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Queda histórica do PIB europeu revela recuperação desigual entre países

Gabriel Roca

Divergências estão ligados a fatores como rigor do lockdown e levantam dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação Os dados do segundo trimestre do Produto Interno Bruto (PIB) dos países da zona do euro não deixam dúvidas quanto ao tamanho do estrago da pandemia da covid-19 na economia da região. A diferença entre a queda na atividade de cada um dos países, no entanto, chama a atenção de analistas, que alertam para a possibilidade de uma recuperação desigual dentro da união monetária.

A economia da zona do euro registrou a contração no ritmo mais rápido já registrada na história durante o segundo trimestre, em consequência dos bloqueios impostos para limitar a propagação do novo coronavírus, que acabaram paralisando muitas atividades comerciais.

Na média dos 19 países que compõem a união monetária, o PIB (produto interno bruto) caiu 12,1% no segundo trimestre, informou nesta sexta-feira a Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia, em uma primeira estimativa para o período. Economistas consultados pelo “The Wall Street Journal” esperavam uma contração de 11,3%.

Além disso, a crise trouxe o nível do PIB da zona do euro de volta para meados dos anos 2000, eliminando amplamente quinze anos de crescimento. Segundo analistas, o cenário é ainda mais sombrio quando se consideram os dados do PIB per capita, que, para o bloco como um todo, está em linha com o do início dos anos 2000.

Mas a diferença na maneira em que os países do bloco foram atingidos pelos impactos econômicos salta aos olhos dos analistas. “Os dados destacam a desigualdade do choque entre o bloco; a queda de 18,5% no PIB espanhol foi quase o dobro da queda de 10,1% na Alemanha”, aponta a economista-chefe de França da Oxford Economics, Daniela Ordonez.

Segundo ela, a divergência significa que o ponto de partida para a recuperação difere acentuadamente entre os países do bloco e levanta questões sobre a sustentabilidade da retomada econômica.

O economista do Rabobank, Erik-Jan van Harn, explica que essa disparidade pode ser explicada por uma série de fatores.

“Primeiro, a estrutura de uma economia. Economias com um grande setor de hospitalidade, por exemplo, são mais vulneráveis. Segundo, o rigor do ''lockdowns'': geralmente, o dano econômico foi maior nos países que sofreram bloqueios mais rígidos. Terceiro, as finanças do governo. Países como Alemanha e Holanda estão em melhor posição financeira para apoiar a economia do que países como Itália e Espanha”, explica.

Para o economista do Rabobank, as diferenças entre o norte e o sul da Europa são imensas e representam um desafio para a retomada econômica. “Mesmo que os números recentes mostrem uma melhora significativa em relação ao período de lockdowns, dizer que a economia estará fora de perigo no curto prazo seria presunçoso”, pontua.

É consenso entre os analistas que a melhora dos dados de alta frequência nas últimas semanas no continente europeu indica que uma recuperação expressiva do crescimento deva ocorrer no terceiro trimestre, que também deve ser ajudada pelas bases fracas do segundo trimestre.

“Ajudado por um efeito base, o terceiro trimestre deve mostrar uma forte recuperação do PIB em relação ao segundo trimestre - deprimido por um abril muito fraco. Com sorte, a economia poderá recuperar cerca de metade de suas perdas do segundo trimestre no terceiro trimestre”, afirmou o economista do banco alemão Berenberg, Florian Hense.

No entanto, a sustentabilidade do crescimento a médio prazo ainda permanece incerta. Segundo Hense, não está claro com que rapidez o ritmo da recuperação vai se estabilizar. Quando a maior parte da oferta for reativada, o ritmo dependerá em grande parte da recuperação da demanda.

Praia vazia durante a quarentena em Barcelona, na Espanha, onde a queda no PIB foi quase o dobro da Alemanha

Angel Garcia/Bloomberg

No entanto, os temores de uma segunda onda podem restringir o consumo das famílias e o investimento das empresas, de acordo com o economista do Berenberg. “Espanha, Itália e sul da Europa sofrerão com uma temporada de verão decepcionante. A demanda externa provavelmente permanecerá lenta, já que outras partes da economia global demoram mais para controlar a pandemia”.

A opinião é semelhante à do economista-sênior de zona do euro do ING, Bert Colijin. Para ele, a parte mais difícil da recuperação deve começar agora.

“Primeiro de tudo, a tendência crescente nos novos casos de covid-19 aumenta o risco de uma reversão das reaberturas e já estamos vendo sinais locais disso. Em segundo lugar, a partir de agora, aumentos no desemprego, nas falências e o baixo investimento trarão à luz mais características de uma crise econômica geral”, afirma.

Segundo o executivo, é provável que esses fatores se arrastem por algum tempo, fazendo com que uma rápida recuperação dos níveis de PIB anteriores à pandemia esteja completamente fora de questão.

Em meio a incertezas sobre a recuperação e perspectivas de que ela será desigual, é unânime entre os analistas que o fundo de recuperação aprovado pelos líderes da União Europeia é fundamental para amenizar os efeitos da pandemia no velho continente.

“Essas incertezas enfatizam a importância de uma resposta europeia coordenada e significativa. O plano de recuperação de 750 bilhões de euros da UE, acordado na semana passada pelos líderes europeus e que ainda precisa de aprovação do parlamento europeu, poderia fornecer um grande apoio às economias mais afetadas”, afirma Daniela Ordonez, da Oxford Economics.

A economista pondera, no entanto, que o tamanho do pacote permanece limitado para ser um verdadeiro fator de mudança do ponto de vista macroeconômico na região.