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Quase 37% dos trabalhadores recebem até 1 salário mínimo no Brasil

***ARQUIVO***São Paulo, SP, Brasil, 21-02-2019: Dinheiro. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
***ARQUIVO***São Paulo, SP, Brasil, 21-02-2019: Dinheiro. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Após os impactos econômicos da pandemia, o Brasil teve um salto no número de trabalhadores com renda mais baixa, de até um salário mínimo.

É o que indica um levantamento do economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, a partir de microdados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).

No segundo trimestre deste ano, o mais recente com estatísticas disponíveis, cerca de 35,6 milhões de trabalhadores (formais e informais) tinham renda de até um salário mínimo por mês (R$ 1.212). Em termos absolutos, o número representa um recorde na série histórica, iniciada em 2012.

Os 35,6 milhões correspondiam a 36,6% da população ocupada com algum tipo de trabalho e com o rendimento detalhado nos microdados da Pnad (97,1 milhões).

No segundo trimestre de 2019, antes da pandemia, o número de profissionais com renda de até um salário mínimo estava em 27,6 milhões (7,9 milhões a menos), o equivalente a 29,9% dos ocupados à época (92,5 milhões). O salário mínimo era de R$ 998 naquele ano.

"Fica claro como ocorreu a recuperação do mercado de trabalho após o impacto da pandemia. O trabalho ficou mais barato", diz Imaizumi.

"A inflação incomodou o bolso das pessoas. Em um período de incerteza elevada, muitas aceitaram empregos com menor remuneração. E a recuperação veio primeiro via informalidade", acrescenta.

O levantamento aponta que o percentual de trabalhadores com renda de até um salário mínimo permaneceu acima de 30% da população ocupada ao longo de toda a crise sanitária -e ainda não mostrou grandes sinais de alívio.

A maior porcentagem da série histórica foi registrada no segundo trimestre de 2020, na fase inicial da pandemia: 36,9%. À época, 30,6 milhões de um total de 82,9 milhões ganhavam até o mínimo.

A Pnad é uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que retrata tanto o mercado de trabalho formal quanto o informal.

Em outras palavras, abrange desde os empregos com carteira assinada e CNPJ até os populares bicos. Os microdados analisados por Imaizumi passaram por ajuste sazonal.

Os informais não têm renda fixa, tampouco reajustes assegurados pela inflação. Porém, uma parte deles até pode se balizar pelo mínimo na hora de ofertar trabalho, segundo Imaizumi.

"O salário mínimo atinge mais o trabalhador formal. Aquele informal que tem mais qualificação até pode se balizar pelo mínimo. Mas o menos qualificado não está pensando nisso. Há níveis diferentes de informalidade."

O salário mínimo virou ponto central de debates às vésperas do segundo turno das eleições. O motivo foi a revelação por reportagem da Folha de um plano do ministro Paulo Guedes (Economia) que poderia resultar em mudanças na forma de correção do mínimo e de aposentadorias.

Na prática, a medida abriria possibilidade de o reajuste anual dos benefícios não levar mais em conta a inflação passada, regra em vigor atualmente.

Após a repercussão, Guedes negou mudar a regra "durante o jogo", mas sinalizou ser favorável à desindexação. O plano gerou uma enxurrada de críticas de adversários e foi usado como munição contra o governo Jair Bolsonaro (PL) na fase final da campanha.

Guedes chegou a associar a divulgação da proposta a militantes petistas que estariam infiltrados no Ministério da Economia.

Faixas com renda maior encolhem Enquanto o número de trabalhadores com renda de até um salário mínimo aumentou no país, os grupos de profissionais com rendimentos mais altos encolheram durante a pandemia, indica o levantamento de Imaizumi.

No segundo trimestre deste ano, o contingente que recebia entre um e dois salários mínimos foi estimado em 31,2 milhões, o equivalente a 32,1% da população ocupada com trabalho formal ou informal.

Em igual intervalo de 2019, antes do coronavírus, estava em 32,3 milhões (1,1 milhão a mais). A parcela representava 34,9% da população ocupada à época.

Já o grupo que recebia mais de dois salários mínimos ficou em quase 30,4 milhões no segundo trimestre deste ano, cerca de 2,2 milhões abaixo dos 32,5 milhões de 2019.

A participação na população ocupada atingiu 31,3% entre abril e junho de 2022, inferior ao percentual de 35,2% verificado em igual trimestre de 2019.

"Não dá para comemorar tanto a situação do mercado de trabalho. Em termos de aumento da ocupação, ok. Mas o fato é que o trabalho ficou mais barato na pandemia", analisa Imaizumi.