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Queimando as pontes diplomáticas com a China: veja como o governo Bolsonaro agiu

Eliane Oliveira e Daniel Gulino
·4 minuto de leitura
Jorge William/Agência O Globo/20-10-2020

BRASÍLIA — Em evidência devido ao atraso na importação de insumos para a fabricação da vacina CoronaVac, a relação entre Brasil e China sofreu diversos abalos nos últimos anos. O governo brasileiro começou a queimar pontes antes mesmo de Jair Bolsonaro tomar posse, quando ele disse que os chineses deveriam comprar do Brasil, e não comprar o Brasil.

Mas os ataques se fortaleceram a partir de março do ano passado com declarações negativas sobre o país asiático feitas em redes sociais pelo filho do presidente da República e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e até o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, que fez uma piada com o sotaque chinês imitando o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica.

Já Eduardo colocou em dúvida o papel da China em relação a dois pontos extremamente delicados para Pequim: o coronavírus e a tecnologia 5G de telefonia celular. Os Estados Unidos pressionam o Brasil a banir a empresa chinesa Huawei como fornecedora de infraestrutura.

Quando reagia, o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, era severamente repreendido pelo Itamaraty. Esse pano de fundo explica a razão de o diplomata chinês e Ernesto Araújo não terem se falado uma única vez para tentar resolver o problema da demora na liberação do envio de insumos para a fabricação, no Brasil, da vacina CoronaVac.

Confira os principais episódios:

'Comprando o Brasil'

O primeiro atrito ocorreu ainda antes da posse. Em outubro de 2018, no segundo turno da eleição, Bolsonaro afirmou que "a China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil". Após sua eleição, o jornal "Global Times", considerado um porta-voz informal do governo de Pequim, publicou um editorial afirmando que a imagem da China foi "injustamente depreciada" por Bolsonaro.

Coronavírus

Em março de 2020, o deputado Eduardo Bolsonaro questionou medidas tomadas pelo governo chinês no combate ao coronavírus e a transparência no fornecimento de informações sobre a doença. O embaixador chinês exigiu que o governo brasileiro pedisse desculpas, mas não foi isso que aconteceu.

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro dizia que o caso era página virada, o chanceler Ernesto Araújo deixou claro que a questão envolvendo o parlamentar só seria resolvida se o embaixador se retratasse publicamente . A situação foi resolvida com um telefonema de Bolsonaro ao presidente da China, Xi Jinping.

Weintraub cita Cebolinha

Em abril, o ex-ministro da Educação, Abraham Wentraub, imitou o sotaque chinês usando o linguajar do personagem de história em quadrinhos Cebolinha, em uma rede social, irritando Pequim. Sem citar nomes, mas em uma referência velada a Eduardo Bolsonaro e Weintraub, o porta-voz da embaixada da China em Brasília, Qu Yuhui, afirmou que as boas relações entre seu país e o Brasil não seriam abaladas por declarações "lamentáveis e irresponsáveis" feitos por figuras públicas importantes do governo brasileiro. Weintruab é investigado por racismo pelo caso.

Reunião ministerial

Em uma reunião ministerial ocorrida em abril, que teve sua gravação divulgada por determinação do STF, Weintraub e Ernesto fizeram comentários negativos sobre a China. Partes do vídeo foram suprimidas por ter referências a outras países. Entretanto, algumas críticas acabaram ficando.

Sem citar a China, Ernesto afirmou que a globalização pôs no centro da economia internacional "um país que não é democrático, que não respeita direitos humanos". Em um dos trechos cortados, Weintraub disse odiar o "Partido Comunista", mas o resto da frase foi retirado. Em seguida, diz que o partido quer transformar o Brasil em uma colônia.

Vacina sem credibilidade

Em outubro, Bolsonaro afirmou que o Brasil não compraria a vacina CoronaVac porque existiria um "descrédito muito grande" na população em relação à China. O imunizante é produzido pela farmacêutica chinesa Sinovac. Em outros

— A (vacina) da China nós não compraremos, é decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população — disse Bolsonaro na época. — A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá.

Espionagem do 5G

Eduardo Bolsonaro voltou ao ataque em novembro. Em uma rede social, disse que o Partido Comunista Chinês fará espionagem, caso a empresa Huawei atue na tecnologia 5G. O embaixador chamou de infame a declaração de Eduardo e advertiu que esse tipo de atitude prejudicaria as relações bilaterais. Em seguida, o Itamaraty enviou carta à embaixada da China dizendo que a resposta de Yang Wanming tinha conteúdo ofensivo e desrespeitoso.