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Quem foi Marie Curie, cientista que ganhará filme em 2020; assista ao trailer!

Patrícia Gnipper

No próximo ano, o livro Radioactive: Marie & Pierre Curie: A tale of love and fallout, de Lauren Redniss, será adaptado ao cinema com o longa Radioactive, que será, tal qual a obra literária, uma biografia da cientista Marie Curie, a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel — dois, na verdade!.

Curie será interpretada nas telonas por Rosamund Pike, enquanto Sam Riley viverá seu marido, Pierre Curie. A trama contará a história da Marie e sua luta em ser ouvida e respeitada pela comunidade científica de sua época, além de retratar seu casamento e as descobertas científicas ao lado de seu marido — em especial importantes elementos químicos que trazem à tona a radioatividade; rádio e polônio.

Assista ao primeiro teaser-trailer oficial do longa:

Mas quem foi Marie Curie?

Consagrada com dois Nobel (física e química), Marie Curie é um dos primeiros nomes que todo mundo pensa quando se fala em "mulheres pioneiras na ciência". E não é por menos; afinal, ela ficou conhecida por suas importantes contribuições sobre a radioatividade, e até hoje é a única mulher a receber o prêmio Nobel duas vezes, em duas áreas diferentes.

Polonesa, Marie Skłodowska Curie nasceu na Varsóvia em 1867, e foi a primeira mulher a ser admitida na Universidade de Paris, cidade onde desenvolveu seu trabalho científico aclamado. O termo "radioatividade", inclusive, foi criado por Curie, em sua Teoria da Radioatividade, e ela também desenvolveu técnicas para isolar isótopos radioativos, descobrindo dois novos elementos (polônio e rádio). Os primeiros estudos sobre o tratamento de neoplasmas com o uso de isótopos radioativos foram conduzidos sob sua direção, e ela também foi fundadora de de dois institutos de pesquisa médica que são, até hoje, de suma importância: o Instituto Curie, em Paris, e outro homônimo na Varsóvia.

Mas, até chegar a este ponto em sua carreira, sua vida não foi nada fácil: Curie foi a quinta e última filha de um casal de professores poloneses que perdeu tudo o que tinha como consequência de seu ativismo em prol da independência da Polônia. Seu pai, professor de física e matemática, foi quem a incentivou inicialmente a seguir carreira científica, sendo que ela precisou batalhar muito para obter educação superior apenas pelo fato de ser mulher em uma época em que elas não eram aceitas em universidades. Curie conseguiu uma vaga na Universidade Volante, que era uma instituição clandestina pró-Polônia que justamente desafiava as autoridades russas, permitindo a inscrição de alunas mulheres.

Durante sua juventude, Curie trabalhou como governanta para conseguir se manter, e foi nesta época em que conheceu o que viria a se tornar seu futuro esposo, um matemático eminente cuja família a rejeitou por conta de suas condições financeiras. Até que o casório enfim desse certo, Curie investiu em sua carreira, juntando dinheiro para custear seus estudos enquanto já começava a trocar cartas com personalidades do meio científico — e uma dessas personalidades foi ninguém menos do que Albert Einstein, que se tornou ferrenho defensor de Marie Curie no meio acadêmico.

Apoio de Einstein

Albert Einstein e sua amiga Marie Curie em 1929

Muito antes de a humanidade sonhar com a rede mundial de computadores e seus "trolls" de plantão, Marie Curie já foi vítima desse tipo de coisa. Não bastou ter sido impedida de estudar por ser mulher, ter sofrido com dificuldades financeiras, ter passado fome e ter sido rejeitada pela família de seu marido por ser pobre, a cientista ainda precisou lidar com membros da mídia francesa que tentavam difamá-la.

Em 1911, quando Curie se tornou a primeira mulher a ganhar dois Nobel em duas áreas diferentes, a imprensa francesa iniciou uma campanha difamatória ao publicar um escândalo sensacionalista revelando cartas de amor que Curie trocara com um cientista chamado Paul Langevin, que era casado, enquanto Curie já era viúva.

Na verdade, Langevin e sua esposa já viviam separados, mas no papel o casamento ainda se mantinha, e sua esposa foi quem levou as cartas à imprensa francesa na tentativa de "queimar o filme" da amante de seu ainda marido — e a mídia apoiou o escândalo, pintando Curie como uma verdadeira destruidora de lares.

Naquele mesmo ano, durante a primeira Conferência de Solvay, Curie recebeu o ombro amigo de Albert Einstein, horrorizado com o comportamento da mídia francesa e sua campanha de difamação. O cientista escreveu uma carta de apoio à colega, cuja tradução você vê logo abaixo da imagem:

“Muito estimada Sra. Curie,

Não ria de mim por lhe escrever não tendo nada sensível a dizer. Mas estou tão enraivecido pela forma com a qual o público presentemente tem ousado a se interessar por você que eu absolutamente preciso dar vazão a este sentimento. Contudo, estou convicto de que você despreza consistentemente esta ralé, quer obsequiosamente esbanje respeito por você, quer ela tente saciar seu desejo por sensacionalismo! Eu estou impelido a lhe dizer o quanto vim a admirar seu intelecto, seu ímpeto, e sua honestidade, e que eu me considero sortudo por ter lhe conhecido pessoalmente em Bruxelas. Qualquer um que não se enquadre entre estes répteis está certamente feliz, tanto agora quanto antes, que nós tenhamos entre nós figuras como você, e Langevin também, pessoas reais com quem qualquer um se sente privilegiado por manter contato. Se a ralé continuar a se ocupar com você, então simplesmente não leia esta bobagem, mas sim a deixe para o réptil pelo qual ela foi fabricada.

Com os mais amigáveis cumprimentos a você, Langevin e Perrin, atenciosamente, A. Einstein”

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O trabalho de Curie com a radioatividade

Deixando a vida pessoal da cientista de lado, vamos falar um pouco sobre as contribuições de Marie Curie para a ciência, de fato. Ela começou a estudar a radiação emitida por sais de urânio em 1886 ao lado de seu marido, e a partir daí passou a pesquisar materiais que também produziam radiação. Foi assim que ela descobriu novos elementos, com tudo sendo anunciado à Academia de Ciências de Paris.

O primeiro deles foi o polônio — nome que faz referência à Polônia, país natal da cientista —, com o rádio sendo descoberto logo depois (e esse nome está ligado à sua intensa radiação). Assim, o casal inventou os termos "radioatividade" e "radioativo" para caracterizar a energia liberada espontaneamente por elementos químicos.

Já em 1903, Curie foi aclamada com o Nobel de Física "em reconhecimento aos extraordinários resultados obtidos por suas investigações conjuntas sobre os fenômenos da radiação", no mesmo ano em que recebeu seu doutorado em ciências. Três anos depois, logo após a morte de seu marido, a cientista ocupou seu lugar como professora de física geral na Faculdade de Ciências, e também foi a primeira mulher a ocupar este cargo. O segundo Nobel veio em 1911 (o de química), pelo seu trabalho com a radioatividade.

Curie participou das sete primeiras edições da Conferência de Solvay, evento que reúne, até hoje, celebridades científicas do mundo todo, proporcionando avanços fundamentais em diversos ramos da ciência. Na primeira edição, de 1911, Curie estava ao lado de seu amigo e apoiador Albert Einstein.

Foto da primeira edição da Conferência de Solvay, em que Marie Curie aparece junto a Albert Einstein em 1911

Como podemos ver, diferentemente do que aconteceu com muitas das célebres cientistas da nossa história, Curie obteve reconhecimento ainda em vida, mas não pense que ela enriqueceu por conta disso: a cientista não patenteou o processo de isolamento do rádio, permitindo que toda a comunidade científica investigasse as propriedades do elemento e, assim, agregando conhecimentos à sua descoberta inicial ao longo do tempo.

Marie Curie morreu em 1934 aos 66 anos de idade, vítima de leucemia — consequência da exposição intensa à radioatividade, já que, naquela época, ainda não se tinha pleno conhecimento dos perigos de tal exposição. Seu livro Radioactivité, que foi publicado após sua morte, é considerado um dos marcos dos estudos sobre a radioatividade, por sinal, e é uma obra estudada até os dias atuais. Mas ninguém pode colocar as mãos no seu livro original: por conta da alta radioatividade a que Curie e seus ambientes de trabalho estavam expostos, o livro físico só pode ser manipulado, até hoje, por pessoas usando roupas especiais protetoras, pois ele ainda é altamente radioativo!

O livro Radioactivité original e ainda altamente radioativo

Fonte: Canaltech

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