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Quebra do teto de gastos traz pressão por alta maior da Selic

·6 min de leitura

(Bloomberg) -- O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, contava com uma certa disciplina fiscal de seus colegas no governo. Isso, pelo menos, é o que ele disse repetidamente aos investidores nos últimos meses, enquanto crescia a ansiedade com o novo programa social prometido pelo presidente Jair Bolsonaro.

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Na semana passada, as garantias públicas de Campos Neto se chocaram com a dura realidade de Brasília às vésperas das eleições do próximo ano. Bolsonaro, desesperado por aumentar seus índices de aprovação, anunciou um programa social tão grande e amplo que desencadeou fortes perdas nos ativos brasileiros e a renúncia de membros-chave da equipe econômica, inclusive o secretário do Tesouro.

A tensa sucessão de eventos agora pressiona o próprio Campos Neto. Enquanto ele se prepara para começar a reunião de política monetária de dois dias amanhã, operadores do mercado estão olhando para o presidente do BC e demais membros do Copom como a última linha de defesa contra a inflação galopante e a turbulência cambial. Até mesmo o ministro da Economia, Paulo Guedes, deixou claro que o fardo agora recai sobre o banco central, dizendo na sexta-feira que a autoridade monetária terá que correr mais rápido para não ficar atrás da curva.

A especulação está aumentando nos mercados de futuros de que o BC irá aumentar a taxa de juros, hoje em 6,25%, em mais de um ponto percentual na reunião desta semana. Mesmo para um banco central que ganhou a reputação de ser um dos mais hawkish do mundo após cinco altas consecutivas, isso seria um passo ousado. Seria o maior aumento de juros no Brasil em quase duas décadas.

A questão é se, em um país onde tantas coisas que estão fora do controle de Campos Neto estão dando errado, ele consegue conter a maré sozinho. O aumento das taxas de juros pode, por si só, acabar com a febre da inflação e acalmar os investidores?

“Parece muito difícil o BC alcançar a meta sem choque favorável em 2022”, disse Mauricio Oreng, economista sênior do Banco Santander Brasil. Ele prevê que a inflação, agora com uma alta anual de mais de 10%, desacelerará para 4,7% no ano que vem, antes de atingir a meta de 3,25% em 2023. Mas isso desde que as taxas de juros atinjam dois dígitos no final do ciclo. A maioria dos analistas vê a inflação em 4,4% no próximo ano.

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O BC já havia se comprometido a seguir elevando a Selic ao ritmo de 1 ponto percentual até que as expectativas de inflação voltassem à meta. Mas, os economistas agora dizem que esse ritmo parece muito brando se o BC for cumprir a promessa de fazer “o que for preciso” para controlar os preços.

“Para manter o compromisso inquestionável com a meta de 2022, o BC precisa surpreender o mercado e acelerar de forma relevante o ritmo de ajuste”, disse Mariana Guarino, gestora de portfólio da Truxt Investimentos, com sede no Rio de Janeiro. Isso pode significar um aumento da taxa em até 2 pontos percentuais na quarta-feira, acrescentou ela.

A curva de juros já precifica um aumento de 174 pontos-base esta semana. Analistas de grandes bancos estrangeiros esperam uma aceleração do aperto monetário -- Morgan Stanley prevê alta de 1,25 ponto percentual, enquanto JPMorgan, UBS, BNP Paribas e Barclays esperam elevação de 1,5 pp. A última vez que o Brasil viu aumentos nas taxas de tais magnitudes foi no final de 2002, um pouco antes de Luiz Inácio Lula da Silva tomar posse.

Risco de estagflação

O problema é que, ao mesmo tempo em que aumentos de juros maiores do que o esperado podem ser ineficazes para trazer a inflação para a meta do próximo ano, eles correm o risco de comprometer a frágil recuperação econômica.

Grande parte da inflação atual do Brasil é explicada por preços que mal respondem à política monetária: alimentos, combustíveis e eletricidade. Além disso, a distribuição de recursos proposta por Bolsonaro de R$ 400 reais por mês para cerca de 17 milhões de famílias pobres provavelmente aumentará a demanda por itens básicos, tornando-os mais caros.

A recuperação econômica do Brasil já deve perder força no próximo ano, mesmo com a reabertura do setor de serviços, com cerca de metade da população de 210 milhões totalmente vacinada contra Covid-19. Após aumento de 4,25 pp na taxa de juros desde março, os economistas estimam que o PIB deve expandir apenas 1,4% em 2022 -- alguns dizem que qualquer crescimento será resultado de carregamento estatístico.

Leia mais: Ex-BCs veem inflação na meta só em 2023: Café com Mercado

“Se o BC entregar a alta dos juros que está embutida na curva, o Brasil entra em recessão em 2022”, disse o ex-diretor do Banco Central Tony Volpon, agora estrategista de investimentos da Wealth High Governance, gestora de recursos em São Paulo. “O que estamos assistindo é um enorme aperto das condições financeiras por parte do mercado. Isso é negativo para a economia, vai desacelerar o PIB e será deflacionário para a inflação.”

Derretimento da moeda

Uma eventual decisão de não apertar agressivamente a política monetária, no entanto, pode deixar o país mais vulnerável à turbulência cambial. O dólar subiu mais de 3% na semana passada e o real teve o pior desempenho entre as moedas de mercados emergentes, depois da lira turca. O real perdeu cerca de 8% de seu valor em relação ao dólar até agora neste ano, apesar de o Brasil ser um exportador de commodities que deveria se beneficiar do aumento dos preços das matérias-primas.

A pressão cambial faz parte de uma ampla reavaliação do risco do Brasil por investidores que agora estão desiludidos com as promessas de disciplina fiscal feitas pelo governo. A intervenção do Banco Central, que detém mais de US$ 330 bilhões em reservas internacionais, seria inútil em tal cenário, segundo Caio Megale, economista-chefe da XP Inc. e ex-integrante da equipe de Guedes.

“Se o BC atua contra isso, vai perder reservas, vai perder munição e não vai mudar a tendência do câmbio”, disse ele.

Os próximos dias serão cruciais para os ativos brasileiros, pois o governo deve detalhar quanto está planejando gastar além do teto de gastos, regra que limita o crescimento das despesas públicas à taxa de inflação do ano anterior.

No entanto, há poucas dúvidas sobre a deterioração dos fundamentos fiscais do país.

“A forma como eles quebraram o teto fiscal é importante, mas o quadro geral é que a regra é fácil de quebrar”, disse Alvaro Mollica, estrategista de mercados emergentes do Citigroup Inc.

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