de Divisão dos Serviços Sócio-assistenciais e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)

Ainda estamos na pandemia. Ninguém saiu da pandemia. É importante dizer. Mas uma coisa é certa: nós descobrimos que somos mulheres muito fortes. A gente estava com medo. Mas o medo era pequeno frente a toda situação.

Foi me dada a função de fazer o recrutamento de pessoas. Por exemplo, remanejar pessoas dos outros setores para dar o suporte para o SOS Funeral, que naquele momento era o que mais precisava. Eu recebia pessoas chorando, elas falavam 'não faça isso comigo, não me coloque naquele setor, eu tenho família, eu não quero me infectar.' Então eu explicava que tinha equipamento de segurança, capacitação. Que não tinha risco. Mesmo assim as pessoas tinham muito medo.

Eu sempre gostei de trabalhar com convencimento. Mas dessa vez eu sofri muito na hora de convencer as pessoas. Aprendi a valorizar ainda mais os meus colegas de trabalho. A valorizar a vida.

Inaie Duarte, 47 anos, é assistente social e trabalhou na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus, para acolher as famílias das vítimas da COVID-19
Inaie Duarte, 47 anos, é assistente social e trabalhou na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus, para acolher as famílias das vítimas da COVID-19

Eu tive medo e tive fé ao mesmo tempo. Quando o Prefeito fez o decreto [calamidade pública em Manaus], muitas pessoas ainda ficaram aqui, não dava para trabalhar de casa. E eu dizia pra eles 'nós não vamos pegar, vamos ficar firme'. E eu falando pra eles [funcionários do SOS funeral] me fortaleceu, entende?

A gente perdeu muitos amigos. Tem tristeza no meio. Mas uma coisa eu te falo, esse ano eu fiquei mais forte, mais solidária. Quero ajudar mais as pessoas. Porque na nossa profissão, tem o medo, claro, mas por você ajudar as pessoas, aquilo te fortalece.

Dona Lourdes Rodrigues, 64 anos, gerente do SOS Funeral de Manaus (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)
Dona Lourdes Rodrigues, 64 anos, gerente do SOS Funeral de Manaus (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)

O pior momento da minha vida foi receber os telefonemas diários dos hospitais. Tinha um enfermeiro, o professor Marcos, que me ligava e dizia 'Dona Lourdes, mande o carro pra cá [Hospital Dom Lúcio], nós temos 16 corpos'. Daí ele me ligava de novo, depois de uns 10, 15 minutos: 'Nós estamos com 28 corpos'. Aí ligava o Hospital de Campanha: 'Estamos com 8 corpos'. Daí todos começaram a ligar: Hospital 28 de Agosto, Hospital Danilo Correia, as UPAS. Eram 2 celulares e mais o telefone daqui. E congestionavam. Não dava conta. Até que as pessoas nem ligavam mais. Mandavam mensagem direto para o motorista buscar os corpos.

Como eu sou grupo de risco, tive que ficar trabalhando de casa. Na época começou a faltar EPI [Equipamento de Proteção Individual]. Coisa que sempre tivemos de estoque! Foi aí que eu comecei a costurar máscaras para o meu pessoal [funcionários do SOS Funeral]. A cada dois dias eu fazia 400 máscaras. Além do meu trabalho na gerência do SOS Funeral. A gente não dormia.

No início de outubro conseguimos voltar a respirar. Agora os médicos já estão mais preparados. Caiu a taxa de mortalidade. Ontem nós tivemos 14 serviços e não pegamos nenhum covid. Hoje [18 de novembro de 2020] foram 3.

Tem gente que ainda não está se cuidando. Eu acho que tinha que fechar tudo. Não adianta abrir até as 22 horas. O covid não está até esse horário? Liberam até as 22 horas e as pessoas se aglomeram no bar. Depois vão pra casa e colocam os mais velhos em risco. Não adianta nada.

Maria Lenise Trindade, 53 anos, é Diretora do Departamento de Proteção Social Básica (DPSB) e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus, para atender e acolher as família das vítimas da COVID-19 (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)
Maria Lenise Trindade, 53 anos, é Diretora do Departamento de Proteção Social Básica (DPSB) e trabalha na linha de frente da operação montada pelo SOS Funeral, em Manaus, para atender e acolher as família das vítimas da COVID-19 (Rosana Pinheiro/Yahoo Notícias)

Naquela época [abril 2020] a imprensa internacional veio toda para Manaus porque nós, infelizmente, viramos o epicentro da pandemia. Não é uma coisa boa. Mas houve um grande reconhecimento do nosso trabalho. E a equipe da assistência é composta em sua maioria por mulheres. Todas as diretoras são mulheres. Nós tivemos 80 mulheres envolvidas. Elas que trabalhavam nos bastidores: aquisição de EPI, organização de EPI, logística, recrutamento de pessoal. Por exemplo, nós tivemos que convocar pessoas para carregar caixão, porque os nossos não estavam mais dando conta.

A mulher tem mais sensibilidade, tem o olhar caridoso de mãe. Mas aqui, no nosso trabalho diário, a gente não chorava na frente das pessoas. A gente ia lá fora, embaixo da árvore, e chorava escondido. Porque não dava pra aguentar o sofrimento das famílias.

A pior parte foi ficar três meses sem ver a minha mãe. Aqui uma confortava a outra. Porque quem sabia que a gente era do SOS Funeral nem queria chegar perto com medo de ser contaminado.

Eu tenho esperança de que dias melhores virão. A gente continua com máscara, com álcool, a nossa vida não está normal. E o maior medo continua sendo infectar os outros, os nossos amigos e familiares. Eu mesma passei por um teste semana passada. A gente percebe que não somos nada, não levamos nada dessa vida. Um vírus tão pequeno acabou com a gente.