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Do que é feito o núcleo de Marte? Cientistas estão próximos da descoberta

Daniele Cavalcante

Os resultados de uma pesquisa realizada por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Tóquio podem trazer consequências importantes para os que estudam a geologia de Marte. De acordo com o estudo sobre a atividade sísmica do Planeta Vermelho, as teorias atuais a respeito das origens daquele mundo podem mudar consideravelmente.

Simulando o ambiente marciano aqui na Terra, Keisuke Nishida, professor assistente do Departamento de Ciências Planetárias e da Terra da Universidade de Tóquio, no Japão, reuniu sua equipe para tentar entender melhor as condições sísmicas do planeta. Para isso, eles imitaram no núcleo superior de Marte com a ajuda de uma liga fundida de ferro-enxofre.

Essa liga foi elevada a uma temperatura de 1.532 °C e esmagada sob uma pressão de 13 gigapascais - isso é bastante pressão; para se ter uma ideia, 1 gigapascal é superior a10 mil quilograma-força por cm². Para isso, eles usaram uma prensa e, assim, foram capazes de medir a atividade sísmica do local.

Nishida capturou Ondas-P (um tipo de onda sísmica que se propaga em um meio contínuo; é a primeira onda que as pessoas sentem ao presenciar um terremoto, sendo seguida pelas secundárias chamadas Ondas-S) viajando através da liga a uma velocidade de 4.680 metros por segundo. Eles também capturaram imagens desse movimento de ondas usando feixes de raios X de duas instalações de síncrotron (um tipo de acelerador cíclico de partículas): a Photon Factory e a SPring-8, ambas do Japão.

Nuvens sobrevoam o sismômetro SEIS, da sonda InSight, em Marte, que registra atividades sísmicas do Planeta Vermelho (Imagem: NASA/JPL-Caltech)

De acordo com Nishida, “foram necessários mais de três anos para que pudéssemos coletar os dados ultrassônicos que precisávamos, por isso estou muito satisfeito por tê-los agora”. Embora a amostra seja muito pequena - em comparação ao planeta Marte -, experimentos de alta pressão como este “ajudam a explorar estruturas em macroescala e longas histórias evolutivas de planetas em escala de tempo”, concluiu o pesquisador.

Mas o que tudo isso significa? É que há muito tempo, alguns cientistas suspeitam que Marte possui um núcleo feito de ferro-enxofre, mas, como ainda não é possível realizar estudos diretamente no subsolo marciano, as ondas sísmicas são por enquanto bastante úteis. Elas permitem ir fundo e viajar pelo interior de um planeta para entender do que ele é feito apenas observando o tipo de ondas sísmicas ele produz. Depois, basta comparar com as ondas produzidas em ligas criadas para experimentos como este.

E não faltam ondas sísmicas no Planeta Vermelho. A sonda InSight, da NASA, aterrissou na planície marciana Elysium Planitia em 26 de novembro de 2018 para procurar por estes tremores e descobrir mais sobre o interior do planeta - e já registrou alguns. De acordo com Nishida, no entanto, existem algumas advertências nas medições da sonda.

Mas, como você já deve ter compreendido, os dados sísmicos sozinhos da InSight não são o suficiente. “Precisávamos conhecer as propriedades sísmicas da liga ferro-enxofre que se pensa formar o núcleo de Marte", disse Nishida. Com seu estudo, no entanto, os pesquisadores podem ler dados os sísmicos marcianos e compará-los com as experiências realizadas aqui na Terra para descobrir se o núcleo do Planeta Vermelho é mesmo constituído principalmente por ferro-enxofre.

Se não for essa a composição do núcleo de Marte, os cientistas terão que pensar nas origens do planeta. Por exemplo, se a composição for silício e oxigênio, pode ser que Marte, assim como a Terra, sofreu um enorme evento de impacto ao se formar, de acordo com Nishida. Por isso, graças ao seu estudo, publicado na revista Nature Communications, os pesquisadores podem estar perto de descobrir como nosso planeta vizinho se formou.


Fonte: Canaltech