Mercado fechado
  • BOVESPA

    93.952,40
    -2.629,76 (-2,72%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    36.987,86
    +186,49 (+0,51%)
     
  • PETROLEO CRU

    35,72
    -0,45 (-1,24%)
     
  • OURO

    1.878,80
    +10,80 (+0,58%)
     
  • BTC-USD

    13.696,47
    +149,48 (+1,10%)
     
  • CMC Crypto 200

    265,42
    +1,78 (+0,68%)
     
  • S&P500

    3.269,96
    -40,15 (-1,21%)
     
  • DOW JONES

    26.501,60
    -157,51 (-0,59%)
     
  • FTSE

    5.577,27
    -4,48 (-0,08%)
     
  • HANG SENG

    24.107,42
    -479,18 (-1,95%)
     
  • NIKKEI

    22.977,13
    -354,81 (-1,52%)
     
  • NASDAQ

    11.089,00
    -253,75 (-2,24%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,6872
    -0,0584 (-0,87%)
     

Quem é o empresário hacker que criou o 'Lollapalooza da tecnologia'

Lucas Carvalho
·7 minutos de leitura
Anderson Ramos, CTO da Flipside e criador do Roadsec. Foto: Backstage Produções / Divulgação
Anderson Ramos, CTO da Flipside e criador do Roadsec. Foto: Backstage Produções / Divulgação

Anderson Ramos é um homem de negócios. Fundador e CTO da Flipside, este paulista de 41 anos trabalha com tecnologia há mais de duas décadas e é organizador de um dos maiores eventos de segurança da informação da América Latina, o Mind the Sec, que nesta semana chega à sua 6ª edição em meios às incertezas da pandemia.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Finanças no Google News

Mais antigo que o seu lado empreendedor é o seu outro alter ego. Anderson é um hacker. Mas não do tipo que aplica golpes de clonagem de WhatsApp ou invade conversas de políticos. Hacker como os que frequentam o Roadsec, outro evento organizado anualmente pela Flipside e que funciona como uma espécie de "Lollapalooza da tecnologia".

Leia também

"Invadir sistema por esporte. Pelo desafio. A gente não é bandido, mas conseguir estudar a ponto de você dobrar o sistema, esse é o grande barato". É assim que Anderson define o que ele chama de "cultura hacker", o ambiente que ele frequentou desde jovem e que o formou como empresário do ramo de tecnologia e conteúdo.

A relação de Anderson com a tecnologia começou bem cedo. Crescendo numa família pobre da periferia da zona norte de São Paulo, ele teve contato com computadores por meio do pai, que tinha o hábito de fazer "rolos" – trocar produtos em feiras ou com amigos em sequência até alcançar um objeto de valor que valha a pena ser vendido.

Desse jeito Anderson teve acesso aos seus primeiros computadores, a maioria deles usados ou em péssimo estado de conservação. Curioso, aprendeu a mexer neles mesmo assim e, com a chegada da adolescência e da necessidade de trabalhar, começou a procurar empregos que lhe dessem acesso a máquinas melhores.

A cada novo emprego, sua experiência com computadores crescia e, paralelamente, seu interesse pela cultura hacker também. Foi numa locadora de games que ele conheceu os primeiros fóruns online (quando a internet ainda engatinhava no Brasil, meados da década de 1990) onde entusiastas trocavam ideias sobre sistemas de código aberto e fechado.

Foi no curso técnico de eletrônica que ele conheceu os phreakers, uma comunidade de hackers interessados em destrinchar sistemas de linhas telefônicas para fazer ligações internacionais de graça. Um esporte muito praticado na juventude por Steve Jobs e Steve Wozniak, os fundadores da Apple.

O objetivo de fazer ligação de graça, porém, era nobre, já que, na época, as conexões à internet usavam as linhas telefônicas, e a fome por conhecimento na rede mundial de computadores era grande demais. "Para você acessar a internet sem limite, não tinha outra forma", diz. "Ninguém queria roubar empresa de telefonia, a galera queria entender qual era o limite [da tecnologia]."

O caminho de Anderson e da comunidade hacker começou a se distanciar conforme o paulistano se profissionalizava no ramo de T.I.. Com 21 anos e já trabalhando em uma das únicas e maiores empresas de segurança da informação no Brasil, ele foi para os Estados Unidos conseguir uma certificação em segurança da informação que certamente lhe abriria mais portas de emprego. Entre seus amigos hackers, porém, aquele não era um caminho muito bem visto.

"A galera vê como uma espécie de mercantilização do conhecimento", diz Anderson. Mas como ele não tinha condições de fazer uma faculdade – "sou de uma época em que pobre não fazia faculdade [...] e em faculdade pública os cursos eram de dia, você tinha que trabalhar" – a certificação paga pelo seu empregador era uma oportunidade de ouro.

A certificação de fato lhe abriu portas. Anderson chegou a trabalhar na Europa e deu aulas de treinamento para candidatos àquele mesmo certificado em Londres. No meio acadêmico e profissional, porém, se autoproclamar "hacker" pegava mal. "A galera achava que você era bandido."

O hacker vira empresário

Anderson Ramos no Mind the Sec 2019. Foto: Divulgação / Flipside
Anderson Ramos no Mind the Sec 2019. Foto: Divulgação / Flipside

Trabalhando em Londres, chegou uma proposta para trazer o instituto responsável pela certificação CISSP para a América Latina. Mas ele só topou com a condição de que isso lhe permitisse abrir sua própria empresa, e que ela funcionasse como representação comercial da International Information System Security Certort Consortium, ou (ISC)², no Brasil.

Associando-se à também especialista em segurança Priscila Meyer, assim nasceu a Flipside, em 2008: um braço representativo da (ISC)² na América Latina e, em um ângulo mais amplo, uma empresa de educação em segurança da informação. Os eventos organizados pela empresa, segundo Anderson, nasceram como uma extensão natural do negócio de gerar conteúdo e estimular a troca de conhecimento entre candidatos ao certificado CISSP.

Os tempos de hacker full-time tinham ficado para trás, mas nessa época a comunidade começava a "sair do armário", como diz Anderson. Os atos de protesto de grupos como Occupy Wall Street e o coletivo Anonymous colocaram o termo "hacker" na mídia sob um novo olhar. Os entusiastas aos poucos não eram mais vistos como bandidos.

Pela Flipside, Anderson começou a participar e até a dar pitacos em eventos de tecnologia e segurança da informação organizados por outras empresas e grupos. Até que o empreendedor decidiu "parar de encher o saco dos caras", segundo suas palavras, e criar seus próprios eventos, com o objetivo de preencher lacunas que ele via no mercado.

"Os eventos para o público profissional eram muito fracos, eram eventos de negócios sem sustentação técnica… eram uns feirões de negócios mesmo", diz, explicando a origem do Mind the Sec, criado para reunir profissionais da área de segurança que realmente entendiam de tecnologia, e não só de negócios.

O Roadsec, por sua vez, nasceu como uma tentativa de Anderson de resgatar jovens hackers que, segundo ele, estavam desperdiçando seus talentos com golpes ou até mesmo sendo aliciados pelo crime organizado simplesmente por não ter um contato mais amplo com a comunidade de entusiastas "do bem".

A ideia do Roadsec é ser uma "celebração da cultura hacker", diz Anderson. Por isso o evento, que também inclui palestras e centro de recrutamento, mistura ainda campeonato de invasão de sistema e música. A edição 2018 foi palco de shows de Marcelo D2 e Gabriel, o Pensador, durante toda a madrugada. Em 2019 o evento teve até implante de chips para os fãs de biohacking.

Palestra realizada no Roadsec 2019 – horas mais tarde, o palco receberia uma balada completa. Foto:
Palestra realizada no Roadsec 2019 – horas mais tarde, o palco receberia uma balada completa. Foto: Divulgação / Flipside / Backstage Produções

A última edição presencial do Roadsec teve 3.200 participantes e o Mind the Sec viu 2.000 pessoas em dois dias de evento. Por isso, quando a pandemia de covid-19 estourou e colocou todo o setor de eventos em algemas, o CTO da Flipside teve que se virar.

A equipe responsável pela edição 2020 dos dois eventos já estava montada e até passou pela sua cabeça a polêmica ideia de mandar todo mundo embora e montar uma nova especializada em eventos online, mas "não daria tempo". Ele optou por manter seu time e correr contra o tempo para se readaptar.

Cancelar o evento, como outros empresários do setor fizeram, mal passou pela cabeça dele. "A facilidade com que todo mundo [no mercado profissional] cancelava eventos sem nem explorar uma coisa online era um negócio que me chocava", diz. "Mas eu entendo, 50% dos eventos no Brasil operam no vermelho."

Semelhante ao que foi feito na Campus Party, um dos maiores eventos de tecnologia do Brasil, o Mind the Sec 2020 será totalmente online, com palestras e workshops apresentados através de uma plataforma própria e totalmente gratuitos. O evento, que começa na próxima terça-feira (15), pode ser um ensaio para o Roadsec.

No futuro, após o fim da pandemia de covid-19, Anderson acredita que o setor seguirá por um caminho híbrido – mais eventos acontecerão presencialmente, simultaneamente transmitidos pela internet. E como todo bom hacker, o empresário planeja estar lá para testar os limites desse novo formato.

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube