Mercado abrirá em 55 mins
  • BOVESPA

    120.700,67
    +405,99 (+0,34%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    48.514,10
    +184,26 (+0,38%)
     
  • PETROLEO CRU

    63,46
    0,00 (0,00%)
     
  • OURO

    1.779,00
    +12,20 (+0,69%)
     
  • BTC-USD

    60.956,23
    -1.376,26 (-2,21%)
     
  • CMC Crypto 200

    1.354,15
    -26,80 (-1,94%)
     
  • S&P500

    4.170,42
    +45,76 (+1,11%)
     
  • DOW JONES

    34.035,99
    +305,10 (+0,90%)
     
  • FTSE

    7.018,02
    +34,52 (+0,49%)
     
  • HANG SENG

    28.969,71
    +176,57 (+0,61%)
     
  • NIKKEI

    29.683,37
    +40,68 (+0,14%)
     
  • NASDAQ

    14.025,25
    +11,25 (+0,08%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,7338
    +0,0127 (+0,19%)
     

Quem mandou matar Marielle? A pergunta que nos assombra há 3 anos

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
An artist writes
Homenagens a Marielle Franco, vereadora morta há 3 anos sem que o país saiba quem eram seus inimigos. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Presente, passado e futuro do Brasil se entrelaçam no documentário “América Armada”, de Alice Lanari & Pedro Asbeg.

De um passado ainda recente por esses lados, a escalada de grupos mexicanos armados e organizadora para lidar com as próprias mãos, e escopetas, contra a criminalidade na região surge na tela como revisita. O capítulo seguinte é conhecido — com o intuito de se autodefender, os grupos logo se tornam uma ameaça à segurança da própria comunidade, com conflitos internos, brigas pelo poder e modos próprios de resolver as desavenças mais pessoais pela violência.

O desfecho dialoga com a ideia central de “A República das Milícias”, livro de Bruno Paes Manso sobre a tragédia representada nos territórios disputados entre traficantes, escritórios do crime e seus esquadrões de morte nas franjas do país.

O Rio das milícias é o México dos autodefensas de amanhã. E é de lá que um jovem militante do coletivo Papo Reto acompanha a escalada de violência policial nas comunidades periféricas, onde casas são invadidas e ocupadas por agentes de Estado que transformam lajes e quarto dos fundos em trincheira de uma batalha onde os moradores só não assistem passivamente porque são o alvo principal daquela guerra. A arma de Raull Santiago, que vive sob ameaça, é uma câmera. O registro da violência presente é a barreira de contenção possível de uma tragédia já exposta.

Leia também:

Da Colômbia chegam como sinopse de um futuro próximo os esforços da ativista de Medellín Teresita Gaviria, na Colômbia, para saber o que aconteceu com seu filho e os familiares de outras mulheres, mortos ou desaparecidos durante décadas de uma guerra intestina entre o governo colombiano e grupos paramilitares. Seu movimento Madres de la Candelária promove o encontro dos parentes das vítimas e seus algozes.

Em meio aos esforços de reconciliação, que em 2016 renderam o Nobel da Paz ao então presidente Juan Manuel Santos, o trabalho de reconstituição histórica é passagem obrigatória para tempos de paz. Tampada, a ferida é supurada e reaberta como um ciclo impossível de curar.

Rodado a partir de 2017, o filme estreou no começo de março nas plataformas de streaming Now, Vivo Play e Oi Play e permite observar conexões entre personagens e situações aparentemente distantes do mesmo continente. O elemento comum é o crescente apelo às armas como solução de conflitos. É o que leva o ativista mexicano Heriberto Paredes, que se dedicar a registrar os rastros de ódio produzidos no confronto, a teorizar sobre uma nova etapa do modelo de desenvolvimento capitalista, em que a violência se transforma em um grande negócio. De 20 anos para cá, ela se firma como uma atividade tão lucrativa quanto epidêmica.

Dessa linha do tempo — armamento, disputa por poder e território e posterior luta pelo direito à memória — o Brasil se encontra hoje em uma posição intermediária. Nas grandes cidades a ação de agentes estatais e paramilitares produz novas vítimas em escala industrial. Muitas delas crianças. Algumas enquanto brincavam em seus quintais. E o esforço por elucidar o passado recente já esbarra nas mesmas interdições que marcam a luta das mulheres da Colômbia que não puderam enterrar seus filhos.

A paz e a esperança de reconciliação no Brasil têm as mesmas saídas obstruídas por perguntas sem respostas.

Uma delas nos persegue como sombra desde março de 2018: quem mandou matar Marielle Franco?

A pergunta se desdobra em muitas outras. Passados três anos, ninguém sabe a quem se opunha e quais riscos representava a vereadora carioca em seu primeiro mandato para precisar ser metralhada e eliminada, em via pública, junto com seu motorista Anderson Gomes, por um mandante até agora sem rosto — sem rosto, sem punição, sem cessar-fogo.

Sem que as luzes das tragédias distantes ou contemporâneas sejam acesas, o futuro de conciliação segue entrevado enquanto trombamos uns nos outros. As trombadas nos levam à vala comum das feridas abertas de um país organizado por perguntas sem respostas.

Quem matou Marielle Franco e por quê? Cadê o Amarildo? O que havia nos celulares do miliciano Adriano da Nóbrega, parceiro de Fabrício Queiroz, pivô do caso das rachadinhas da família Bolsonaro, quando foi morto em uma troca de tiros com a polícia na Bahia? Quem mantinha seus segredos e seu padrão de vida e por quê? O que os vizinhos de Bolsonaro, presos no caso Marielle, ganharam com a execução?

A essas perguntas se somam outras, e outras. Cada uma delas é um buraco mal fechado de um tecido social gangrenado que torna um país inteiro refém do assombro e do imobilismo.